Academia Vianense de Letras

Matiz Vianense é uma mostra de arte que celebra a gama de cores da região dos lagos da cidade de Viana. Lagos estes que perfazem um rico caminho por tons verdes e azuis com pigmentações ferruginosas e terrais de uma complexidade fabulosa de cores, impregnadas de tempo e de história.

Esta coleção de pinturas, tenta mostrar as cores de Viana através de mais um, dos muitos olhares de amor e encantamento pela cidade, que este ano comemora seus 260 anos de fundação.

Localizada no Estado do Maranhão, na Baixada Maranhense, é uma região entre rios E lagos que transbordam suas águas devido às chuvas anuais de fevereiro a junho. Este episódio transforma completamente o bioma que metade do ano apresenta-se árido, em um ambiente úmido a alagado, mudando completamente o visual local e a vida de seus habitantes, hoje por volta de 50.503, segundo dados do IBGE de 2016.

Com a vinda da missão jesuítica para o Brasil, padres jesuítas aportaram também em terras Maranhenses, instalando-se no que é hoje a cidade de Viana.

Na época, 1683, fundaram ali a Missão de Nossa Senhora da Conceição do Maracu, às margens do Rio Maracu, região habitada por índios guajajaras. Inicia-se então a colonização de um povoado que chegaria à categoria de Vila de Viana, durante o reinado de D. José I, rei de Portugal, e durante a gestão do governador da capitania do Maranhão, Gonçalo Pereira Lobato e Sousa, no dia 08 de junho de 1757. O reconhecimento da Vila como cidade, chegou um pouco mais tarde, por meio de uma Lei Provincial de número 377, do ano de 1855. Assim, dessa data em diante, Viana fora elevada à categoria de cidade.

De subsistência agrícola, pecuarista e pesqueira, conheceu a glória e também a decadência econômica com o declínio das exportações de seus bens mais produtivos, o algodão, o milho, o arroz e a mandioca.

Em sua época áurea Viana possuía teatro, cinema, traslados aéreos e saraus de poesia e música. Porém, muitos desses bens quase ficaram na lembrança, não fosse o esforço das muitas mãos que abraçaram a cidade, e em especial na atualidade, da AVL, Academia Vianense de Letras, que traz como missão, a preservação cultural e artística para uma sociedade melhor engajada, mais esclarecida e produtora de cultura.

A mostra de arte Matiz Vianense propõe um passeio visual pela ótica contemporânea usando como inspiração aspectos da história da cidade de Viana e de sua região.

Para isso, foi necessário mergulhar e reler sua arquitetura, sua fauna e flora, destacando a beleza do lugar, sem esquecer, no entanto, as angústias que encoraram com o desgaste e o pouco recurso para manter a cidade viva.

A arte com influências europeias nascida em Viana, manifestou-se primeiramente com a construção de edifícios religiosos e moradias, que nos induz ao maneirismo. Estilo que propôs uma reinterpretação ao modelo Classicista Italiano. Este modelo inspirou na arquitetura, tratados como o de Vignola em Roma, que chegou a Portugal e através deste, ao Brasil. Algumas construções de igrejas foram baseadas na Igreja de Gesú, cuja fachada foi criada por Giácomo Della Porta, em Roma. Esta era sede da congregação criada pelo Padre Inácio de Loyola. (Companhia de Jesus).

Devido à Colonização do Brasil pelos portugueses, demos início às nossas edificações com traços maneiristas, barrocos e classicistas. Podemos afirmar que reunimos diversas inspirações para nossas construções e o resultado é uma arquitetura multicultural, eclética. Ora colonial, com traçados Rococós, ora sóbria com colunas e frontões imponentes, ora traçados curvos, delicados ou contorcidos como as escadarias de um art-noveau. Percebemos esta influência com maior nitidez no centro histórico de São Luís.

Com seus conhecimentos, destaca-se também os povos indígenas guajajaras, habitantes daquela região que deixaram suas impressões nas edificações, na pintura, no modo de vida e na sua relação com a natureza.

Viana, com ladeiras em pedrarias, abriga ainda prédios com fachadas que nos remetem a um passado colonial e belo, das casas de engenho e grandes casarões de campo, tecidas em madeira com muitas janelas, com imensas salas e corredores sem fim!

Coroando esta beleza arquitetônica, temos a riqueza natural que envolve todo o entorno da cidade. Lindos lagos com ilhas recheadas de um verde misterioso, lastrado de tons terrosos e ferruginosos que, por vezes, vemos invadir e morar em casarões como o sobrado amarelo, que outrora fora celeiro comercial forte para os vianenses e hoje rui no desgaste que o tempo e o desvelo impõe!

As Samaumeiras cada vez mais raras, ainda moram por lá, carnaubeiras, ingás, crivirizeiros, algodoais e tamarineiros! As marrecas, jacarés dos açudes, sapos gigantes no meio da praça da matriz e aos morcegos dando rasteiros nos casais que ousam sentar-se nos bancos dos largos. Assim é nossa Viana!

Esta mostra propõe observar a paisagem, colocada aqui, não somente no âmbito da apreciação da natureza, mas nas inter-relações que se estabelecem entre o ambiente, a cidade e o cidadão.

Viana, “A Princesinha Dos Lagos”, ainda resiste. Esta singela mostra de arte é um lembrete de que podemos fazer alguma coisa, ainda que amiúde, para preservar e recuperar nosso patrimônio que guarda tantas histórias e tantas possibilidades.

Susana Pinheiro

Artista Plástica e Especialista em História da Arte