Academia Vianense de Letras

Ozimo de Carvalho, filho de Leonel Alves de Carvalho e Judith Leopoldina Gomes de Carvalho, nasceu em Viana, no dia 8 de abril de 1890. Ali fez seus primeiros estudos no Colégio Antônio Rayol. Concluiu em São Luís, no Liceu Maranhense, o curso preparatório para a faculdade. Visando à realização de um sonho, seguiu para Salvador, onde iniciou o curso de Farmácia. Em 1910, com apenas 20 anos de idade, recebeu o diploma de Farmacêutico, o qual lhe foi outorgado pela Faculdade de Medicina da Bahia. 

De volta à cidade natal, dedicou-se à profissão, inaugurando a Phamacia Brazil, em 1913. Em seu estabelecimento organizou um pequeno laboratório para manipulação de fórmulas próprias, com o aproveitamento de ervas, folhas e raízes de plantas da região. O Amargo Digestivo, contra males do estômago e do fígado, bem como o Necatol, vermífugo de ação eficaz, foram drogas criadas para atender à população, principalmente das classes menos favorecidas.

Viana sofria com a falta de médico. Quando aparecia um profissional da Medicina, o farmacêutico restringia o atendimento. Entretanto, o vianense, de modo geral, não aceitava o receituário do médico sem antes obter a aprovação do experiente Ozimo de Carvalho.

Aos 26 anos, Ozimo casou-se em Viana, no civil, com Florita Georzila da Cunha, filha de Mariano Augusto da Cunha e Isaura Mendes da Cunha, e, no religioso, no ano seguinte, sendo oficiante da cerimônia o Cônego Álvaro Lima. Da união nasceram os filhos, Celeste, Isaura, Carmen, Helena, Judith, Ester, Durval, Dulcídio e Geraldo Cunha Carvalho.

Na política, foi o 9º prefeito da cidade após a Proclamação da República e, também, o 34º (este último mandato, exercido em caráter de interinidade). Elegeu-se vereador em várias legislaturas e chegou a presidente da Câmara Municipal. Numa de suas gestões à frente do legislativo vianense instituiu o escudo que simboliza as heróicas e vitoriosas lutas travadas no município ao longo dos anos, o qual foi criado pelo artista plástico conterrâneo, Nilton Salgado de Aquino.

Homem de visão, crente de que o futuro de uma nação está intrinsecamente ligado à educação e à cultura, incentivou seu pai – Leonel Alves de Carvalho, então prefeito da cidade – a adquirir uma coleção completa de 24 volumes, da Biblioteca Internacional de Obras Célebres, com os quais foi inaugurada a Biblioteca Municipal de Viana, em 1915. Hoje esta casa do saber tem o seu nome, numa homenagem póstuma prestada pela edilidade local.         

Em 1929, Ozimo de Carvalho, preocupado com o isolamento do cidadão vianense, fundou e custeou, com recursos próprios, o semanário “A Época”. O objetivo era manter informada, a sociedade local, sobre os acontecimentos políticos e econômicos ocorridos no Maranhão e no País. Foram 117 números editados, porém, em 1931, deixou de circular para tristeza daqueles que já se haviam habituado a acompanhar o desenrolar dos acontecimentos lá fora, pelas notícias que o periódico lhes trazia.

Homem de caráter, de estrutura moral inabalável e fortes convicções políticas e religiosas, dentro de princípios democráticos e de ensinamentos cristãos, encontrou no trabalho seu estilo de vida e sua maneira própria de ser. Afeito a desafios, aceitou, com outros comerciantes, aquele que foi um dos marcos de sua vida pública: a fundação da Associação Comercial, Agrícola e Industrial de Viana, em 1944. Esta agremiação destinava-se a aglutinar forças no seio da classe empresarial, como forma de elevar a representatividade frente aos dirigentes de órgãos públicos, na busca da realização de projetos de interesse da categoria.

Sua vocação para a Botânica levava-o a colher, nos matos e campos, amostras de espécies vegetais, muitas ainda desconhecidas dos cientistas. Para identificação, as enviava ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com o qual mantinha freqüente intercâmbio. De outras vezes, fazia a desidratação das plantas colhidas, anexava informações sobre o uso delas na medicina caseira e as remetia ao Horto Oswaldo Cruz do Instituto Butantã ou para a Seção de Botânica do Museu Paulista, onde eram submetidas a análises bromatológicas e classificação botânica.

Este labor, acrescido de outros não menos importantes, referentes à fauna, flora, recursos hídricos, solo, clima, criação de gado, pesca, babaçu, lavoura e meios de transporte, culminando com o estudo étnico do homem de Viana, levaram Ozimo a enriquecer o Retrato de um Município, livro de sua autoria, tão opulento de conteúdo científico, como pouco se tem elaborado sobre a gleba vianense. Com esta publicação, o autor prestou considerável contribuição à História e aos estudiosos dos tempos subsequentes, ao mesmo passo em que homenageava a cidade pelo bicentenário da transformação oficial da Aldeia de Maracu em Vila de Viana, ocorrida em 8 de julho de 1757.

Com o advento da viuvez, decorridos 52 anos de feliz convívio matrimonial, iniciava-se, então, o declínio de sua profícua existência. Assim, a 8 de setembro de 1978 Ozimo de Carvalho faleceu em Viana, aos 88 anos de idade, no aconchego familiar dos filhos, netos e amigos dedicados. Sepultou-se no cemitério Campo Santo São Sebastião, ao lado da esposa.

Como reconhecimento aos relevantes serviços prestados à comunidade, preferentemente aos mais necessitados, a quem se dedicara com amor e dignidade durante 65 anos, a Câmara Municipal, cumprindo o dever de legítima representante do povo vianense, aprovou, por unanimidade, o Projeto de Lei n.º 06/79, autorizando o Poder Executivo a alterar a denominação da Praça 8 de Julho para Praça Ozimo de Carvalho e erigir-lhe busto, o qual foi feito em bronze e erguido sobre pedestal de mármore.

A Academia Vianense de Letras prestou, também, justa e merecida homenagem ao ilustre farmacêutico conterrâneo, ao escolher Ozimo de Carvalho para dignificar a Cadeira n.º 19 do sodalício, e ao mesmo tempo, elevar bem alto o nome deste luminar da História de Viana. Como prova, mandou cunhar e afixar, no pedestal que lhe sustenta o busto na praça de seu nome, placa comemorativa do evento.

Enfim, testemunhas da bondade de Ozimo de Carvalho se encontram em toda parte. As pedras do calçamento não falam, mas o som das pisadas do farmacêutico ecoa nas lajes rudes do chão centenário de ruas e becos e sua voz tênue está gravada nas paredes gastas das casas em que entrou para socorrer um enfermo. As plantas de seu tempo já não vivem, porém, o vento que as embalava está sempre a murmurar um hino de louvor ao sábio que as tirou da sombra do desconhecido e as inseriu no livro de tombo da Ciência. As aves de antanho, que não foram extintas, já arribaram para outros campos, mas as revoadas das novas gerações cruzam, todos os dias, o firmamento azul a mirar-se na planície do imenso lago e a bater asas de adeuses saudosos ao imortal cientista.                  

Por José Henrique Nogueira de Carvalho