Academia Vianense de Letras

Quando Manuel Lopes da Cunha nasceu, em 25 de julho de 1855, fazia menos de um mês que a antiga Vila de Viana havia sido elevada à categoria de cidade (fato ocorrido em 30 de junho daquele mesmo ano).

Alcançar tal status representava o justo coroamento de uma reivindicação do povo vianense que vinha lutando por esse objetivo, através dos deputados provinciais, há pelos menos três décadas. Assim, o novo vianense veio ao mundo num momento marcante e de grande otimismo para a população da nova cidade. Seus conterrâneos, entretanto, mal poderiam imaginar que o primeiro filho da terra a governar o Maranhão acabava de nascer.

Fruto do casal José Mariano da Cunha (deputado provincial do Maranhão na legislatura 1848/1849) e Maria Quitéria Magalhães da Cunha, o menino recebeu o nome de Manuel em homenagem ao avô materno, o português e médico pela Universidade de Coimbra, Manuel Lopes de Magalhães. Inclusive, seu irmão mais velho, o notável Celso Tertuliano da Cunha Magalhães, teve o sobrenome modificado também em homenagem a esse mesmo avô (em vez de Celso Tertuliano Magalhães da Cunha, foi registrado da Cunha Magalhães), em cumprimento à promessa da mãe, Maria Quitéria, feita ao velho genitor, de dar o sobrenome “Magalhães” ao primeiro varão da família.

Além de Celso Magalhães, Manuel tinha mais três irmãos: Filadelfo Lopes da Cunha (que se tornou oficial do Exército) Maria Amália Lopes da Cunha e Luiz Antônio Lopes da Cunha (este último casou-se com Zina, irmã do Dr. Castro Maia, engenheiro e milionário residente no Rio de Janeiro).

Como os irmãos, Manuel foi alfabetizado pelo avô médico, falecido quando o garoto contava 12 anos de idade. Pouco depois, o adolescente foi encaminhado para São Luís, a fim de continuar os estudos no extinto Seminário das Mercês. Desejoso de seguir a carreira jurídica (provavelmente influenciado pelo exemplo do irmão, Celso Magalhães) fez os estudos preparatórios no Liceu Maranhense, antes de seguir para a capital pernambucana.

No início de 1879, aos 23 anos, depois da perda recente do pai, o jovem Manuel deixava o Maranhão para iniciar o curso de Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito de Recife. Em 9 de junho desse mesmo ano, uma nova tragédia abater-se-ia sobre a família Lopes da Cunha: falecia prematuramente em São Luís, vítima de “febre perniciosa”, o seu irmão mais velho e ex-Promotor Público da cidade, Celso Magalhães.

Os infortúnios sofridos pela família, contrabalançados pela certeza de um futuro promissor, instigariam o jovem vianense a dedicar-se avidamente aos estudos puxados do curso de Direito. Foram cinco anos de vida acadêmica, período em que teve como colegas de turma outros futuros ilustres maranhenses, entre os quais se destacam: Francisco José Viveiros de Castro, Isac Martins dos Reis e Luiz Antônio Domingues da Silva.

Manuel Lopes da Cunha graduou-se no dia 3/11/1883, aos 28 anos de idade. No ano seguinte, após retornar ao Maranhão, foi nomeado Promotor Público da Comarca de Viana, cargo ocupado durante dois anos, quando foi promovido a Juiz Substituto dessa mesma Comarca. Em 1888 foi transferido para a Comarca do Baixo Mearim (hoje Vitória do Mearim), ainda como Juiz de Direito.

Foi por essa época que o magistrado contraiu núpcias com Maria de Jesus Sousa Lopes da Cunha, nascendo dessa união outros dois vianenses renomados: Antônio Lopes da Cunha (1889) e Raimundo Lopes da Cunha (1894).

O ingresso na política aconteceu por intermédio do amigo e grande incentivador, Benedito Leite. Dessa forma, numa campanha vitoriosa que contou com o apoio do prestigiado chefe político, além de receber a adesão maciça não somente de Viana, mas de toda a Baixada, o Dr. Manuel Lopes da Cunha, aos 46 anos, elegeu-se Governador do Estado para o quadriênio 1902/1906, assumindo o cargo no dia 3/3/1902.

Uma grave doença, entretanto, o fez renunciar ao mandato sete meses depois, para decepção e tristeza dos vianenses que viram frustrados seus sonhos de melhorias para a cidade. A morte prematura do irmão, anos antes, certamente lhe dava motivos de sobra para se precaver. Entre continuar no poder, arriscando a própria vida, ou desistir do governo e cuidar da saúde, tomou a decisão mais sábia: mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em busca de tratamento médico especializado. Na então Capital Federal residiu por quase quatro anos, conseguindo curar-se da moléstia que o afligia.

De volta ao Maranhão, foi nomeado Procurador-Geral do Estado, função exercida por curto tempo, pois logo se tornaria Desembargador do Superior Tribunal de Justiça, tomando posse no dia 4/4/1907. Eleito presidente da casa, em fevereiro de 1924, o Dr. Manuel Lopes da Cunha faleceu repentinamente no dia 5 de setembro desse mesmo ano, aos 69 anos de idade.

Por tamanha notabilidade em vida, Manuel Lopes da Cunha foi eleito patrono da Cadeira nº 18 da AVL, cujo titular é o Desembargador aposentado, Júlio Araújo Aires.  

Nota: Apesar dos altos cargos exercidos pelo biografado, não foi possível localizar uma fotografia sua em boas condições de reprodução.

Por Luiz Alexandre Raposo