Academia Vianense de Letras



Há cinquenta anos, em 30 de outubro de 1962, o papa João XXIII assinava a bula Christi Fidelium que criava a Diocese de Viana. No entanto, o movimento em prol da instituição desta nova diocese começara bem antes, em janeiro de 1940, quando o então Arcebispo de São Luís, Dom Carlos Carmelo, esteve em visita pastoral a Viana.

Recebido calorosamente com festas e grande entusiasmo, o pastor surpreendeu-se sobremaneira com o fervor religioso da comunidade católica vianense daquela época. Assim, ao despedir-se, prometeu que iria sugerir ao Vaticano a criação de uma diocese em Viana e recomendou ao pároco local, padre Manoel Arouche, que intensificasse o trabalho de evangelização pelos povoados do município e cidades circunvizinhas, a fim de preparar o terreno para a instalação da nova diocese.

Padre Manoel logo arregaçou as mangas e iniciou os trabalhos, embora contasse apenas com três sacerdotes para ajudá-lo na árdua missão. O pároco não demorou também a planejar a construção do Palácio Episcopal com o objetivo de hospedar condignamente o futuro bispo de Viana. Para tanto, utilizando-se de sua liderança religiosa, requisitou a cooperação dos comerciantes, dos fazendeiros da região e de toda a comunidade vianense. Em 1953, finalmente, o palácio ficou pronto para receber aquele que viria pastorear o disperso rebanho de boa parte da Baixada Maranhense.

Nesse meio tempo, entretanto, a transferência de Dom Carlos Carmelo para São Paulo havia provocado a descrença na criação da diocese de Viana, pois muitos imaginaram que a idéia logo seria esquecida. Ledo engano. O novo Arcebispo de São Luís, Dom José de Medeiros Delgado, tinha especial carinho pela “Cidade dos Lagos” e não deixaria que o projeto esmorecesse no Vaticano.

Infelizmente, o abnegado pároco de Viana – e principal entusiasta da criação da diocese – não chegou a ver o sonho realizado. Em outubro de 1958, quatro anos antes da assinatura da bula papal, padre Manoel Arouche faleceu de infarto no miocárdio, deixando na orfandade toda a coletividade vianense.

Dom Hamleto: 1° bispo – Italiano da região do Lácio, Hamleto di Angelis era um religioso da congregação dos Missionários do Sagrado Coração que viera trabalhar no Brasil, após a II Guerra Mundial. Radicado no Maranhão desde março de 1946, o jovem sacerdote havia passado pelas cidades de Pinheiro e Turiaçu, antes de tornar-se pároco da Igreja de Santana, em São Luís.

Aos 44 anos, o padre Hamleto di Ângelis foi nomeado como primeiro bispo da Diocese de Viana pelo próprio Papa João XXIII. Depois de receber a ordenação episcopal em São Luís, três semanas antes, Dom Hamleto foi recebido com imenso júbilo pelos vianenses no dia 4 de agosto de 1963. 

Desafio gigantesco – Constituída de uma área de mais 32 mil quilômetros quadrados e uma população estimada na época de 400 mil habitantes, originalmente a nova diocese abrangia os municípios de Viana, Cajari, Cajapió, Matinha, Monção, Pindaré-Mirim, Penalva, São João Batista, São Vicente Férrer e Santa Luzia. Depois seriam acrescidos mais dois municípios: Bom Jardim e Santa Inês.

É importante lembrar que naquele início da década de 60 do século passado, não havia telefones nem estradas permanentes ligando os municípios, o que tornava a comunicação difícil e as viagens demoradas e cansativas. 

Bispado de D. Hamleto – Preocupando-se principalmente com a educação dos jovens vianenses e com a pobreza da população espalhada pelos campos, povoados e demais cidades da diocese, o primeiro bispo não desanimou frente ao desafio gigantesco. Mesmo com a saúde debilitada, pois desde Turiaçu já sentia os primeiros sintomas da terrível doença que lhe roubaria a vida, Dom Hamleto percorreu todos os cantos da diocese, alcançando até as ovelhas mais dispersas do imenso rebanho.

Decidido a ampliar a perspectiva de formação da juventude local, visto que naquela época Viana contava apenas com quatro escolas do ensino primário e o então recém-fundado Ginásio Professor Antônio Lopes, Dom Hamleto partiu para a concretização daquela que seria, certamente, sua principal obra: a criação de um Curso Normal na cidade.

Sem fazer uso das mil e trezentas cabeças de gado pertencentes à Fazenda da Santa (como era conhecida a Fazenda da Diocese), ele buscou ajuda financeira no exterior, inclusive na Itália, para custear não apenas a fundação da Escola Normal N. S. da Conceição (atual Centro de Ensino Médio), como igualmente do Seminário São José e de dois Centros Sociais e Catequéticos.

Com pouco mais de três anos de trabalhos prestados à Diocese de Viana, Dom Hamleto di Angelis faleceu em Roma, vítima de leucemia, no dia 25 de fevereiro de 1967, aos 48 anos de idade. 

Dom Hélio: 2° bispo – Natural de Quixeramobim (CE), Dom Francisco Hélio Campos sagrou-se em Fortaleza, antes de tomar posse da Diocese de Viana, em 3 de agosto de 1969, quando o país atravessava o auge da ditadura militar.   Naqueles chamados anos de chumbo, não havia liberdade de expressão e o cidadão não podia participar de qualquer movimento político. Mesmo assim, uma ala da Igreja tentava fazer sua parte, auxiliando e dando apoio aos mais oprimidos. 

Bispado de D. Hélio – Consciente de sua missão como homem de Deus, Dom Hélio identificava-se plenamente com a pastoral voltada aos mais pobres, na perspectiva do Vaticano II. Certamente por isso, seu bispado ficaria marcado pelo apoio ao homem do campo, o pequeno lavrador pobre e espoliado, sem voz e sem vez. Na busca de soluções para os problemas sociais e econômicos da diocese, o bispo contou com o irrestrito apoio do então pároco de Matinha, padre Eider Furtado da Silva. E por abraçarem, juntos, a utopia de transformar a esperança redentora em realidade de justiça, logo seriam taxados de “comunistas” pelos militares e latifundiários da região.

Como seu antecessor, Dom Francisco Hélio Campos também não teve um bispado longo, falecendo em Fortaleza, no dia 23 de janeiro de 1975, vítima de câncer estomacal. Conforme seu último desejo, seus restos mortais foram sepultados em Viana, na Catedral de N. S. da Conceição. 

Dom Adalberto: 3° bispo – Maranhense de Sambaíba, Frei Adalberto Paulo da Silva, da Ordem dos Capuchinhos, recebeu a sagração episcopal na Igreja Matriz de Viana no dia 3 de agosto de 1975 em cerimônia presidida pelo então núncio apostólico Dom Carmine Rocco, e prestigiada pela presença do Governador do Estado, Nunes Freire. 

Bispado de D. Adalberto – O religioso franciscano que dirigiu a Diocese de Viana por 20 anos (1975 a 1995) provocou um dos períodos mais turbulentos da história da Igreja vianense ao adotar uma pastoral contrária à de seu antecessor, o que culminaria no afastamento e posterior excomunhão do padre Eider Furtado da Silva.

Dom Adalberto também foi responsável pela desastrosa reforma da Igreja Matriz (que lhe alterou a feição original) e pela venda de seus sinos históricos, caso que alcançou repercussão nacional, sendo denunciado, inclusive, no programa da Hebe Camargo, na época transmitido pela TV Bandeirantes.

Como atuação positiva de seu bispado, consta a criação do Seminário Maior da Diocese de Viana em Belém (PA), o qual possibilitaria a ordenação de novos sacerdotes. Em 1995, Dom Adalberto transferiu-se para Fortaleza (CE), ao ser nomeado bispo auxiliar daquela diocese. 

Dom Xavier: 4° bispo – O então bispo auxiliar de São Luís, Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, francês de nascimento e há quase quatro décadas a serviço da Igreja no Maranhão, aceitou o desafio de deixar a capital para assumir o pastoreio desta diocese, atualmente composta de 22 municípios. 

Bispado de D. Xavier – Ao tomar posse, em 20 de março de 1998, Dom Xavier deparou-se com uma realidade local bem diferente daquela encontrada pelos dois primeiros bispos: em pouco mais de duas décadas, a comunidade católica vianense havia se dispersado de tal modo que as missas dominicais e demais ritos do catolicismo já não mais atraiam multidões como no passado. A Igreja vianense se esvaziara, perdendo terreno cada vez mais para as igrejas e seitas evangélicas que se instalavam na cidade.

Mesmo enfrentando tal realidade adversa, Dom Xavier procurou exercer sua missão com otimismo e grande dedicação às pastorais sociais, durante os 11 anos em que esteve à frente desta diocese. Conseguiu apoio financeiro das Igrejas da Alemanha e da Itália para construção da sede do Seminário Maior da Diocese de Viana, em São Luís (fechado atualmente por falta de seminaristas).

Dono de extenso currículo e destacada atuação na luta pelos direitos humanos, Dom Xavier Gilles renunciou ao cargo ao completar 75 anos, conforme reza o Código de Direito Canônico. 

Dom Sebastião: bispo atual – Nascido em Carutapera (MA), Monsenhor Sebastião Lima Duarte era o vigário-geral de Zé Doca ao ser nomeado, em julho de 2010, como o 5° bispo diocesano de Viana. Recebeu a ordenação episcopal em 18 de setembro desse mesmo ano em sua cidade natal, tomando posse nesta diocese uma semana depois, no dia 25 de setembro.

Nestes dois primeiros anos de trabalho, Dom Sebastião tem buscado conhecer a realidade do novo rebanho, através de visitas constantes e contatos diretos com os fiéis e todos os agentes envolvidos na missão evangelizadora de cada uma das 25 paróquias componentes desta nossa diocese.

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 38)