Academia Vianense de Letras

Observa-se ao longo de alguns anos que muitos elementos do Bumba-meu-Boi de Viana deixaram de existir. Outros, no entanto, modernizaram-se. Surge aí uma grande preocupação. A modernização em alguns casos se faz necessária, principalmente quando se trata da descoberta de novos materiais que venham favorecer a confecção das indumentárias dos brincantes. Entretanto, é preciso ter muito cuidado para que a essência não se perca, já que um dos maiores legados que se deixa para as futuras gerações é a cultura herdada e preservada das gerações anteriores.

Cazumba carnavalesco – No último mês de junho, alguns Bois em Viana mostraram o quanto de preocupação acarreta essa modernização. O Cazumba, por exemplo, que antes usava uma farda de chita, há muito tempo já usa farda de veludo bordada de paetês. Até aí, tudo bem, mas em um determinado Boi, a maioria deles usava máscaras de fofão, o que descaracteriza totalmente a personagem. E se a moda pega? O que será dos Cazumbas, num futuro próximo, com esse novo elemento? Estaria se criando uma nova personagem, que seria o “Cazufão”, ou o “Fofozumba”?

Sotaque descaracterizado – O uso dos tambores industrializados também modifica a sonoridade peculiar da “Boiada” vianense. Hoje são poucos os instrumentos de pele de cobra, certamente em decorrência da proibição do uso do couro desses répteis, proibição, aliás, muito importante em prol da preservação da fauna silvestre. Contudo, existem peles de outros tipos de animais que são permitidas. Uma ideia de péssimo gosto foi a introdução do tarol, instrumento de som estridente, que descaracteriza de forma inaceitável o sotaque inconfundível do Boi de Viana (Sotaque da Baixada). Infelizmente, o tarol hoje se encontra presente em quase todos os Bois da cidade. O que aconteceu com o Tambor Onça?  

 

 

 

 










Luz no fundo do túnel – Em meio a tantas aberrações, sobressaiu-se este ano o Boi de Promessa da tradicional família Palestra pela sua beleza, organização e cuidado com a manutenção dos elementos básicos e imprescindíveis do folguedo joanino. Até uma burrinha vermelha, depois de tanto tempo sumida da brincadeira, foi resgatada do esquecimento para dar o ar de sua graça e reviver os velhos e bons tempos.
Exemplos como esse da família Palestra reforçam a esperança de que as mais genuínas tradições vianenses não sejam engolidas pela “modernidade” e acabem desaparecendo num futuro próximo, como já aconteceu com tantas outras manifestações do folclore local. Não se pode esquecer que, sem referências concretas, a cultura vianense perde sua verdadeira identidade.
Torna-se, portanto, urgente que a atenção da sociedade local se volte para a defesa e o resgate de sua cultura, evitando assim que tal processo de descaracterização (e até extinção) não aconteça com os demais elementos dessa rica e legítima manifestação cultural que é o Bumba-boi de Viana.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(*) O autor iniciou recentemente uma pesquisa com o objetivo de investigar os elementos do Bumba-meu-Boi de Viana que se perderam ao longo do tempo.

Por Elves Franco (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 46)