Academia Vianense de Letras

Estava o jovem Eider Furtado da Silva, antes de ser padre, passando pelo quintal de sua casa, em Viana, quando viu um homem na beira do mato, perto da casa de Cota de Leão, abaixando-se e erguendo-se, com a vista fixa para o alto, sem se importar com nada à sua volta. Curioso, o jovem Eider aproximou-se até identificá-lo: era Nilton Aquino e suas excentricidades de artista. Logo tomou conhecimento de que ele estava pintando a torre da Matriz, pela perspectiva do fundo. Atitude como essa se repetiria novamente, quando ele se pôs a buscar os detalhes da cúpula da torre, usando um colete para ficar pendurado e assim descobrir cada detalhe daquela parte mais alta da igreja.

Nilton Salgado de Aquino foi um homem que pontificou na vida social de Viana não apenas por seus dotes artísticos, mas por sua fina inteligência e rara sensibilidade. Nascido a 27 de outubro de 1900, o pintor era filho de Amâncio de Aquino (autor da letra do Hino Vianense) e Honorina Celina Salgado de Aquino. Quando jovem, o futuro artista plástico estudou no Seminário Santo Antônio, em São Luís, onde cursou até o penúltimo ano de Teologia, adquirindo ali toda a cultura humanista e religiosa indispensável para formação de um padre.

Considerável parte de sua obra artística consistia na reprodução de selos comemorativos, utilizando a técnica de crayon (a lápis). O artista assimilava as peculiaridades dos selos, reproduzindo as estampas da forma mais fiel possível, inclusive com a picotagem. O esforço que lhe exigiu a reprodução dos selos contribuiu para danificar sua vista, de forma irrecuperável diante das condições da oftalmologia da época.

Os quadros de Nilton Aquino dispersaram-se em mãos desconhecidas. Na Prefeitura Municipal de Viana havia um ou dois de seus quadros com temas filatélicos. Na casa de sua sobrinha, Iléia Aquino, em São Luís, há um quadro pintado a óleo, de 1930. É o retrato do irmão do artista, Eider Aquino, em traje militar. Segundo informações de João Mendonça Cordeiro, Nilton Aquino era também escultor de imagens de santos (talvez por influência do período que passou no seminário).

Vale registrar que apesar de seu verdadeiro nome de batismo ser Nilton, o pintor era mais conhecido, em sua época, por Newton. As referências escritas sobre sua pessoa igualmente o denominam assim, como expressa o jornal Tribuna (São Luís-MA), edição de 28.8.1929, com a seguinte nota:

“Newton Aquino.

Acham-se em exposição, na mostra da Farmácia Garrido, dois belos quadros do esperançoso pintor Newton Salgado de Aquino.

Os trabalhos expostos, pintura e sanguínea, revelam, pelo seu acabamento, proficiência e gosto artístico, pelo que felicitamos o inteligente conterrâneo.” (Apud, Luiz de Mello. Cronologia das artes plásticas no Maranhão. São Luís, 2004, p.428).

Outra exposição, nesse mesmo local, foi noticiada também pelo jornal A Época, de Ozimo de Carvalho, na edição de 11 de maio de 1930, com a seguinte informação:

O nosso conterrâneo Newton Aquino, atualmente na Capital, expôs na vitrine da Farmácia Garrido um retrato a lápis do cel. Antonio de Bricio de Araújo, vice-presidente do Estado. Esse trabalho tem sido muito elogiado pelos competentes e pela imprensa de São Luís.

Em 1960, Nilton Aquino fez nova exposição na Farmácia Garrido, em São Luís, com aproximadamente quarenta quadros. De acordo com seu filho Felipe, dez desses quadros foram adquiridos pelo governo do Estado.

Nilton Salgado de Aquino faleceu aos 64 anos, em 26 de agosto de 1964, em sua residência, na Rua Dr.Castro Maia. Deixou quatro filhos: Francisca de Aquino Castro, Amâncio de Aquino, Felipe Garcez de Aquino e Raimunda Aquino Lopes.

Pelos depoimentos de pessoas que privaram de sua convivência, o artista plástico era um homem recolhido e fechado, dedicado ao estudo e à pintura, mas que sabia tomar atitudes firmes, quando a situação assim o exigisse. O Dr. José Pereira Gomes relata que Nilton Aquino, ao perceber que o mapa de Viana, divulgado pelo IBGE, não correspondia à realidade, saiu em campo, pessoalmente, para corrigi-lo, a partir do limite conhecido como Picada do Nogueira. Esse mapa, devidamente corrigido, se encontra em poder do Dr. José Pereira Gomes.

Nilton Aquino morreu sem ter seu talento devidamente reconhecido pela sociedade vianense, como bem o merecia. Na linha do nosso objetivo, a Academia Vianense de Letras, neste levantamento biográfico, vem prestar sua homenagem a este grande artista, retirando-o do anonimato em que ficou desde sua morte. Ao conferir-lhe a condição de patrono de uma de suas cadeiras (Cadeira nº 13, ocupada por Nozor Lauro Lopes de Souza Filho), nossa Casa das Letras apenas fez justiça a um conterrâneo que merece ser eternizado pela sua dedicação à arte e à pesquisa.

Por Lourival Serejo