Academia Vianense de Letras


Talvez por influência jesuítica, a música sempre pontificou como expressão cultural significativa do povo vianense desde os primórdios da cidade. E durante quase dois séculos foi assim. Basta citar o Almanak do Maranhão de 1866: naquele ano, no setor de artes e ofícios, Viana dispunha de 9 alfaiates, 9 carpinteiros, 2 ferreiros, 11 ourives, 4 marceneiros, 7 sapateiros e 21 músicos. Este registro prova que há quase 150 anos atrás, a profissão de músico já se firmara como a mais atraente para os vianenses.

Com o desenvolvimento do município e o aumento populacional, o interesse pela música cresceu, fazendo aumentar cada vez mais o número de jovens que abraçavam a carreira musical. Nessa esteira, surgiriam naturalmente compositores e maestros talentosos que se encarregariam de formar novas gerações de profissionais, perpetuando assim por muitas décadas a vocação musical da cidade.

O maestro Miguel Dias, por exemplo, chegou a ensinar música para mais de cem alunos em sua escola domiciliar, sem cobrar um centavo pelas horas pacientemente empregadas no laborioso ofício. Entre seus discípulos mais famosos figuram Dilú Mello, Onofre Fernandes e o popularíssimo Zé Piteira, este último igualmente responsável pela formação de outros tantos músicos, alguns dos quais até hoje abrilhantando as festas locais. 

Cidade dos músicos – No alvorecer do século passado, Viana já se tornara conhecida em todo o Maranhão como “Cidade dos Músicos”, segundo registros na imprensa da época.  O município, além de produzir música de alta qualidade, exportava músicos às dezenas . Era daqui que partiam levas e mais levas de profissionais para São Luís ou outros centros mais desenvolvidos em busca de melhores oportunidades de trabalho. Nas décadas de 40 e 50, quase todas as bandas ou orquestras da capital possuíam entre seus integrantes músicos vianenses. A banda do 24° Batalhão de Caçadores, formada exclusivamente por oficiais do Exército, foi a que mais se banqueteou desse êxodo de jovens talentos musicais, recrutando-os para os quadros de suas corporações. A banda da Polícia Militar do Estado também não ficava atrás.

O subtenente da reserva remunerada, Felipe Garcez Aquino, relacionou cerca de vinte conterrâneos que, como ele, durante algum tempo, fizeram parte da banda do 24° Batalhão, enquanto o 1° sargento, Juruceir Mendonça Cutrim (Juruta), elencou vinte e cinco companheiros vianenses que também tocaram na banda da Polícia Militar.

A tradição cultural da música, em Viana, alcançara tamanha disseminação que era comum encontrarem-se, entre as famílias antigas daqueles idos, vários irmãos que tocavam algum tipo de instrumento. Em alguns casos, a tradição musical era passada de pai para filho, alcançando dessa maneira seguidas gerações. Um dos exemplos mais notórios disso foi o caso dos Lima, família esta composta pelo avô (Raimundo), o filho Temístocles e o neto, Luís. Os três foram excelentes maestros e instrumentistas, tendo sido um deles, Temístocles Lima, o autor da melodia do hino vianense. 

Acervo musical – No livro A Grande Música do Maranhão, o padre João Mohana, após vinte e três anos de pesquisas, confirma que a cidade de Viana foi a maior oficina de música do interior do Estado, no período compreendido entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, tendo como páreo em projeção musical apenas a secular Alcântara.

 E para endossar sua afirmativa, o religioso ainda registra, naquela obra, o seguinte depoimento: Nem todos sabem que passei em Viana minha infância e a primeira fase da adolescência. Foi em Viana que ouvi, pela primeira vez, a missa de Faustino Rabelo. Também foi em Viana que escutei a Ladaínha de Bazílio Serra e o Tantum Ergo de Temístocles Lima, dois outros compositores vianenses.

Naqueles tempos, em Viana, produzia-se música, pura e simplesmente para o consumo local. Os compositores vianenses empenhavam-se numa saudável e prodigiosa competitividade que gerava, no final, música de alta qualidade. Todos os anos surgiam novas produções e já que não se dispunha de um teatro com boa acústica, a igreja  se tornava o único espaço adequado e disponível para apresentação de tais trabalhos. Daí a grande quantidade de música sacra produzida nesse período.

 Além dos ritos religiosos como os novenários ou ladainhas, que inspiravam composições de estruturas complexas, cada momento da missa exigia uma composição específica. Desse modo, alguns músicos compunham Kiries ou Entre-actos. Outros compunham Glórias, Ave Marias, Tantum Ergos e assim por diante. Havia, entretanto, compositores como Raimundo Nogueira e o citado Faustino Rabello que criaram missas completas (algumas destas obras integram o Acervo João Mohana, à disposição dos interessados no Arquivo Público, localizado à Rua de Nazaré, nº 218, em São Luís).

A produção musical vianense, entretanto, não se restringia somente ao repertório religioso. Eclética, abrangia praticamente todos os gêneros musicais como polcas, valsas, dobrados, chorinhos, sambas, marchas etc. Entre os grandes expoentes da música vianense, acrescente-se aos já mencionados, os nomes dos compositores João Balby, João de Parma, Ladislau Fernandes, Onofre Fernandes, João Raimundo Coelho, Sólon Nunes e Raimundo José Nunes Mendonça (Seu Nunes), entre outros.

Com tantos méritos, portanto, não é de estranhar que desse solo fértil brotasse, um dia, alguém como Dilú Mello, musicista que obteve fama e reconhecimento nacional na chamada época de ouro do rádio.                              

Saldo negativo – Infelizmente, como aconteceu com a maioria das mais ricas tradições vianenses, a música também sofreu os impactos dos tempos “modernos”. Nos dias atuais, em Viana, restam pouquíssimos profissionais que lutam bravamente para não deixar morrer esse valioso legado cultural de nosso passado recente.

Uma escola de música, mantida pelo município, que chegou inclusive a ganhar uma sede própria, atualmente sobrevive a duras penas. Com cerca de apenas vinte alunos (entre os quais alguns do sexo feminino), os professores João Lobato e Tarcísio Neves Gaspar se vêem impedidos de aceitar novas matrículas pela falta de instrumentos.  Por esse motivo, a maioria dos aspirantes à carreira musical conclui apenas a etapa do solfejo, frustrando assim seus planos particulares e o objetivo dos mestres que sonham com uma Viana repleta de talentos musicais como no passado.

A missionária canadense, Denise Caron, que trabalhou em Viana nos anos 60, depois de uma visita à cidade em 2002, sensibilizou-se com o problema e enviou, posteriormente, alguns instrumentos para a escola. A ajuda foi muito bem recebida, mas não resolveu a carência dos alunos.

As instalações físicas da escola também são precaríssimas. As aulas noturnas ficam prejudicas pela péssima iluminação, pois existe apenas uma lâmpada na sala, pendente do forro que ameaça ruir. De acordo com informações prestadas pelos professores, a prefeitura prometeu providenciar o conserto do teto, mas não há promessas de aquisição de novos instrumentos.

E assim, fica cada vez mais distante no passado, o tempo que a cidade (embora com uma população bem menor) possuía duas bandas, várias orquestras e ainda exportava músicos a granel.

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 29)