Academia Vianense de Letras

Cinquenta anos depois, o importante trabalho missionário desenvolvido pelas Irmãs da Assunção da Santa Virgem (IASV) ainda repercute na coletividade vianense


Elas desembarcaram em solo vianense no dia 28 de janeiro de 1965, atendendo ao convite do então bispo da diocese de Viana, Dom Hamleto de Angelis, que ultimava os preparativos para a fundação da Escola Normal N. S. da Conceição. Conhecedor do excelente trabalho desenvolvido pelas Irmãs da Assunção da Santa Virgem em Alcântara e Guimarães, o bispo havia endereçado uma carta à superiora da congregação, no Canadá, um ano antes, solicitando-lhe ajuda.

De início, vieram apenas três irmãs: Eileen Pratt, Lucille Labarre e Mônica Dallaire. Embora a educação fosse a meta básica da congregação, as religiosas recém-chegadas não pretendiam se limitar somente ao ensino em Viana. Almejavam também participar ativamente das atividades pastorais da paróquia e da diocese. E o foi o que fizeram, depois de conhecer melhor a comunidade local, através de visitas às famílias e encontros com os jovens.







Atuação marcante na educação - Com a fundação efetiva da Escola Normal, em 17 de março de 1966, as irmãs da Assunção assumiram o ensino de várias disciplinas, deixando, entretanto, a direção da nova escola sob a responsabilidade da professora vianense Rosa Maria Pinheiro Gomes. Naquele início de ano, uma nova religiosa canadense de 29 anos, irmã Juliêta Filiatrault, chegara para ajudar a equipe de Viana. Logo as irmãs passaram a lecionar também no Ginásio Professor Antônio Lopes e no Seminário São José, igualmente recém-fundado por Dom Hamleto. Disciplinas como Inglês, Francês, Matemática, Ciências, Educação Moral e Cívica, além da catequese, eram ministradas pelas irmãs nos três estabelecimentos, elevando a qualidade do ensino local e beneficiando, dessa forma, mais de uma centena de jovens vianenses.

Em fevereiro de 1967, com o falecimento de Dom Hamleto, a Escola Normal precisou se reestruturar para continuar funcionando, pois a instituição era mantida apenas pela diocese (sem receber qualquer subsídio do Estado). Chegada há apenas um mês à cidade, irmã Maria Trottier decidiu reunir professores, alunos e pais de alunos para colocá-los a par da situação crítica que ameaçava a escola. Além de concordarem com o aumento do valor de suas mensalidades, os estudantes iniciaram uma campanha para arrecadar fundos, organizando festas, bingos e peças de teatro. Os professores, por sua vez, aceitaram diminuir seus salários. E assim a Escola Normal sobreviveu, sendo reconhecida oficialmente pelo Conselho Estadual de Educação em 19 de novembro de 1968, poucas semanas antes de formar sua primeira turma, quando então passou a receber ajuda do Governo do Estado.

Por essa época, a equipe IASV já contava com a colaboração da carismática irmã Laurence Doyon que, desde o início do ano letivo de 1968, dedicava-se com especial desvelo às aulas de Matemática e Ciências, ministradas tanto na Escola Normal como em várias turmas do Ginásio Antônio Lopes. No ano seguinte, com a chegada das irmãs Berta Lavoie e Solange Dapuis, intensificam-se as atividades das religiosas: enquanto a primeira presta assistência social aos pescadores, domésticas, mães, operários e necessitados, a segunda concentra sua atuação no ensino da catequese e orientação pedagógica aos professores.






Ação pastoral difícil e conflituosa – O livro “Audácia e Esperança”, que registra o apostolado missionário das Irmãs da Assunção no Brasil, durante o período de 1956 a 2006, dedica um capítulo a Viana e Santa Inês. Sua autora, a irmã Georgette Desrochers, não trabalhou em nenhuma das duas cidades, mas colheu o depoimento das companheiras de congregação para escrever a trajetória das IASV na Diocese de Viana.

Segundo a obra, as atividades da pastoral diocesana não caminhavam de mãos dadas por conta de conflitos existentes entre seus próprios agentes, o que acabava minando as energias das religiosas canadenses. Com a posse do segundo bispo, Dom Francisco Hélio Campos, em agosto de 1969, renovaram-se as esperanças das irmãs, em face do declarado apoio recebido do novo pastor, conforme ali descrito: Ao grupo IASV, Dom Hélio manifesta sua apreciação pela sua admirável compreensão do povo; sua inserção na ação pastoral diocesana; sua abertura à renovação e sua vida fraterna que veste dimensões de caridade evangélica.

Reanimadas e cheias de otimismo, as irmãs se engajaram, então, na formação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), convictas de que um passo muito importante estava sendo dado em direção à unidade da diocese local. No entanto, dois anos depois, os problemas de saúde de Dom Hélio e suas viagens a Fortaleza em busca de tratamento, durante meses, ocasionaram uma série de desentendimentos que pouco a pouco iriam corroer o trabalho e o ânimo das religiosas. Em Santa Inês, embora recebidas de braços abertos pela população local e pelo pároco padre Odilo, as irmãs se veem impedidas também de continuar o trabalho pastoral por causa dos mesmos conflitos. Reuniões e assembleias realizadas não conseguiam promover o entendimento com os agentes e o próprio Dom Hélio. Vítimas de acusações infundadas, inclusive de desvios de dinheiro, as IASV praticamente se viram obrigadas a deixar a Diocese de Viana, em janeiro de 1974.

Ao todo, foram nove anos de dedicação e serviços prestados pelas irmãs da Assunção em prol da promoção humana e do fortalecimento da fé do povo de Deus, em Viana e Santa Inês. Elas partiram, mas certamente não foram inúteis seus esforços e sofrimentos em nosso meio, pois como sintetiza a autora do livro “Audácia e Esperança”, nada daquilo que foi realizado por amor é feito em vão. 

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 45)