Academia Vianense de Letras


  •  No tempo do meu pai, José Pinheiro, a Fábrica Santa Maria era composta por uma maquina Zacharias de beneficiar arroz (antes havia um pilador comum e pequeno), um motor horizontal de um cilindro da marca OTTO, um moinho de café, uma máquina de descaroçar algodão, uma prensa de algodão e uma serra de disco para cortar madeira.

Além do comércio e 14 depósitos que serviam para armazenar babaçu, arroz, tucum e farinha, tinha também uma salga onde eram colocados os couros de bois em sal grosso. Toda essa carga era enviada para a firma A.O. Gaspar, em São Luís.

Na loja, trabalhavam com papai: minha mãe, Laura Mohana Pinheiro, Agripino, Zé Gato, Ariovaldo e Delfinzinho. Nos depósitos e corredor para receber os gêneros trabalhavam: Deco, Seu Dutra, Raimundão, Chico Purga, Chico de Raimundo Cândido, Sérgio e Martinho. No motor da usina de beneficiar arroz: Seu Vieira, Seu Mendes, Zé Silva, Cidreira, e às vezes o popular Palestra. 

  • Torrado por Seu Mendes, o Café Pinheiro, que se tornou famoso na cidade, tinha o seguinte slogan “De janeiro a janeiro, tome Café Pinheiro. O príncipe brasileiro”. Eu e meu irmão Miguel ajudávamos na venda, depois de pesar e ensacar o produto torrado na hora e ainda quentinho. 
  • Os chauferes dos três caminhões (Zeduarte II, Fargo e Ford) eram Baduca, Eduardo,Palestra, João Barroada e Fura-Coco. Naquela época, como ainda não havia a chave para dar a partida nos motores dos veículos, eles precisavam usar uma manivela.
  • As lanchas de papai que faziam o transporte de passageiros e mercadorias para a capital tinham como mestres Raimundo Oliveira na JP; Marister na JL e Juvêncio na Estrela Astreia.

Para o perfeito fluxo dese comércio, o trabalho dos carroceiros vianenses eram imprescindíveis, pois eram eles que transportavam os sacos de babaçú, arroz  e outros gêneros para o embarque no porto, no período do verão. Ainda lembro os nomes de alguns deles, como por exemplo Corrêa, Estêvão Cujuba, Euzébio Carreiro, Oficial, Pedro Mendengo e João de Marculina.

No inverno, as lanchas de papai entravam no lago e vinham ancorar na calçada dos fundos do sobrado, que dava para o campo e por isso mesmo era bastante alta. No verão, aproveitávamos a altura dessa mesma calçada para montar nos cavalos e passear pelos campos.

  • Ao lado da salga (que ficava no nosso quintal, perto do galinheiro) ficavam as eiras, onde era colocado o arroz para secar ao sol. Eu e Miguel costumávamos ficar ali muito tempo, vigiando para espantar passarinhos e pombos que vinham comer o arroz. Na beira do campo, perto da salga e do poço da casa, havia uma horta que mamãe cultivava, auxiliada por Conceição e João da Cruz (negro feio, mas muito trabalhador e honesto, pelo qual eu tinha a maior estima e hoje guardo dele uma grande saudade).  Nessa horta, mamãe plantava tomate e pimentão. O tomate era de massa, um tipo bem graúdo e muito saboroso, que era vendido em Viana e transportado para ser comercializado também em São Luís.         
  • Desde 1958, nós já tínhamos água encanada que nos dava o conforto do banho de chuveiro, sanitário com descarga e torneira no jirau de lavar louças. Tudo feito mediante um tonel de 200 litros, abastecido com água do poço que era bombeada manualmente. Quando a bomba quebrava, o jeito era abastecer o depósito com água carregada em latas de vinte litros (latas do Querozene Jacaré, também comercializado na loja). Era o já citado João da Cruz que fazia todo esse trabalho, subindo pela escada da varandinha do sobrado com a lata na cabeça até encher o tonel.
  • Mamãe fazia e vendia picolés (bacuri, cupu, leite com passas,maracujá e morango). Eram feitos na geladeira Electrolux, a querosene, que ficava na varanda do andar superior. Era ali também que os fregueses saboreavam os picolés, enquanto desfrutavam daquela maravilhosa vista para o campo verde, durante o verão, ou para a imensidão das águas do lago, durante o período do inverno. Os picolés, apreciados na cidade por serem muito gostosos, eram servidos em copos de alumínios que brilhavam à luz do sol. Vendia-se, em média, de 30 a 40 picolés por dia. O dinheiro arrecadado não entrava nas despesas da casa, mas era separado por Mamãe como forma de investimento (através da compra de mercadorias em São Luís, as quais eram estocadas e comercializadas na Casa Mohana).         
  • Tivemos várias empregadas domésticas. A primeira foi Conceição que chegou lá em casa antes do meu nascimento. Depois vieram Antoninha, Maria de MiIindrino, Auta, Tia Satira, Laura de Coraci, Tolentina, Firmina e Isabel. As duas últimas foram Joana e Maria, que vieram conosco para São Luís em 1967, quando nos mudamos de Viana.
  • Lembro-me bem de Vovô Delfim que vinha todo dia, pela manhã, tomar café lá em casa. Ele chegava num cavalo branco e bonito de crinas enfeitadas. Papai ia buscá-lo na porta, onde conversavam um pouco e depois  subiam ao encontro de mamãe que já estava à espera dos dois com a mesa posta. Vovô sempre brincava comigo, Miguel e Maria Laura, a quem chamava de “minha princesa”. Acho que ele não chegou a conhecer Maria Cândida, a quarta dos seis irmãos.      
  • Nossas refeições eram sempre feitas na varanda. Após o jantar, todos nós nos reuníamos em volta da rede de papai e da cadeira preguiçosa de mamãe para rezarmos o terço. Depois disso, papai descia para a loja e trabalhava até às 23 horas, quando então subia para se recolher.
  • Papai acordava todos os dias às 5:30 e logo descia para a loja, a fim de  preparar as correspondências para São Luís. A maioria de suas cartas eram endereçadas aos fornecedores ou dando instruções a Seu Martiniano, o responsável pelo depósito da Rua do Desterro nº 105, local do armazenamento das mercadorias que iam ou vinham de Viana em suas lanchas. Por último, ele  nos entregava a relação com os nomes dos três passageiros que haviam adquirido as passagens de avião. Eu e Miguel íamos, então, para o Campo de Aviação esperar os monomotores do Táxi Aéreo Aliança para entregar ao piloto a relação dos passageiros com o dinheiro das passagens e a correspondência de papai para São Luís. Os pilotos dos teco-tecos eram Diegues, Gaudêncio, Pedrada e Edmilson.

Cumpridas nossas tarefas matinais, retornávamos para trocar de roupa e ir para a Escola Paroquial Dom José Delgado, o famoso Colégio do Padre, na Praça da Matriz, onde estudávamos pela manhã.

Por José Mendes Pinheiro Filho (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 37)