Academia Vianense de Letras

Nascido, em Viana, no dia 20 de março de 1856, João de Parma Montezuma e Silva cresceu num período em que a cidade gozava de próspera economia e de um ambiente cultural de grande efervescência, tendo a música como sua principal expressão artística.

Como era costume naquele tempo, muito cedo o jovem foi encaminhado para São Luís, a fim de estudar no conceituado Seminário Santo Antônio. Matriculado no dia 10 de junho de  1869, aos 13 anos, o jovem seminarista, durante os seis anos de internato, recebeu aulas de Latim, Francês, Canto, Latinidade, Geografia e Humanidades, conforme atestam os registros encontrados no arquivo do antigo seminário. Em sua ficha de matrícula consta apenas que era filho de José Manoel da Silva, não havendo referência ao nome de sua genitora.

Enquanto seminarista, o jovem vianense fez parte do Coro da Sé, onde educaria sua voz de tenor e ampliaria a sensibilidade pelo canto sacro. Como não existem mais dados seus, no arquivo, a partir do ano de 1875, conclui-se que João de Parma abandonou os estudos prestes a completar 19 anos de idade.

Segundo a violinista América Dias (1907-2001), João de Parma costumava dar a seguinte explicação para o fato de ter abandonado os estudos, tão próximo de se tornar um sacerdote: “por ordem do reitor do seminário, ele e os demais colegas foram ao Cine Éden, para assistir a um filme religioso. Casualmente, sentou-se ao lado de uma moça que se abanava com um leque perfumado de sândalo. Enquanto o filme se desenrolava na tela, inebriado pelo doce aroma, o seminarista começou a imaginar como seria maravilhoso casar e ter uma mulher daquela como esposa. No dia seguinte, procurou o reitor, confessou-se e deixou o seminário para voltar à cidade natal.”

No entanto, a mesma informante costumava lembrar que as línguas ferinas da época davam conta de outra versão para o caso, afirmando que ele simplesmente havia fugido do seminário sem dar qualquer explicação aos padres e antigos mestres.

Fugido ou não, João de Parma iria brilhar singularmente numa constelação de homens e mulheres que ajudaram a escrever a história desta centenária cidade. Possuidor de vasta cultura, sua atuação no meio social vianense abrangeria desde o magistério, passando pela música, até alcançar a política, trajetória esta que lhe conduziria ao cargo de vice-intendente (equivalente ao de vice-prefeito) do município.

O artista – Ainda segundo informações prestadas por América Dias, que era filha do maestro Miguel Dias, o então pároco da Matriz, Cônego Hemetério, solicitou a seu pai que organizasse uma orquestra e dois cantores para o acompanhamento das missas solenes. O primeiro selecionado, como cantor, foi o ex-seminarista João de Parma por possuir um timbre de voz muito bonito e por dominar perfeitamente o latim. O segundo cantor escolhido foi o cego de nascença, Ricardo Simas, igualmente dono de uma bela voz.

Anos mais tarde, depois de muitas missas cantadas nas igrejas vianenses, o coro masculino se dissolveu. Miguel Dias organizou, então, um coro feminino com moças da sociedade local. Entretanto, a voz privilegiada de João de Parma continuaria sendo solicitada pelo maestro, vez por outra, para formar um coro misto, especialmente para a interpretação de peças sacras que assim o exigiam. Conforme depoimento textual da filha do Miguel Dias, “João de Parma tinha uma voz linda, como nunca vi outra igual”.

No livro “A Grande Música do Maranhão”, João Mohana relaciona, entre tantas partituras resgatadas, uma ladainha para vozes e orquestra de autoria de João de Parma. Infelizmente essa obra não consta no Arquivo Público, em São Luís, para onde foi transferido todo o acervo musical colecionado pelo padre e pesquisador.

O educador – No início de século XX, existiam somente duas escolas primárias em Viana, mantidas pelo Estado. Uma para o sexo feminino, cuja professora era a célebre Amélia Carvalho e a outra para o sexo masculino, regida pelo professor João de Parma

O médico Sálvio Mendonça, em sua “História de Um Menino Pobre”, mais precisamente no capítulo XXII da citada obra dá o seguinte depoimento sobre o biografado: “Em 1907, já com 15 anos, voltei a Viana para continuar os estudos na escola pública daquela cidade, a única existente. O professor era João de Parma, que tinha estudado no seminário de São Luís, até o último ano do curso respectivo e de onde fugiu antes de ser sacerdote. Tomava conta da Igreja Matriz e dirigia o coro nas missas. Era um homem severo, e me deixava tomando conta da escola, cujos alunos, em maioria, eram pretinhos descalços, filhos de famílias pobres e humildes. Às 11 horas chegava o professor, e sempre mal-humorado. O professor começava a tomar as lições. Os alunos que liam mal ou erravam na tabuada, por ordem dele, ficavam de pé, encostados à parede. No fim, todos passavam pela palmatória, contando cada um, em voz alta, os bolos que recebiam de 1 a 12, conforme os erros, o mau comportamento, ou a má vontade do professor...”

É necessário frisar que esse rigoroso método de ensino, tão estranho aos nossos dias, era comumente aplicado não somente em Viana, mas em outros centros educacionais espalhados pelo Brasil da época.

No livro “A vida simples de um professor de aldeia”, Astolfo Serra, ao descrever a vida de seu genitor, Joaquim Ignácio Serra, professor do então povoado de Matinha, fornece como apêndice um interessante depoimento do Dr. José Francisco da Silva, Inspetor de Instrução Pública do Estado, quando Luís Domingues era o governador do Maranhão.     

O teor do relatório sobre a Escola do professor João de Parma, apresentado pelo inspetor em 1912, era o seguinte: “...A do sexo masculino, acha-se como todas as outras desprovida do material necessário para seu regular funcionamento. Existem 144 meninos matriculados, a freqüência varia de 100 a 115, a sala onde funciona a referida Escola é pequena. O professor é competente e fiel cumpridor dos deveres. Disse-me o referido professor que no fim do corrente ano solicitaria sua aposentadoria. E se assim for e o Governo a conceder, antecipadamente solicito a remoção do professor Joaquim Ignácio Serra, homem de reconhecida competência e extremado em propagar a Instrução em nosso amado Maranhão, para substituir o referido professor na cadeira do sexo masculino da cidade de Vianna.”

Através da citada obra, constata-se que efetivamente João de Parma aposentou-se no final daquele ano de 1912 e que a sugestão do inspetor foi acatada pelo governo, pois Joaquim Ignácio Serra foi nomeado, no dia 18 de janeiro de 1913, para substituí-lo em Viana.

Dessa maneira, afastado do magistério, João de Parma teria mais tempo para se dedicar à família e às demais atividades que lhe proporcionavam prazer. Remonta desse período a inspiração para a criação da bandeira da cidade, cuja lei foi publicada no Diário Oficial do Estado em 1° de março de 1919.

 O pai de família – O professor João de Parma era casado com a senhora Joana Luzia Nunes da Silva, com a qual teve sete filhos: Ricardo, Virgílio, José Maria (conhecido por Nhô-Juca Parma), Mariano, Joaquim, Tercília e Justina. A família morava na Rua Grande, numa casa que existia no local hoje ocupado pela residência do cidadão João Barros.

Sobre a viuvez do velho mestre, o jornal “A Época” do Dr. Ozimo de Carvalho (que circulou de 1929 a 1931), em seu n° 6, datado de 10 de fevereiro de 1929, trazia a seguinte nota de agradecimento: “João de Parma Montezuma e Silva, seus filhos, netos, genros e noras agradecem penhoradamente a todas as pessoas que os acompanharam e dirigiram cartas, telegramas e visitas pessoais, apresentando-lhes condolências por ocasião do súbito falecimento da sua esposa, mãe, avó e sogra, Joana Luzia Nunes da Silva, no dia 29 do mês passado, bem como aos que assistiram à missa de corpo presente, celebrada na Igreja Matriz e acompanharam o féretro ao Cemitério 2 de Novembro, no imediato. A todos protestam sua gratidão. Viana, 5 de fevereiro de 1929.”

Têm-se notícias de que o falecimento do velho professor teria ocorrido a 1º de abril de 1932, isto é, três anos após ele ter enviuvado. A Câmara Municipal de Viana, na época, soube homenagear o ilustre filho da terra ao emprestar seu nome a uma das ruas transversais à Praça da Matriz.

A Academia Vianense de Letras, como não poderia deixar de ser, também soube reconhecer o valor de João de Parma Montezuma e Silva, elegendo-o como patrono da Cadeira n° 23.

Por Luiz Alexandre Raposo