Academia Vianense de Letras

 

 

O padre Serafim Leite (1890-1969), em sua História da Companhia de Jesus no Brasil (tomo III, livro II, capítulo VIII) discorre alguns parágrafos sobre o empreendimento jesuítico na antiga Aldeia do Maracu, no Maranhão, que englobava a Fazenda e o Engenho de São Bonifácio, quando os jesuítas foram presos por ordem de Sua Majestade, em junho de 1757.

Para tanto, Serafim Leite baseou-se no trabalho de outro historiador português, o também padre jesuíta José Caeiro (1712-1791), que teve o cuidado de reunir, na obra intitulada De Exílio, toda a documentação relativa ao trabalho de seus colegas de congregação, ao serem expulsos do Brasil.

Através do “Inventário do Maranhão”, Caeiro fez o levantamento completo do que existia no Engenho de São Bonifácio. Ao mencionar a igreja, o texto diz que era velha, rebocada e caiada, e que já havia madeira lavrada para a nova que se pensava construir. O retábulo pintado era de Nossa Senhora da Luz, com o menino nos braços. Estátuas: São Bonifácio, São Pedro, São Paulo, Santo Antonio, Santo Cristo, São João Evangelista. Alguma prata e bons ornamentos.

É dessa maneira que se fica sabendo da existência dessas seis imagens, na pequena igreja do Engenho de São Bonifácio, quando da criação da Vila de Viana em 8 de julho de 1757. Infelizmente, até o momento é desconhecido o paradeiro de três delas: Santo Antônio, São Paulo e São João Evangelista.

São Pedro – Considerados como os dois sustentáculos do cristianismo, São Pedro e São Paulo eram os grandes inspiradores dos padres jesuítas na obra de evangelização dos povos do Novo Mundo. Desse modo, era muito comum que as imagens dos dois apóstolos acompanhassem os religiosos em cada nova missão fundada, como foi o caso da Missão de Nossa Senhora da Conceição do Maracu.

Após a desativação do Engenho de São Bonifácio, o São Pedro foi levado provavelmente para a capela de alguma fazenda das redondezas, quem sabe da Fazenda Araçatuba.

No início do século passado, sabe-se que esta imagem já se encontrava na Igreja Matriz de Viana. Na década de 40, devido o grande acervo sacro então existente na igreja e pelos poucos nichos e altares disponíveis, o pároco da época, padre Manoel Arouche, decidiu delegar a guarda e responsabilidade de algumas imagens às famílias católicas mais tradicionais da cidade.

Padroeiro do Carro Quebrado – Pequenos núcleos populacionais do município também eram agraciados com tal incumbência, como foi o caso do Carro Quebrado. Objetivando premiar os moradores daquela localidade pelo grande número de batizados e casamentos ali oficializados, padre Manoel Arouche resolveu lhes entregar a guarda do São Pedro. Uma procissão então foi organizada, saindo do Retiro, para conduzir o santo até aquele povoado. Segundo a Sra. Inês Costa Mendes (Dona Santoca), moradora do Carro Quebrado, o esplendor de ouro da cabeça do santo desapareceu durante o percurso. Anos depois, já no povoado, foi roubada a chave (também de ouro) que a imagem trazia na mão direita. 

Nas últimas décadas, a existência desta imagem parece ter sido esquecida pela Igreja local. Somente há alguns anos, o Comitê de Defesa do Patrimônio Histórico de Viana tomou conhecimento de sua permanência no Carro Quebrado, quando então se iniciaram os contatos para recuperação e restauração da relíquia. Em junho passado, a imagem foi entregue ao padre Rosivaldo Morais, atual pároco da Catedral da Diocese de Viana.

Santo Cristo – É uma imagem que mostra o Cristo flagelado, após sua prisão e açoitamento pelos soldados romanos. Representa de forma pungente e comovedora, um momento da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele está despojado de suas vestes e com o corpo cheio de ferimentos. É o Ece Homo, o Homem-Deus, aproximando-se do auge da dor.

Em Portugal, esta representação do Cristo sofrido, com os punhos atados, é mais conhecida como Santo Cristo, sendo venerado até os dias atuais em várias regiões portuguesas, como é o caso do “Santo Cristo dos Milagres”, secularmente reverenciado pelos católicos da ilha dos Açores. Provavelmente por esse motivo, esta imagem foi assim registrada no “Inventário do Maranhão”, utilizado pelo padre Caeiro em seu célebre trabalho.

A história do Bom Jesus – No Brasil, entretanto, esta mesma imagem passaria a ser popularmente conhecida como “Bom Jesus”, devido a um achado singular, ocorrido em 1647. Diz a lenda que uma caravela partiu de Portugal com destino ao estado de Pernambuco. A poucas milhas da costa pernambucana, os portugueses perceberam a aproximação de uma embarcação de bandeira holandesa. Com receio de terem seus objetos profanados, a tripulação jogou ao mar toda sua carga, inclusive uma imagem do Santo Cristo, a qual seria carregada pelas correntes marítimas até a praia do Uma, no litoral sul paulista. Nove meses depois, a imagem foi encontrada por dois índios e conduzida à Vila de Iguape. A partir daí passaria a ser venerada como “Bom Jesus”, denominação esta que, com o passar do tempo, se estenderia pelas demais regiões brasileiras.

Por esta razão e outros pequenos indícios, torna-se forte a hipótese de que o “Bom Jesus da Coluna” vianense seja, na verdade, o antiguíssimo Santo Cristo originário da capela dos jesuítas.

Recomposição do acervo – Durante quase dois séculos o Bom Jesus ou Santo Cristo foi venerado pelos católicos da cidade na Semana Santa. Após apresentar uma rachadura vertical ao longo do tronco, a imagem foi recolhida a um cômodo do Palácio Episcopal e certamente por conta dessa rachadura escapou de ter destino desconhecido, conforme aconteceu com as demais imagens de madeira do acervo sacro vianense, na década de 1980.

Somando-se ao São Bonifácio (atualmente em exposição no anexo de arte sacra do Museu Histórico e Artístico do Maranhão, em São Luís) e confirmando-se a verdadeira origem do Bom Jesus, subiria para três o número de imagens recuperadas da antiga capela da missão jesuítica de Viana.

 Por Luiz Alexandre Raposo