Academia Vianense de Letras

Em 20 de novembro de 2004, a ex-enfermeira Maria Serejo recebeu a placa "Honra ao Mérito Vianense" pela três décadas de serviços prestados  à coletividade local.

Em sua saudação, o acadêmico Lourival Serejo destacou o trabalho realizado não apenas pela homenageada da noite, mas por toda uma equipe de profissionais que cuidaram da saúde dos vianenses entre as décadas de 1940 a 1980. 

Leia abaixo, a biografia da ex-enfermeira publicada no Renascer Vianense, edição n°:

Nascida no povoado do Barro Vermelho (atual Cajari), em 15 de fevereiro de 1915, Maria da Purificação Serejo fazia parte de uma família numerosa de 15 irmãos. E por serem tantos, o pai não tinha condições de custear os estudos de todos os filhos, optando então em investir apenas na formação acadêmica de um deles, Izabel. A oitava filha da prole, entretanto, decidida a estudar enfermagem não se deixava vencer pelas dificuldades financeiras da família. Pré-adolescente, já fazia bolos e manuês para vender, no intuito de arrecadar algum dinheiro que pudesse servir para pagar seus estudos futuros. Até um boi de sua propriedade também foi vendido com essa finalidade.

Aos quinze anos, em 1930, conseguia realizar seu grande sonho. Viajava para São Luís, a fim de se tornar aluna do famoso Instituto de Assistência à Infância “Benedito Leite”, o qual funcionava na Rua Rio Branco, no mesmo prédio onde se instalaria, décadas depois, a antiga Faculdade de Enfermagem. A “Assistência”, como era mais conhecido o instituto, abrigava uma maternidade, um hospital infantil (para as aulas práticas), uma creche e uma farmácia.

O curso de enfermeira-parteira teve duração de três anos. Depois de um ano trabalhando como enfermeira particular em casas de família, retornou ao Barro Vermelho, para exercer a profissão escolhida. Com a colação de grau de sua irmã mais velha, Izabel, em Farmácia, sua vida ganharia novo rumo. O pai, a fim de incentivar a profissão da filha recém-formada, decidiu montar uma farmácia na cidade de Viana. Assim, para acompanhar e ajudar a irmã nos negócios, Maria Serejo veio residir em Viana, em meados da década de 30. Por serem jovens, bonitas e solteiras, as irmãs Serejo não demorariam a conseguir uma fiel clientela. Logo a farmácia ganharia fama, na cidade, como “a farmácia das moças”.

Certo dia, um rapaz moreno, elegantemente trajado, saltou de seu cavalo preto e entrou na farmácia para comprar Guaraína, um analgésico muito utilizado. Era apenas um pretexto para conhecer as novas farmacêuticas. O rapaz se chamava Antonio Azevedo e o namoro começava a partir dali com a mais jovem das irmãs.

Dois anos depois, com o casamento de Izabel, Maria voltou para São Luís. A nova estada na capital, entretanto, não demoraria muito, pois já de namoro firme com o jovem fazendeiro, retornaria a Viana poucos meses depois para também aqui se casar. A cerimônia religiosa realizou-se na Igreja Matriz, na véspera do Natal de 1937, e a recepção aconteceu na casa da madrinha e grande incentivadora, professora Zilda Dias. O casal foi morar de início em Matinha, para depois fixar residência na Fazenda Santo Antônio.

Durante todo esse tempo, Maria Serejo (que se tornou Maria Serejo Azevedo com o casamento) nunca deixou de atuar como enfermeira e parteira. Foram centenas de mães de Viana, Matinha e redondezas que puderam contar com seu prestimoso auxílio. Inúmeras vezes, quando o caso da parturiente complicava, foi requisitada pela colega de profissão, Santinha Neves, para lhe dar uma ajuda. A partir de 1949, com a chegada de Enedina Raposo na cidade, e na falta do médico, as três costumavam se reunir para resolver os casos mais difíceis.

Devota fervorosa de São Raimundo, a quem sempre recorria nas situações de grande aflição, Maria Serejo foi uma profissional competente e responsável durante seus 35 anos de serviços prestados à comunidade local. Nem mesmo ela sabe precisar, ao certo, quantos vianenses ajudou a vir ao mundo.

Do casamento com Antônio Azevedo, vieram sete filhos, todos batizados como Raimundo ou Maria: Raimundo Antônio, Raimundo João, Raimundo José (Zeca–falecido em 2001), Maria Inez (Nita), Maria da Conceição (Concita), Raimundo Benedito (Bibi) e Maria do Socorro.

Viúva desde 1972, D. Maria Serejo vive hoje em São Luís, cercada pelo carinho dos filhos e netos. Prestes a completar 100 anos, bastante lúcida e ainda muito vaidosa, essa cajariense de nascimento e vianense por adoção pode se considerar uma mulher realizada e de paz com a vida. Além de cumprir sua missão de esposa e mãe, teve a graça divina de bem servir à comunidade que, um dia, a acolheu de braços abertos.

D. Maria Serejo, cercada pelo carinho dos filhos