Academia Vianense de Letras

No dia 11 de novembro de 1849 nascia Celso Tertuliano da Cunha Magalhães, na Fazenda Descanso, então município de Viana. Filho do Tenente Coronel José Mariano da Cunha (deputado no biênio 1848/1849) e de D. Maria Quitéria de Magalhães Cunha, o menino estudou as primeiras letras com seus avós maternos Manoel Lopes de Magalhães e Maria Cecília Duarte Magalhães, em Viana.

Crescendo num clima de efervescência cultural, - provocado pelo novo ciclo econômico promissor por que passava o Estado, quando surgiria uma plêiade de intelectuais maranhenses, como João Lisboa, Gonçalves Dias, Gomes de Souza, Odorico Gomes, Sotero dos Reis e outros, os quais dariam ao Maranhão o título de Atenas Brasileira, - é natural que o adolescente vianense se deixasse atrair pelo fascínio das letras. Assim, em 1867, aos 18 anos, quando ainda residia em Viana, Celso iniciou sua vida literária no Semanário Maranhense,da capital, onde publicaria alguns poemas de sua autoria: Vem, Não Tardes e Para Ela (17/11), Desânimo (24/11/) O Currupira e Adeus (22/12/), O Escravo e O Avaro (29/12).

Em Viana, enquanto ultimava os preparativos para a viagem em busca da formatura, traduziu para o português os poemas O Menino Cego, de Gout Desmartres e A Minha Casaca, de autoria do francês Michel Sedaine. Suas versões para as duas poesias famosas igualmente foram publicadas, em São Luís, pelo Semanário Maranhense (28/04 e 10/05 de 1868, respectivamente).

Em maio de 1868, Celso mudou-se para a capital pernambucana, a fim de ingressar na Faculdade de Direito do Recife. Ali passaria a colaborar na revista estudantil Oiteiro Democrático, escrevendo, nesse mesmo ano de 1868, a comédia Cerração no Bolso. Não se descuidando nunca da poesia, compôs o poema dedicado a uma jovem e denominado apenas por “A”, bem como o imortal Os Calhambolas que refletia a insurreição dos escravos de Viana, acontecida em maio de 1867. Também traduziu vários poemas famosos como Ophélia, de H. Muger (1869), entre outros. Apaixonado pelo folclore brasileiro, o jovem acadêmico publicou A Poesia Popular Brasileira no jornal O Trabalho.  Ainda em Recife, escreveu para o Correio Pernambucano e outros periódicos locais.

Segundo Antônio Lopes, que era seu sobrinho, Celso Magalhães escrevia romances, poesias e artigos jornalísticos de todo gênero. Enquanto estudava em Recife, enviava farto material literário para os jornais de São Luís. Dessa forma, assinando sob o pseudônimo de Giacomo de Martorello, publicaria em 1870 e 1873, respectivamente, as novelas Ela por Ela e Pelo Correio, em folhetins dos jornais O País e o Diário do Maranhão. Em 1870, o talentoso estudante teve sua obra poética, Versos, transformada em livro. O único publicado em vida.

Em 22/11/1873 bacharelou-se em Direito, retornando no mesmo ano ao Maranhão. Após visitar sua cidade natal, Viana, Celso recebeu das mãos do próprio presidente da província, José Francisco de Viveiros, a nomeação para Promotor Público da Capital. Sua capacidade jurídica e seu reconhecido valor intelectual logo fizeram saltar, aos olhos de seus contemporâneos, o profissional de mente brilhante e elevado senso de justiça. Em São Luís, além do afinco e amor ao trabalho, levava uma vida social movimentada, participando ativamente dos saraus, concertos, eventos políticos e literários da época.

 Em 9 de dezembro de 1876, começou a atuar na apuração do crime que tinha como acusada D. Anna Rosa Vianna Ribeiro, esposa do influente político e médico Dr. Carlos Ribeiro (futuro Barão de Grajaú). Acusada pelo crime de homicídio, executado a seu mando, e que vitimara um pequeno escravo de nome Inocêncio, D. Anna Rosa foi denunciada pelo destemido promotor e levada a julgamento pelo Tribunal do Júri. Celso Magalhães requereu ainda sua prisão provisória, fazendo com que a ilustre senhora permanecesse encarcerada até o julgamento, ocorrido em fevereiro de 1877. Como era de se esperar, devido o grande prestígio da ré, D. Anna Rosa foi absolvida. Mais uma vez, o senso de justiça do íntegro promotor lhe fez apelar ao Tribunal da Relação, pedindo a nulidade do julgamento. Naturalmente seu recurso foi negado.

No dia 29 de março de 1878, arbitrariamente, enquanto presidente interino da província, o Dr. Carlos Ribeiro (esposo da acusada) exonerou ex officio o Dr. Celso Magalhães do cargo de promotor da capital, "a bem do serviço público". Do mesmo modo, foi exonerado o delegado que participara do inquérito policial do homicídio de D. Anna Rosa Ribeiro.

Um pouco antes, Celso Magalhães havia contraído núpcias com D. Amélia Leal Magalhães. Abatido com sua exoneração, esteve em Viana, acompanhado da esposa, por vários meses, quando teve o sofrimento agravado com a morte de seu pai.

Com 30 anos incompletos, quando havia sido indicado para disputar as eleições como deputado, pelo Partido Conservador, para a Assembléia Geral do Império, acometido de febre perniciosa, em São Luís, Celso Magalhães adoeceu às 5 da manhã e morreu às 11 do dia 9 de junho de 1879.

Sem deixar descendentes, a morte prematura do grande intelectual e jurista maranhense causou profunda comoção no seio da imprensa local e de outras províncias. Atualmente, Celso Magalhães é patrono do Ministério Público do Estado do Maranhão e da Cadeira n° 5 da Academia Maranhense de Letras, da Cadeira n° 16 da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Cadeira n° 25 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e da cadeira n° 12 da Academia Vianense de Letras.  No devido tempo, Viana soube prestar significativa homenagem a este seu filho de inigualável caráter, de notável saber jurídico e de grande talento literário ao dar o nome de Celso Magalhães a uma de suas principais ruas.

Indubitavelmente, se Celso estivesse entre nós não se calaria às injustiças sociais que continuam a permear as relações da sociedade, em nosso Município, em nosso Estado e no Brasil. Sua luta, certamente, seria pela efetivação da cidadania, dos direitos humanos e da igualdade social.

Por Maria de Fátima Rodrigues Travassos Cordeiro