Academia Vianense de Letras

Como o surgimento dos primeiros satélites, nos céus de Viana, provocou curiosidade e temor entre a população daquela época


O ano era o de 1962. A cidade ainda com uma iluminação muito precária, à base de um gerador a diesel, passava meses inteiros totalmente às escuras, quando o tal gerador (ou motor, como as pessoas chamavam) sofria uma pane qualquer.

Por isso, a expressão “a noite tá escura como breu” era muito usada, principalmente quando alguém chegava à janela para dar uma “espiadinha” na rua com a tola pretensão de identificar algum passante.

Além do firmamento lastrado de estrelas e dos vaga-lumes que cortavam o espaço, dando certa magia às noites sem lua, a escuridão somente era cortada pelo foco de uma ou outra lanterna de algum privilegiado. Ou ainda pelos faróis possantes de um caminhão que, regressando de São Felipe ou Três Palmeiras abarrotado de sacas de arroz, farinha e babaçu, entrava pelo antigo Caminho Grande para rasgar as trevas das ruas estreitas da cidade.

Nas noites enluaradas, então, era comum as pessoas se sentarem nas calçadas, à porta das casas, para um bate-papo noturno. Invariavelmente, enquanto as conversas se desenrolavam, os olhares perscrutavam o céu à procura de uma estrela cadente ou simplesmente para contemplar a lua em meio à imensidão de nossa via láctea.

Foram esses o cenário e o contexto propícios para o surgimento do misterioso fenômeno que vez por outra se desenhava nos céus vianenses. 

Objeto não identificado – Não se poderia precisar quando, ou quem, pela primeira vez detectou aquela pequenina luz, tão parecida com uma estrela, que vagava entre as demais. Certamente não era uma estrela, pois a luzinha brilhante viajava pelo espaço infinito. Também não podia ser um avião, já que não se ouvia nenhum ruído de motor por mais distante que fosse. O que seria então? Uma nave espacial, um desses discos voadores dirigido por seres extraterrestres?

A novidade espalhou-se rapidamente pela cidade, acirrando a curiosidade de todos. Assim, por alguns meses, nas noites em que a estrelinha vagante reaparecia nos céus de Viana, o alvoroço era geral. Pessoas corriam para o meio das ruas ou para os quintais de suas casas e, entre curiosas e amedrontadas, apontavam e indagavam-se sobre o que seria aquele estranho objeto luminoso. Em pouco tempo, o fenômeno ficaria popularmente conhecido como “bola no céu”.

Às vezes, acontecia de as famílias ainda estarem em volta da mesa do jantar, quando alguém soltava o alarde: “bola no céu”! Era o suficiente para que todos largassem o prato e corressem para o meio da rua. Numa dessas noites, quando ainda existia a pequena Praça de São Sebastião (local hoje ocupado pela Centro de Ensino N.S. da Conceição) o fenômeno quase provocou um acidente de maiores consequências. 

As vacas de Seu Firmino – Um dos moradores da Praça de São Sebastião era Firmino Tinga, famoso guia do tradicional baile de São Gonçalo, que ali residia com a família. Seu Firmino possuía algumas cabeças de gado que eram soltas no campo, durante o dia, mas que à noite eram recolhidas para dormir na praça.

Moradoras também nas vizinhanças, as irmãs do então deputado Travassos Furtado, dona Dedé e dona Das Dores, por esse tempo criavam um garoto negro, chamado José Melônio, para lhes ajudar nos afazeres domésticos.

Certa noite, ao avistar o objeto não identificado, o garoto saiu do quintal da casa em desabalada carreira, gritando “bola no céu”. Eufórico e excitado, Zé Melônio correu em direção à praça, esquecendo-se dos animais ali deitados e perigosamente encobertos pela escuridão. O choque foi inevitável. Assustada com os gritos do menino, uma das vacas se levantou no momento em que ia ser literalmente atropelada. Resultado: cheio de escoriações pelo corpo, provocadas pelos chifres do animal, sangrando e chorando muito, o pequeno Zé Melônio foi socorrido pelas prestimosas irmãs Furtado. 

Coisas de americano – O tempo passou e aos poucos a “bola no céu” foi perdendo o sabor de novidade e consequentemente perdendo também o interesse da população, até que o mistério fosse finalmente elucidado, mais de um ano depois de sua aparição.

Foi quando jornais e revistas passaram a publicar reportagens sobre os sofisticados aparelhos, chamados satélites, que americanos e russos lançavam ao espaço com o objetivo de aperfeiçoarem as comunicações no planeta.

Dessa maneira, ficou-se sabendo que naquele ano de 1962 havia sido lançado o primeiro satélite de utilização comercial, patrocinado pela American Telephone and Telegraph, chamado Telstar 1. Girando em órbita baixa, provavelmente seria esse o satélite que se tornara tão visível em Viana.*

Os vianenses mais céticos, todavia, diziam que “esse negócio de comunicação era apenas conversa fiada”. Para eles, na verdade, o que americanos e soviéticos pretendiam mesmo era a espionagem mútua. 

Boa Esperança – No início da década seguinte, com a chegada da energia da Hidrelétrica de Boa Esperança, que rompeu o breu das noites da cidade e trouxe a televisão, a população vianense começou a perder antigos e saudáveis costumes, como o de sentar à noite, na porta de casa, para conversar com amigos e vizinhos ou simplesmente para admirar a beleza de um céu estrelado. 

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 22)

*Nota do autor: A partir de 1962, outros satélites foram lançados a fim de realizar testes, aperfeiçoamentos e comunicações intercontinentais, além de tentar atrair atenção e mercado. Dentre estes constam: Telstar 2, Relay 1, Relay 2, Syncom 1 e Syncom 2. O Syncom 3 entrou para a história por ter realizado pela primeira vez, ao vivo, a retransmissão dos jogos olímpicos de 1964.