Academia Vianense de Letras

Quando o arcebispo Sapieha visitou a Paróquia de Wadovice, na Polônia de 1940, o pároco encarregou um rapaz de saudar o pastor. Sapieha, espantado, perguntou em voz velada: “Quem é esse jovem?” O padre respondeu: “É Karol Woytila...”

Um pouco antes, o arcebispo Carlos Carmelo, de São Luís, fez uma visita oficial a Viana e o pároco da Matriz encarregou um jovem estudante para saudar o pastor, futuro cardeal de São Paulo. Este, admirado, indagou: “Quem é esse rapaz?” O pároco vianense respondeu: “É João Mohana...”

João nasceu em Bacabal, mas sua cidade foi Viana, naquele tempo um celeiro de homens e mulheres notáveis, escolas boas e sacerdotes que figuravam entre os melhores oradores de todo o Brasil, como o Padre Manoel Arouche. Município de enorme produção  agropecuária, com muita fartura e pobreza sem miséria,  rica de folclore, danças de todo tipo (negras, indígenas e européias) e cercado de música por todos os lados, Viana era uma verdadeira comunidade e todos zelavam pelo bem público: o prefeito, o juiz, o promotor, o delegado e o padre. Os exames escolares, desde o primeiro ano primário, tinham todas essa autoridades formando a banca examinadora de fim-de-ano.

Nesse meio cultural, João Mohana  desenvolveu o espírito científico, o senso de pesquisa, a tendência para as novidades, o bom-humor no mais alto grau e o amor lúcido ao Maranhão. Ao deixar sua pequena Viana, fez o curso ginasial com professores franceses e espanhóis. Formou-se em Medicina na Bahia, quando a faculdade de lá era a melhor do país. Ao decidir-se pelo sacerdócio, completou o curso de Filosofia e fez Teologia no maior seminário da América Latina, o de Viamão, no Rio Grande do Sul. Neste seminário, João estudou inglês, latim, grego e hebraico, ao mesmo tempo em que mergulhava nas teses mais audaciosas de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

Quem ler os 44 livros escritos por João  Mohana, verá as maiores conquistas do mundo moderno, veiculadas por um estilo maravilhoso e perfeitamente harmonizadas com a fé cristã. Em alguns deles, o autor mostra seu profundo conhecimento da psicologia e da psicanálise.  Em Viana começou e em Viana terminou a maior pesquisa cultural feita no Maranhão, durante o século XX. “A descoberta do barroco mineiro é menor”, afirmou um perito, apreciando os três metros de partituras maranhenses, empilhadas. Foram gastos 27 anos de buscas, aventuras, despesas, desaforos e desconfianças. Tudo para salvar os 150 anos de sinfonias, concertos, polcas, pastorais, ladainhas, missas solenes, rapsódias, valsas e marchas.

João  utilizou, na pastoral, todo o conhecimento médico e psicológico que possuía. Sua obra é tão atualizada que, em 1981, numa biografia de Cristo, ele fala de “clonificação” (a nossa clonagem), quando quase ninguém falava no assunto. Seu mais famoso romance (Prêmio da Academia Brasileira de Letras) se inicia e tem seu desfecho final em Viana. Alguém já comparou “O Outro Caminho” com a túnica inconsútil de Cristo, ou seja, algo não costurado, pois o romance é uma só peça, um “verso perfeito”, sem costuras, fluindo como os rios  Pindaré e  Mearim, e sereno como o lago da bela cidade.

O Padre Mohana era uma pessoa muito pragmática. Quando alguém vinha comentar um “escândalo sexual” de qualquer religioso ele mudava de assunto, dizendo: “A única coisa que escandaliza os fiéis é padre estúpido!” Ou quando comentavam os “escândalos” da Igreja (Inquisição, Galileu, Cruzadas), respondia: “Vocês não olham o Espírito Santo, maior escândalo da Igreja, que a fez viver 2000 anos e a fará viver mais 2000!”

Pode-se dizer que o Padre João Mohana tinha os dois movimentos da terra: rotação e translação. Era centrado em Deus, pela sabedoria mística, e engajado na sociedade, como um servidor pastoral. Amava o passado, era fascinado pelo futuro e sua fidelidade maior era com o presente. Não via discórdia entre a fé e a ciência. Não notava desacordo entre a piedade teocêntrica  e o amplo conhecimento da física nuclear. Admirava os bons políticos (era amigo de muitos), os bons industriais, os operários e os camponeses. O último ato público do Padre João Mohana aconteceu na casa de um vendedor de plantas, na Maiobinha. Foi  a celebração de uma missa, à noite, numa novena dedicada a Nossa Senhora.

Por Kalil Mohana