Academia Vianense de Letras

Num passado não muito distante, ele foi um dos santos de maior devoção entre os vianenses. Tanto prova que, além de ter sua própria igreja e de uma festa anual que atraía multidões de devotos, São Sebastião dava nome a uma escola primária (mantida pelo Estado) e uma rua no centro da cidade, sem esquecer o cemitério municipal de Viana.

Na década de 1960, embora a cidade fosse bem menor, falava-se inclusive no “bairro São Sebastião”, o qual abrangia alguns quarteirões das Ruas Coronel Campelo, Castro Maia e Celso Magalhães circunvizinhos à Praça São Sebastião, onde se localizava a pequena igreja de fachada azulejada.

Havia também a lancha “São Sebastião” que fazia a ligação constante da cidade com a capital, transportando passageiros e mercadorias das mais diversas para abastecer o comércio local. Seria praticamente impossível estimar o número de vianenses que, a bordo da lancha São Sebastião, singraram os rios Maracu, Pindaré e Mearim para, finalmente, atravessar o temido Boqueirão sob as bênçãos do santo protetor.

Santo destronado - De todas essas homenagens, só resta o velho cemitério (em péssimas condições) que ainda mantém o nome do santo guerreiro. A igreja em estilo barroco foi demolida em 1962 para, em seu lugar, ser construída a Escola Normal N. S. da Conceição. Sete anos depois, após o falecimento do 1° bispo da Diocese de Viana, a Rua São Sebastião trocou de nome, passando então a se chamar Dom Hamleto de Angelis. Já o Grupo Escolar São Sebastião, que funcionava no mesmo prédio do Estevam Carvalho durante o turno vespertino, foi extinto em 1986, quando este último passou a funcionar nos dois turnos.

Festa concorrida – Realizada no mês de janeiro e ansiosamente aguardada pela população local, a festa de São Sebastião atraía centenas de visitantes de vários outros municípios, inclusive de São Luís. As novenas rezadas à noite (com banda de música tocando no largo) reuniam devotos de todas as idades. No dia do santo, então, a cidade acordava sob alvorada de foguetes chamando para a missa e procissão, ambas concorridíssimas.  E ainda havia o baile de encerramento dos festejos do santo, considerado o primeiro grito do carnaval vianense que, por esse motivo só, já atraia o interesse de muita gente, principalmente dos mais jovens.

Fato intrigante – Enquanto em muitas cidades brasileiras, São Sebastião continue sendo um dos mártires mais cultuados da Igreja Católica (sem contar aquelas onde é o padroeiro absoluto, a exemplo do Rio de Janeiro), em Viana o santo milagroso perdeu todo o prestígio do passado.

O fato não deixa de ser intrigante: afinal, por que a comunidade vianense permitiu que um santo tão querido caísse no completo esquecimento? A justificativa não pode ser pela simples perda de sua igreja e consequente extinção de sua festa. Caso assim fosse, o mesmo teria acontecido com N. S. de Nazaré que também perdeu sua capela original e o aprazível recanto onde sua festa era realizada. No entanto, a santa continua sendo reverenciada pelos católicos da cidade que até lhe deram uma paróquia com uma nova igreja, em um novo bairro.

Tradição católica: Em épocas distintas, ao longo de dois séculos e meio de caminhada religiosa, foram vários os santos cultuados em Viana. Vários deles, entretanto, não conseguiram conquistar, definitivamente, lugares cativos no seio da coletividade. Como exemplo, podem ser citados Santo Antônio, São Tarcísio, São Bonifácio, Nossa Senhora Aparecida e São Judas Tadeu, entre outros.

Somente quatro santos se destacariam dos demais por possuírem raízes profundas na tradição católica vianense. São eles: Nossa Senhora da Conceição, a padroeira da cidade (que ganhou sua igreja logo que aqui aportaram os jesuítas); São Benedito e São Sebastião (introduzidos pela fé dos primeiros colonizadores portugueses, que não demorariam a construir uma igreja para cada santo); e finalmente N. S. de Nazaré, a última a conquistar a veneração dos vianenses, tendo seu culto se iniciado por estas bandas na década de 1930.

Entre os quatro, depois da padroeira, São Sebastião era certamente o santo que detinha maior predileção por conta dos inúmeros milagres a ele atribuídos. Mesmo assim, em menos de trinta anos, foi banido do calendário religioso da cidade.

No momento atual, em que a Diocese de Viana é dirigida por um pastor que coincidentemente traz o nome de “Sebastião’,  não seria a hora oportuna para fazer ressuscitar a fé neste santo mártir que acompanhou, durante mais de dois séculos, a trajetória do povo vianense?

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 44)