Academia Vianense de Letras

O mestre Raymundo de Castro Maya e o discípulo, o príncipe D. Pedro Augusto


Certa vez Erasmo de Rotterdam disse que “a primeira fase do saber é amar os nossos professores”. Isso tem lá seu fundo de verdade. Afinal, quem não lembra com carinho de algum mestre do passado? Uma vez professor, para sempre será assim tratado pelos ex-alunos. É como se o ofício precedesse o próprio nome. “Professor fulano” ao invés de simplesmente “Fulano”. E isso acontece para todos os estratos sociais, em todos os lugares.

Hoje conto a história de um Príncipe e seu professor! Para nós, vianenses, nada mais prazeroso do que saber que o professor do príncipe em questão era nosso conterrâneo. Trata-se de Raymundo de Castro Maya e do Príncipe e seu aluno, D. Pedro Augusto de Saxe e Coburgo*, neto mais velho de D. Pedro II. Como já sabemos, Castro Maya fora escolhido pessoalmente pelo Imperador para a tarefa de auxiliar nos estudos de D. Pedro Augusto que, em abril do ano de 1887, se formaria na mesma profissão de seu mestre, Engenharia Civil.

Raymundo Ottoni de Castro Maya, filho do nosso vianense, guardou sete cartas e cinco cartões do Príncipe dirigidos a seu pai, datados de 1885 a 1889, quando D. Pedro Augusto tinha entre 19 e 23 anos. O Príncipe (que tivera outros professores notáveis como Benjamin Constant) demonstra, através desses escritos, uma relação de respeito, carinho e confiança pelo mestre. As missivas tratam basicamente de assuntos referentes aos estudos e aulas particulares de D. Pedro Augusto.

Num dos cartões de visitas escreveu ao mestre: Prometo estudar muito de manhã às 5 horas em diante, realizando à risca o meu programa. Assinou apenas D. Pedro, tendo embaixo a sigla S.C.G, de seu sobrenome. E datou: Rio, 11 de novembro de 1885. Outro interessante “bilhete” do príncipe foi feito em tom jocoso e escrito em papel do escritório de engenharia de Castro Maya, sito à Rua do Hospício (atual Buenos Aires), cujo conteúdo é o seguinte: 

Dr. Castro Maya

O Imperador deseja que haja explicação hoje. Para fazer-lhe a vontade, resolvi perdir-lhe que vá hoje às 7hs em ponto a S. Cristóvão. Tenho que sair 8 ½ para  teatro.

A explicação in nomine será das 7-8.

Poder-se-á evitar tudo isso, se o Senhor der alguma desculpa para não aparecer

Seu Amigo,

D. Pedro Augusto

Rio, 29 de julho de 1886 

O mais interessante, entretanto, é o convite para a “experiência do fonógrafo”, aparelho destinado a reproduzir sons gravados. O Imperador havia recebido de presente um fonógrafo de seu próprio inventor, Thomas Edison. A novidade foi apresentada aos brasileiros em 1889. D. Pedro Augusto não se esqueceria de convidar o antigo professor para assistir aquele milagre da tecnologia que aconteceria à sua casa, no Palacete Leopoldina, à Rua Duque de Saxe (hoje General Canabarro). No cartão consta: 

Amigo Dr. Castro Maya

Amanhã, 5ª feira, às 7 h. da noite, há experiência de fonógrafo em minha casa. Terei prazer de vê-lo por aqui, de casaca e gravata preta.

Tomaremos chá, em seguida 

Há, entretanto, um cartão e uma carta, provavelmente escritos durante sua segunda viagem à Europa (1887-1888), acompanhando o Imperador D. Pedro II e D. Teresa Cristina Na missiva dá suas impressões sobre as cidades européias e mostra-se curioso de notícias do Brasil. Logo no início da carta, dirigida de Ebenthal em 25 de agosto de 1887, disse: Dr. Castro Maya. Recebi sua amável carta de 12 de julho. Não respondi logo porque tenho estado num andar incessante, numa roda viva de novidades de toda espécie. O tempo para olhar e ouvir é pouco. Mais adiante complementa: Continuarei sempre a lhe escrever a miúdo, cartas mais ou menos longas, conforme o tempo que tiver disponível. E ainda agradeceu a coleção de pedras que ganhou do mestre vianense.

Em seguida, o príncipe comentou o que tinha visto no Velho Mundo: Ao deixar o navio, vi Lisboa, que me agradou bastante; depois Madrid, que também muito me agradou; e finalmente Paris, que justamente merece o muitíssimo me agradou. Não deixei de aproveitar o tempo útil e agradavelmente, visitando museus, coleções, etc., indo ao teatro, mas com moderação.

Como escrevia para um amigo em quem confiava, D. Pedro contou detalhes sobre a saúde do avô dizendo que: Partimos todos para Baden Badens, pitoresca cidade de banhos na Alemanha. O Imperador, que vai indo sempre a melhor, felizmente, demorar-se-á lá dois meses, a partir de 1 de agosto em uso de duchas. Um leitor mais atento, entretanto, perceberá mensagens cifradas sobre o mesmo assunto quando disse: Sei que o Sr. é amigo sincero e discreto. Sob reserva lhe direi que o estado moral da pessoa que nós sabemos, não me agrada. Noto-lhe uma apatia e um estado de nulidade de vontade que não lhe é peculiar. O príncipe encontrara uma maneira discreta de compartilhar com o amigo vianense sua preocupação com o Imperador do Brasil.

Finalmente, autoriza Castro Maya a desmentir os boatos sobre um casamento que lhe tentavam impor. Na carta o príncipe é claro ao dizer: Quanto ao tal casamento fabricado, pode declarar que ele não terá lugar. Há outras idéias em que eu também estou, porque me conservei independente, o que convém muito.... Termina a carta assinando Sempre o seu amigo D. Pedro.

O destino do príncipe seria trágico. Em 1889 tentou assumir a coroa. Com a Proclamação da República, foi detido juntamente com o restante da família no Paço Imperial. Quando foram conduzidos ao exílio, ele teve o seu primeiro surto psicótico. Aos 27 anos tentou suicídio. Solteiro e sem filhos, morreu em um sanatório em Viena, em 1934.

A historiadora Mary Del Priore dedicou-se ao estudo da vida desse príncipe, resultando na publicação de um livro com o título de “O príncipe Maldito: traição e loucura na família real” (Rio de Janeiro: Objetiva, 2007). Nessa obra, a citada historiadora refere-se, em vários trechos, ao nome de Castro Maya, o que comprova a importância que esse mestre teve no seio da família imperial.

A trajetória de Castro Maya é verdadeiramente fascinante. Colecionista, bibliófilo, técnico de estradas de ferro, empresário, engenheiro, professor de príncipe... Muitos mistérios desse ilustre conterrâneo ainda estão por ser revelados.

* Seu nome completo era Pedro de Alcântara Augusto Luis Maria Miguel Rafael Gonzaga de Bragança Saxe e Coburgo

Por Pollyanna Gouveia Mendonça (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 29)