Academia Vianense de Letras

O filho mais moço do Dr. Manuel Lopes da Cunha e de D. Maria de Jesus Sousa Lopes da Cunha nasceu em Viana no dia 28 de setembro de 1894. Aos seis anos de idade, ao raiar do século XX, o pequeno Raimundo deixava sua cidade natal, em companhia da família, para residir em São Luís.

Na capital, foi matriculado na Escola Modelo Benedito Leite, onde estudou até o ano letivo de 1903. Seu pai, que havia sido eleito governador do Maranhão dois anos depois de transferir-se de Viana, resolvera mudar-se para o Rio de Janeiro, renunciando ao cargo de governador e mal cumprindo um ano de mandato.

Na então capital do país, o menino vianense já demonstrava vivo interesse pelo conhecimento científico, acompanhando entusiasmado o sucesso das experiências dos balões. Durante os dois anos passados no Rio foi aluno particular de D. Eunice Tostes de Alvarenga, responsável por sua preparação para o ingresso no famoso Liceu Maranhense, quando retornasse a São Luís.

De volta ao Maranhão, já adolescente, não demorou a dar sinais de sua vocação para as letras. Fundou com os colegas liceístas a Via Lucis, uma publicação onde mostrava o brilhante despertar de sua mente privilegiada. Também assinaria colunas em jornais conceituados como O Diário do Maranhão e a Pacotilha. Fascinado pela geografia, com apenas 17 anos escreveu O Torrão Maranhense, ensaio de Geografia Humana que o consagraria, mais tarde, como renomado cientista.

Vivendo numa época e num país em que a cultura geográfica ainda era concebida como coisa estática, embora na Europa – em especial na Alemanha e na França – alguns cientistas (precedidos pelo genial Humboldt e seus estudos no campo das ciências naturais) acenassem para a investigação das mútuas influências entre o homem e seu meio ambiente, sugerindo não somente ramos autônomos da Geografia Geral, como principalmente submetendo o conceito dessa matéria a transformações radicais, o jovem estudante vianense soube muito bem assimilar as idéias dos grandes mestres europeus que sobrepujavam os estreitos limites da disciplina de sua predileção.

Em 1916, depois de retornar ao Rio de Janeiro, Raimundo Lopes da Cunha publica finalmente seu primeiro trabalho, escrito cinco anos antes. O Torrão Maranhense causou de imediato grande surpresa entre o meio científico da época. Era quase inacreditável que um jovem de apenas 22 anos pudesse ser o autor de uma obra, na qual se debruçava sobre seu estado natal, aplicando-lhe pleno conhecimento da ciência geográfica.

Entusiasmado com a grande aceitação de seu primeiro livro e impulsionado pela sistemática do estudo, o qual alargava cada vez mais sua visão do homem e da técnica, das transformações do meio e da terra na força de seu desenvolvimento, iniciou a publicação de Uma Região Tropical, através de sucessivos capítulos. Este segundo trabalho se constitui, segundo os críticos, no aprimoramento das ideias e das análises apresentadas no seu livro de estreia. Inspirado no francês Emmanuel Martone, o jovem intelectual percebia que a ciência da terra e do homem, amparada pela Física e pela Biologia, e principalmente pela Sociologia, já se havia há muito direcionado para sua verdadeira finalidade. Justificava sua preocupação pelo Maranhão não apenas por ser seu berço natal, mas por este ter sido deixado à margem, talvez se constituindo na região mais desconhecida do país.

Raimundo Lopes era bacharel em Letras. Ainda chegou a cursar o primeiro ano da Escola Politécnica do Rio de Janeiro e fez até o quarto de Direito, mas decidiu dedicar-se à pesquisa, de modo geral à Etnografia, à Etnologia, à Arqueologia, à História e à Sociologia.  A título de ilustração, entre seus inúmeros trabalhos escritos, poderiam ser citados: Os Fortes Coloniais de São Luís, As Regiões Brasileiras, Entre a Amazônia e o Sertão, O Homem em Face da Natureza, Ensaio Etnológico sobre o Povo Brasileiro, Pesquisa Etnológica sobre a Pesca Brasileira no Maranhão etc. Publicou ainda um romance intitulado Peito de Moça e seu último livro, Antropogeografia, é considerado um verdadeiro compêndio de ciência.

Membro da Academia Maranhense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, Raimundo Lopes mantinha estreitos laços de amizade com seu conterrâneo, o médico Sálvio Mendonça. Casado com D. Graziella Rabelo da Costa desde o ano de 1930, tornou-se pai de duas filhas: Yara Graziella e Maria Cecília.

Muito maior, certamente, teria sido a obra desse renomado geógrafo, escritor e jornalista, caso a morte não o tivesse ceifado tão cedo. Acometido de grave doença, mesmo acamado, ainda ditou para a esposa suas palestras proferidas na Rádio Ministério da Educação, as quais incumbiu o irmão, Antônio Lopes, da revisão e de reuni-las posteriormente em livro.

O Dr. Raimundo Lopes faleceu no Rio de Janeiro, no dia 8 de setembro de 1941, próximo de completar 47 anos de idade.

Viana até hoje é devedora de uma justa homenagem a esse seu ilustre filho, que tanto contribuiu para o estudo das raízes, das riquezas e das potencialidades da terra maranhense.

Por Maria da Conceição Brenha Raposo