Academia Vianense de Letras

Realizada logo após o Natal, o auto encena a visita dos lendários reis magos ao menino Jesus em Belém

 

Ozimo de Carvalho, já em 1958, reclamava sobre a extinção de nossas mais lúdicas manifestações populares em seu famoso “Retrato de um município”. Assim dizia ele: Em franca decadência, condenadas a próximo e irremediável desaparecimento, estão muitas das antigas e tradicionais festas, folganças e encenações populares... Os cordões infantis dos Pastores muito frequentes outrora do Natal a Reis, já não se organizam há anos, assim como os dos Reis, que percorriam as ruas, visitando as casas de família nas noites de 5 e 6 de janeiro...

Tradicionalmente conhecida como “Reis” em nossa cidade (em outras regiões do país recebe o nome de “Reisados” ou “Folia de Reis”), a encenação popular de origem portuguesa, mencionada pelo Dr. Ozimo, representa a chegada dos três reis que vieram do Oriente para visitar o menino Jesus na manjedoura de Belém, guiados pela famosa estrela Dalva. Composto de bailados ao som de canções natalinas, a representação é recheada de recitativos que relatam a magia da noite do nascimento do Salvador do Mundo e a posterior visita dos reis Belchior, Baltazar e Gaspar, trazendo suas oferendas ao recém-nascido.

Em tempos passados, os Reis e as Pastorais marcavam o período natalino em Viana. Ao contrário das Pastorais que se realizavam em palcos e teatros improvisados, os Reis saíam às ruas com seus cânticos e danças para se apresentarem nas casas de famílias, principalmente naquelas que tinham o presépio armado na sala. Era muito singular a chegada dos Reis em uma determinada casa, pois todos os vizinhos acorriam para assistir a apresentação, fosse pelas janelas ou simplesmente adentrando, com o grupo de bailantes, a residência visitada.

Algumas famílias importantes da cidade agendavam com as organizadoras da folgança religiosa o dia e horário da apresentação em suas residências, pois assim podiam convidar os amigos e preparar o bolo com chocolate para recepcionar o corpo de bailantes e seus convidados. Mas na maioria das casas, os Reis chegavam sem avisar, para surpresa e alegria da família visitada. Era uma forma simples de vivenciar e transmitir a alegria genuína do Natal, anunciando a todos que o tempo da paz e da esperança havia chegado.

Em Viana, várias mulheres tornaram-se conhecidas como organizadoras desses autos natalinos ao longo do século passado. A professora Cóia Carvalho, a lendária Nhá-Brígida (depois seguida por sua filha, Anica Ramos), Evangelina Soeiro, Zidorinha Campelo, Romana Soeiro e Maria dos Remédios Nunes foram algumas das responsáveis pela continuidade dessas encenações bonitas que eram prestigiadas por pessoas de todas as idades. 

Reis do século 21 – Atualmente, Maria das Neves Ferreira Assunção (Das Neves) e Maria da Conceição Nunes Machado (Maria Prego) lutam para não deixar essa tradição fenecer no esquecimento entre os vianenses deste início do século 21. Enfrentando muitas dificuldades e quase sem nenhum apoio oficial, elas têm conseguido organizar um grupo de Reis, que vem se apresentando nos últimos anos. No Natal de 2007 chegaram a se apresentar em São Luís, sob o patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura.

Além do custo das indumentárias para os 24 componentes do grupo, um dos maiores desafios enfrentados pelas duas organizadoras do evento é conseguir cobrir o pagamento dos músicos que acompanham os ensaios e as apresentações dos Reis.

Mesmo assim, Das Neves e Maria Prego persistem nesta louvável iniciativa, a fim de impedir que esta herança, deixada por nossos avós, seja de fato esquecida como aconteceu com tantas outras que outrora faziam parte da cultura local.

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição nº 34)