Academia Vianense de Letras


Nascido em São Luís, no dia 21 de junho de 1868, José Pereira da Graça Aranha graduou-se pela Faculdade de Direito do Recife como era comum aos jovens filhos de famílias ricas da época. Ao ingressar na carreira diplomática, em 1898, mudou-se para a Europa, trabalhando em Paris e Londres por cinco anos consecutivos, até retornar ao Brasil em 1904. Foi nesse período (1902) que publicou Canaã, obra que lhe renderia enorme prestigio e o consagraria como um novo expoente das letras brasileiras.

Entretanto, sua projeção definitiva no meio literário nacional ocorreu, em 1922, ao participar da Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Em 1924, o escritor maranhense se envolveria em novo e polêmico episódio, ao romper com a Academia Brasileira de Letras, depois de pronunciar ali sua conferência sobre “O Espírito Moderno”, conferência esta que foi transformada em livro no ano seguinte.

Graça Aranha era também dramaturgo e ensaísta. Em 1929, lançou um novo romance: A Viagem Maravilhosa.  Ao falecer, em 26 de janeiro de 1931, aos 63 anos de idade, deixou incompleta uma autobiografia intitulada O Meu Próprio Romance.

Ao longo do último século, sua obra maior, Canaã, considerada pelos críticos como uma criação notável que funde tendências realistas e simbolistas, alcançou o status de um dos clássicos mais lidos da literatura brasileira. 

Pirilampos vianenses -  Fui tomado de grata surpresa ao descobrir que nossa cidade, Viana, embora não tenha seu nome registrado na célebre obra, foi o palco, no passado, de um fenômeno natural que serviria de inspiração para o autor de Canaã.

No artigo Literatura e Geografia (Maranhão – Um Tema para Antologia), publicado pela Revista Geografia e História (ano V, n° 5, São Luís, Maranhão, dez. 1954), escrito pelo intelectual Antônio de Oliveira, à página 68, consta o seguinte: Em Canaã, Graça Aranha nos surpreende com a maravilhosa descrição de uma chuva de pirilampos, inspirada em narrativa que lhe fizera Antônio Lopes, que assistira ao fenômeno, em sua encantadora Viana, a princesa dos lagos.

Sabe-se que Antônio de Oliveira foi discípulo do professor vianense Antônio Lopes, o que dá para presumir que o aluno tenha ouvido tal afirmação do próprio mestre em sala de aula.

Na tessitura da trama de Canaã, o autor utiliza o fenômeno que lhe foi descrito para colocar uma áurea de luz sobre o sofrimento da personagem “Maria Perutz” que, escorraçada e em fuga, vencida pelo cansaço, acaba adormecendo aos pés de uma árvore frondosa à beira da mata. 

Páginas monumentais - Vale, portanto, a transcrição a seguir do belíssimo texto já referido, extraído do capítulo VII do romance (Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1982. p. 156-158):

Os primeiros vaga-lumes começavam no bojo da mata a correr suas lâmpadas divinas... No alto, as estrelas miúdas e sucessivas principiavam também a iluminar... Os pirilampos iam-se multiplicando dentro da floresta, e insensivelmente brotavam silenciosos e inumeráveis nos troncos das árvores, como se as raízes se abrissem em pontos luminosos... A desgraçada, abatida por um grande torpor, pouco a pouco foi vencida pelo sono; e deitada às plantas da árvore, começou a dormir... Serenavam aquelas primeiras ânsias da Natureza, ao penetrar no mistério da noite. O que havia de vago, de indistinto, no desenho das coisas transformava-se em nitidez. As montanhas acalmavam-se na imobilidade perpétua; as árvores esparsas na várzea perdiam o aspecto de fantasmas desvairados... No ar luminoso tudo retomava a fisionomia impassível. Os pirilampos já não voavam, e miríades e miríades deles cobriam os troncos das árvores, que faiscavam cravados de diamantes e topázios. Era uma iluminação deslumbrante e gloriosa dentro da mata tropical, e os fogos dos vaga-lumes espalhavam aí uma claridade verde, sobre a qual passavam camadas de ondas amarelas, alaranjadas e brandamente azuis. As figuras das árvores desenhavam-se envoltas numa fosforescência zodiacal. E os pirilampos se incrustavam nas folhas e aqui, ali e além, mesclados com os pontos escuros, cintilavam esmeraldas, safiras, rubis, ametistas e as mais pedras que guardam parcelas das cores divinas e eternas. Ao poder dessa luz o mundo era de um silêncio religioso, não se ouvia mais o agouro dos pássaros da morte; o vento, que agita  e perturba se calara... Por toda a parte benfazeja tranquilidade da luz... Maria foi cercada pelos pirilampos que vinham cobrir o pé da árvore em que  adormecera. A sua imobilidade era absoluta, e assim ela recebeu num halo dourado a cercadura triunfal; e interrompendo a combinação luminosa da mata, a carne da mulher desmaiada, transparente, era como uma opala encravada no seio verde de um esmeralda. Depois os vaga-lumes incontáveis cobriram-na, os andrajos desapareceram numa profusão infinita de pedrarias, e a desgraçada, vestida de pirilampos, dormindo imperturbável, como tocada de uma morte divina, parecia partir para uma festa fantástica no céu, para um noivado com Deus... E os pirilampos desciam em maior quantidade sobre ela, como lágrimas das estrelas. Sobre a cabeça dourada brilhavam reflexos azulados, violáceos e daí a pouco braços, mãos, colo, cabelos sumiam-se no montão de fogo inocente. E vaga-lumes vinham mais e mais, como se a floresta se desmanchasse toda numa pulverização de luz, caindo sobre o corpo de Maria até o sepultarem numa tumba mágica. Um momento, a rapariga inquieta ergueu docemente a cabeça, abriu os olhos, que se deslumbraram. Pirilampos espantados faiscavam relâmpagos de cores... Maria pensou que o sonho a levara ao abismo dourado de uma estrela, e recaiu na face iluminada da Terra...

O silêncio da noite foi perturbado pelas primeiras brisas, mensageiros da madrugada. As estrelas abandonam o céu, os vaga-lumes vão se apagando medrosos e ocultando-se no segredo das selvas, enquanto os seus derradeiros lampejos na mata se misturam ao clarão do dia nascente, formando uma luz turva, indecisa, incolor...

[ ]...Abandonada pelos pirilampos, despedida das jóias misteriosas, Maria foi emergindo do sonho, e a sua inocência de todo o pecado, a sua perfeita confusão com o Universo acabou ao rebate violento da consciência. E a infatigável memória lembrou-lhe a agonia. Maria conheceu-se a si mesma. Arrancada pelo pavor dos perigos porventura passados naquele deserto, ergueu-se de um salto e partiu correndo. E enquanto atravessava a mata, apesar do medo que a tomara, na sua lembrança persistia um clarão, que lhe descia dessa miragem entrevista no espetáculo da noite misteriosa”. 

Convém ressaltar ainda que Graça Aranha, neste romance, também prestigia o município de Cajapió com alguns parágrafos, destacando-se ali o personagem maranhense de nome “Joca” (p. 77-82).

Resta-nos agradecer ao escritor Graça Aranha tal contribuição à nossa cultura e à satisfação que nos deu em prestigiar a narrativa do conceituado professor Antônio Lopes, inserindo uma pequena faceta da natureza vianense na composição daquela que seria a terra prometida – Canaã. 

Por José Raimundo Santos (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 26)