Academia Vianense de Letras

Filho de Raimundo Lima e pai de Luiz Lima, Temístocles Lima foi um dos maiores músicos de seu tempo. Infelizmente, pela falta de preservação da memória dos homens e mulheres que enalteceram o nome cidade, são escassas as informações disponíveis sobre o autor da melodia do hino vianense.

Tendo nascido e vivido, em Viana, entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20, Temístocles era filho do maestro de uma das duas bandas mais gabaritadas e solicitadas da cidade, conhecida simplesmente como “banda do Piloto”, a qual era responsável pela animação musical da tradicional festa de São Benedito.

Raimundo Lima, o piloto, assim como a maioria dos profissionais de sua época, era também compositor. Segundo padre João Mohana, que iniciou sua pesquisa musical em Viana na década de 1950, uma das primeiras partituras que lhe chegou às mãos era de autoria do velho “piloto”. E qual não foi sua surpresa, - como o próprio pesquisador atesta no livro A Grande Música do Maranhão, - ao deparar-se, entre as partituras colecionadas por um leproso em Alcântara, com uma magnífica marcha para orquestra, também da autoria de Raimundo Lima, intitulada Amor de Pátria.

Tudo isso leva a crer que a música pulsava forte no sangue da família Lima. Não é de se estranhar, portanto, que a veia musical paterna influenciasse sobremaneira a vocação do jovem Temístocles, que sofria ainda o estímulo cultural de uma cidade, como a Viana de sua época, que cultuava a boa música.

Com o falecimento do velho “piloto”, Temístocles Lima assumiu o comando dos músicos do pai e, segundo informações seguras, conduziu com brilhantismo por muitos anos a já famosa “banda do Piloto”, competindo de igual para igual com a banda rival, de propriedade do também maestro Miguel Dias.

Quantos e quais instrumentos musicais estavam sob o domínio do jovem Temístocles Lima? Não se sabe ao certo, mas provavelmente não eram poucos. A cantora e compositora Dilú Mello costumava lembrar que seu primeiro professor de violino foi justamente o maestro Temístocles. Naquele tempo, entre os anos de 1916/1918, Oscar Argollo, pai da Dilú, residia numa fazenda onde hoje se situa o conhecido Sítio São Manoel. Era lá que, diariamente, o professor Temístocles chegava, montado a cavalo, para dar aulas de violino à pequena aluna.

Outro depoimento importante e revelador do caráter solidário deste músico foi prestado pela filha do maestro Miguel Dias. De acordo com América Dias, quando do falecimento de seu genitor, Temístocles Lima não só compareceu ao velório do rival para prestar suas condolências à viúva, como inclusive ofereceu seus músicos para acompanharem o cortejo fúnebre, o que de fato ocorreu no dia seguinte.

Além de músico, Temístocles também trabalhava como “guarda-fios” dos Telégrafos, técnico encarregado da manutenção da rede telegráfica dentro dos limites do município de Viana.

Casado com Rita Nunes de Lima, Temístocles tornou-se pai de sete filhos: Raimunda, Naisa, Madalena, Maria de Jesus, Sebastião, Luiz e Ary.

A filha mais velha, Raimunda, mais conhecida como Mundiquinha Lima, fez parte do no coro da Igreja de São Benedito, onde cantou por vários anos. Mas foi um varão, Luiz Lima, que seguindo a tradição da família, igualmente se tornaria músico e compositor. Este filho do maestro Temístocles foi o responsável também pela formação de inúmeros outros músicos vianenses, ministrando-lhes aulas particulares, durante as décadas de 40 e 50 do século passado.

Entre tantas partituras do “Acervo João Mohana”, (exposto no Arquivo Público, em São Luís) encontram-se catalogadas sete composições de autoria de Temístocles Lima. São elas: uma Ladainha ao Sagrado Coração de Jesus, para vozes e orquestra; Pastores de Viana (partitura completa); uma Marcha Fúnebre, para orquestra; uma quadrilha, Amor e Flor; duas valsas, Saudade de Maroca e Santa Inês; e o belíssimo Hino Vianense, com letra de Amâncio Aquino.

Quem teve o privilégio de ouvir ou executar uma das composições de Temístocles Lima, fosse sacra ou profana, garante que a extraordinária sensibilidade desse homem consegue ultrapassar a barreira do tempo e encantar, hoje, até mesmo os ouvidos mais indiferentes.

Portanto, considerando o valor musical de sua obra, Temístocles Lima foi eleito como patrono da Cadeira nº 6 da Academia Vianense de Letras, cujo titular é o procurador de Justiça aposentado, Carlos Nina Everton Cutrim.

Por Luiz Alexandre Raposo

Nota: Até o momento, a AVL não conseguiu obter nenhuma fotografia do biografado, mesmo entre seus descendentes.