Academia Vianense de Letras

No ano de 1895, o lar de José Pantaleão e Brígida Ramos foi enriquecido com o nascimento de uma criança do sexo feminino, que na pia batismal recebeu o nome de Ana Soriano Ramos, mais tarde conhecida simplesmente por Anica Ramos.

D. Anica Ramos foi uma mulher notável por dedicar toda sua vida à cultura de Viana. Foi por assim dizer pioneira na música, no teatro e no serviço sóciopedagógico. Católica fervorosa, muito deu de si nas atividades paroquianas não somente da Igreja de São Benedito, seu bairro, como também da Igreja da Matriz.

Seu sustento familiar provinha do atelier de costura, montado com a ajuda das irmãs. Estilista e costureira, confeccionava com esmero e perfeito acabamento roupas para as senhoras do mais fino gosto e do melhor poder aquisitivo da cidade. Para os carentes, entretanto, não cobrava nenhum tostão.

Como educadora, lecionou para centenas de crianças, alfabetizando-as com uma didática inovadora para uma época em que Viana vivia relativamente isolada do resto do Maranhão e do mundo.

A despeito de tantos talentos e tantos serviços relevantes prestados à comunidade, o seu maior mérito, talvez, tenha sido sua dedicação ao teatro. Dedicação esta que ultrapassou o tempo e se transformou em história. D. Anica construiu em sua própria residência, situada no Canto do Galo, um pequeno teatro, onde periodicamente encenava peças teatrais, aplaudidas por pessoas do mais requintado gosto e conhecimento da arte, O padre e escritor João Mohana, quando ainda exercia a profissão de médico em Viana, relata no livro A Grande Música do Maranhão que, em dezembro do ano de 1950, assistiu no teatro de D. Anica um belíssimo auto de Natal, apreciando as músicas e o perfeito desempenho dos atores e figurantes.

Para encenar suas peças que abrangiam dramas, histórias românticas ou as famosas pastorais e reis (autos de Natal), D. Anica selecionava os atores entre crianças e adolescentes da cidade. Possuía um faro excepcional para a descoberta de bons talentos, revelando para a sociedade local a capacidade interpretativa de muitos jovens vianenses (a título de exemplo, cite-se a professora Josefina Cordeiro, Nonato de Diosne, Emira Cordeiro, Helena Travassos e tantos outros). Todas as peças eram ensaiadas por D. Anica que era ao mesmo tempo cenógrafa, pintora, diretora, iluminadora, figurinista, animadora e maquiadora.

Como amante entusiasta do teatro, chegou certa vez, às suas expensas, pedir do Rio e São Paulo, via reembolso postal, peças teatrais de autores nacionais e estrangeiros, lançadas em primeira mão no mercado por uma determinada editora.

Mas sua casa não foi somente palco de teatro, atelier de costura e sala de aula. Foi igualmente um pequeno conservatório de música, no qual ela incentivava o aperfeiçoamento de jovens talentos musicais . Era costume seu copiar partituras para ofertar a músicos de pequeno poder aquisitivo não só de Viana como de outros municípios da Baixada. Anica Ramos também escrevia crônicas, poemas e paródias, as quais gostava de ler para os amigos mais chegados.

É importante lembrar que esta mulher negra, de cultura elevada, criou-se numa época era que o Maranhão ainda vivia uma fase de cultura intensa e que a cidade de Viana não ficava atrás. Atravessando um período de completa prosperidade econômica e comercial, Viana possuía fábricas, grandes engenhos, boa lavoura e excelente pecuária. É natural que o desenvolvimento cultural lhe viesse dessa forma atrelado, atraindo para nossa cidade pessoas interessadas nas letras e na música vianense, como foi o caso dos irmãos Antônio e Alexandre Rayol, que aqui fundaram um ginásio, ou mesmo do advogado baiano Oscar Argollo, que se tornaria pai de nossa famosa Dilú Mello.

A sociedade, naqueles tempos, era organizada e discreta, os crimes eram raros, não havia miséria e a moral era bem exercitada. Mesmo assim, D. Anica Ramos costumava visitar a cadeia pública, dar esmolas e fazer caridade aos mais necessitados. Na opinião da sobrinha, Denise, que reside atualmente em São Luís, sua tia tornou-se um mito por ter colaborado decisivamente para que Viana vivesse uma fase de tanto valor e de tanto humanismo na primeira metade do século passado.

D. Anica Ramos faleceu no dia 15 de agosto de 1970, estando os seus restos mortais sepultados no Cemitério Municipal de Viana. Sua antiga casa foi totalmente reformada e, para quem teve o privilégio de conhecê-la, só resta puxar pelo filme da memória, para lembrar a figura dessa mulher ímpar que, como uma estrela em noite de luar, soube doar tanto brilho à constelação cultural deste município.

Se duas coisas na vida são realmente dignas de valor, estas coisas são o caráter e o saber. D. Anica Ramos foi detentora de ambas. E por isso mesmo foi escolhida pela Academia Vianense de Letras como patrona da Cadeira n° 15.

Por Rosa Maria Pinheiro Gomes

Nota: Não foi possível conseguir uma fotografia da homenageada. Segundo informações de seus familiares, Anica Ramos não gostava de ser fotografada.