Academia Vianense de Letras


Há treze anos que uma equipe de pesquisadores da UFMA (que integro como um dos coordenadores) vem estudando a Baixada Maranhense, tentando compreender todos os processos e mecanismos que decorrem da inundabilidade de seus campos naturais, bem como as relações que a população historicamente tem estabelecido com esses ambientes.

Por conta desse trabalho, de todas as regiões maranhenses, a Baixada é a melhor e mais estudada cientificamente, já se dispondo de uma valiosa base de conhecimento, que aponta, com segurança, alternativas sustentáveis para melhorar a qualidade de vida da sua população, a partir da utilização dos recursos ambientais.

Tais alternativas, apesar de relativamente simples, requerem vontade e determinação políticas, as quais só eclodirão quando a população atingir o patamar de consciência política capaz de assumir efetivamente o controle das políticas públicas e de produzir gestores públicos que tenham percepção da importância e do papel dessas áreas inundáveis, na vida da população.

É minha mais profunda convicção que, apesar da longa distância a nos separar desse estágio, não há justificativa para que determinadas atitudes preliminares, indispensáveis e inadiáveis, deixem de ser adotadas para interromper o rápido processo de degradação ambiental que, a cada dia, danifica os ecossistemas e reduz os limites para a sobrevivência dos seres humanos que ali vivem, tornando ainda mais precária a sua já minguada esperança de um dia viver com as mínimas condições de dignidade.

Entretanto, o que se evidencia é uma já intolerável exuberância de exemplos da falta de ação das autoridades incumbidas de fiscalizar e punir aqueles que persistem no mundo do crime ambiental. Esta falta de ação, associada à absoluta impunidade, atribui ao poder público o papel de conivência com o crime. A sociedade, por sua vez, letárgica, nada cobra.

O caso dos búfalos é um exemplo concreto dessa conivência. Apesar das aterradoras conclusões dos estudos científicos sobre os malefícios causados pela criação extensiva de bubalinos nos campos inundáveis da região, haja vista a magnitude da perturbação que esse criatório provoca no metabolismo desses ambientes (comprometendo sua função natural e essencial, proporcionada pela dinâmica anual de inundação, que é a produção de peixes, sem qualquer custo), até agora nenhuma atitude foi tomada pelas autoridades competentes.

Plantações de arroz - Outra aberração, esta de iniciativa mais recente, que já se instalou, e vem se expandindo nessas áreas, é o plantio de arroz dentro dos lagos. Acontece que quem cultiva, aplica agrotóxicos (veneno) contra pragas e doenças da planta. E se isso ainda não ocorreu em Viana, certamente ocorrerá nos próximos anos.

Tendo começado no lago de Viana e no entorno do lago de Cajari e Penalva, essa prática vem-se alastrando numa rapidez espantosa por vários dos ambientes que formam o “Rosário de Lagos”, livremente, como se fosse procedimento absolutamente normal, dada a completa omissão das Prefeituras Municipais e, mais grave, do órgão ambiental estadual, este mais assemelhado a um instrumento de adorno, dado que, de modo geral, a sua relação com os problemas ambientais do Estado, ou é de pleno desconhecimento, ou de cômoda omissão. 

Água contaminada - Esse mais novo atentado tem um agravante: a água que a população urbana de Viana bebe é captada no Igarapé do Engenho, ligado ao lago de Viana. Ora, pasmem os leitores, se no próprio lago de Viana jogarem veneno para matar pragas do plantio de arroz, torna-se elementar perceber que essa prática contaminará a água do lago. Como esta é consumida pela população, logo os contaminantes invadirão o organismo dos consumidores, pois a Estação de Tratamento de Água não remove contaminantes.

Peixes contaminados - A extensão do crime é bem maior, pois o grande ecossistema lacustre Viana-Penalva-Cajari é grande supridor de pescado para toda a população urbana e rural, desses e de outros muitos municípios da região, e que, em períodos de fartura, ainda exporta peixes para São Luís. As cadeias alimentares desenvolvidas em ambientes aquáticos contaminados com agroquímicos absorvem essas substâncias de forma cumulativa, atingindo o consumidor final do pescado – o homem - de forma implacável, causando nele uma série de enfermidades, muitas delas letais, de difícil diagnóstico e de ainda mais difícil tratamento.

Isso permite assegurar que cultivar arroz nesses ambientes afetará (se já não está afetando) todos aqueles usuários diretos e indiretos daquelas águas, colocando em risco previsível e evitável um dos mais importantes ecossistemas do nosso Estado, além da saúde e da vida de imenso contingente populacional.

Daí, a necessidade de que essa nova modalidade de crime ecológico – o cultivo de arroz nos lagos - seja banida já, antes que seja tarde. Para isso, todavia, consideramos fundamental que a população seja informada sobre o que está ocorrendo e que, com vigor, exija das autoridades a atitude que se impõe.

Tenho esperança de que os vianenses liderem a iniciativa.

Por José Policarpo Costa Neto (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 23)