Academia Vianense de Letras


Nos anos 50 e 60 do século passado, a chegada do Natal em Viana era sempre marcada pelos preparativos para a armação do presépio. Não se tinha árvores de Natal, muito menos luzes coloridas e cintilantes, até porque a cidade ainda não contava com energia elétrica permanente. Mas nem por isso o período natalino perdia a magia e encanto.

Mistura de religiosidade e tradição, a montagem do presépio era um costume inserido na cultura local, tanto que quase todas as famílias vianenses de classe média, naquela época, possuíam um presépio. E havia até um cronograma previamente estabelecido para sua preparação e montagem: no dia 13 de dezembro, dia consagrado a Santa Luzia, plantava-se as sementes de arroz com casca que, depois de germinarem e crescerem (algo em torno de dez centímetros), iriam compor a decoração do presépio. No dia 21 saía-se em busca da murta, planta arbustiva que por essa época abundava nas cercanias da cidade. E finalmente no dia 22, três dias antes do Natal, o presépio era montado na sala da casa, onde todos pudessem admirá-lo.

Naqueles tempos, a montagem do cenário onde o menino Jesus iria nascer exigia amor, trabalho e dedicação. Primeiro era preciso fazer uma armação de arame em forma de meio-círculo no qual seria fixado o “céu”, confeccionado em papel de seda azul; uma meia-lua, algumas estrelas e principalmente a estrela Dalva com sua cauda comprida eram cuidadosamente recortadas em papel prateado para serem coladas no céu (por serem prateados, usavam-se os invólucros internos das carteiras de cigarro como matéria prima).

Depois, então, era preparada a base do presépio em uma mesa ou outro móvel de superfície plana, totalmente coberta por uma camada espessa de serragem de madeira. Um espelho com a moldura encoberta pelos farelos de serragem representava um pequeno lago, sobre o qual eram colocados patinhos como se estivessem nadando. A um canto, os pés de arroz bem verdinhos davam mais vida ao cenário. O restante ficava por conta da criatividade de cada um. Mas não podiam faltar os personagens principais do enredo que ocupavam o centro do presépio: José, Maria, o menino Jesus na manjedoura, o burrinho, a vaca e finalmente os três reis magos com suas oferendas. Alguns ainda acrescentavam as figuras do anjo e dos pastores com suas ovelhas. Enfim, a “riqueza” de personagens dependia das posses do dono da casa, mas a beleza do presépio ficava unicamente por conta da criatividade e bom gosto de quem o montava.

Entretanto, o mais importante a destacar é que o presépio, naquele tempo, não significava apenas uma decoração do Natal, como normalmente é visto nos dias atuais. Carregava um simbolismo muito maior: era como se o nascimento do filho de Deus ocorresse particularmente no seio daquela família. Tanto que era costume se fazer orações à noite, em frente ao presépio, não apenas nos dias que antecediam o nascimento do menino Jesus, mas até o dia 6 de janeiro, quando se comemorava a visita dos reis magos ao recém-nascido. E não era raro contar com a participação de vizinhos, amigos e parentes nesses momentos de celebração da mais genuína fé cristã.

No dia 7 de janeiro o presépio era desmontado, mas o cheiro suave da murta permanecia ainda por alguns dias pelos cômodos da casa.

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 44)