Academia Vianense de Letras

Durante reunião solene da AVL, realizada em 28 de novembro de 2009, o então bispo da Diocese de Viana, Dom Xavier Gilles recebeu a placa "Honra ao Mérito Vianense". A acadêmica Conceição Raposo saudou o grande homenageado daquele ano de 2009.

Leia abaixo, na íntegra, o discurso de saudação a Dom Xavier:

No dia 20 de março de 1998, a Diocese de Viana recebia com festas seu novo pastor, Dom Xavier Gilles de Moupeou d'Ableiges, na época com 63 anos de idade.

Era ele o 4º bispo designado para coordenar a atuação da Igreja Católica nesta diocese de tantos conflitos sociais e políticos e, consequentemente, de tantas contradições. Um desafio gigantesco para um homem que há quase quatro décadas se colocara a serviço da Igreja no Maranhão e que, naquele momento, deixava a função de bispo auxiliar de São Luís para assumir o pastoreio de um imenso contingente populacional disperso em 22 municípios, de uma das regiões mais pobres do Estado.

Em que pese o tamanho do desafio, havia ainda um agravante adicional: o esvaziamento da igreja vianense nos últimos vinte anos. Resultado, talvez, dos tempos atuais em que a sociedade se esquece cada vez mais dos valores transcendentais e assume, sem pudor ou questionamentos, a nova ordem social, onde os valores materiais, o consumismo e o prazer falam mais alto.

Era notório que os cultos dominicais, missas e demais liturgias do catolicismo já não atraíam grandes multidões como no passado, quando o fervor religioso da comunidade católica desta cidade era tanta que inspirou o então Arcebispo de São Luís, Dom Carlos Carmelo, a sugerir ao Vaticano a criação desta diocese, naquele início de 1940. Fervor este que continuou cultivado por mais de trinta anos, até que os ventos dos novos tempos soprassem por aqui.

Em 1998, portanto, já era bem outra a realidade do rebanho católico vianense: os bancos das igrejas estavam quase sempre vazios, pois o povo perdera o hábito de participar dos ritos religiosos tradicionais. Sem falar na grande parcela da população que havia migrado para as igrejas evangélicas.

Dom Xavier chegava, assim, a Viana, com um enorme desafio pela frente.

Por tudo isso, esta nossa agremiação cultural presta, hoje, o devido reconhecimento à coragem e disponibilidade deste religioso de origem francesa que, com humildade, não se acovardou frente à tão árdua missão.

Nascido em Samur, na França, no dia 16 de março de 1935, Xavier Gilles de Moupeou d'Ableiges ordenou-se em seu país de origem em 30 de junho de 1962, aos 28 anos de idade. Nesse mesmo ano atravessou o Atlântico, a fim de exercer seu apostolado em terras brasileiras.

Depois de rápida passagem por Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro, o jovem sacerdote chegou ao Maranhão em 1963, assumindo a Paróquia do Monte Castelo em São Luís e logo após a Paróquia de Fátima, onde permaneceu até 1967. Nesse período vivenciou experiências interessantes como Assistente Eclesiástico da JOC (Juventude Operária Católica) e da Juventude Operária Católica Franciscana.

Em 1968, Padre Xavier foi nomeado pároco auxiliar das cidades vizinhas de São Benedito do Rio Preto e Urbano Santos. Foram nove anos de trabalho junto a essas comunidades do interior maranhense que até hoje recordam com carinho da figura carismática do padre francês.

No começo da década de 1980, ocupou o cargo de coordenador estadual da CTP (Comissão Pastoral da Terra) e das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) no Maranhão. Também ocupou o secretariado do Centro Episcopal da França na América Latina – CEFAL – antes de tornar-se reitor do tradicional Seminário Santo Antônio, em São Luís, de 1989 a 1994.

Após sua ordenação episcopal, em 3 de setembro de 1995, na  cidade de São José de Ribamar, onde já era pároco desde 1993, assumiu a função de bispo auxiliar de São Luís por apenas três anos, pois logo viria pastorear o rebanho católico de parte desta Baixada Ocidental.

Graduado em Filosofia e Teologia ainda na França, D. Xavier possui também Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí e Licenciatura em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Também é autor do livro Curso Bíblico para as CEBS, publicado pelas Edições Paulinas.

Atual Presidente Regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Nordeste 5, Dom Xavier também foi presidente nacional da Comissão Pastoral da Terra até bem pouco tempo atrás. No ano de 2007, teve seu nome indicado para representar o Maranhão em certame que elegeu a personalidade mais atuante na defesa dos direitos humanos, no Brasil.

 Mas independentemente de seu extenso currículo, o que mais se destaca na personalidade de nosso bispo é sua aguçada sensibilidade para a realidade sociopolítica desta diocese composta de nada menos que 22 municípios, nos quais faz questão de estar presente periodicamente.

Dinâmico e carismático, Dom Xavier não é o tipo de líder que se deixa prender ao gabinete da residência episcopal, pois encarna a figura do pastor missionário de fato, aquele que faz questão de acompanhar pessoalmente, e passo a passo, o caminhar de seu imenso rebanho.

Também consciente da importância do papel do religioso na sociedade, principalmente nestes tempos conturbados de pouca fé, e preocupado especialmente com a formação dos novos sacerdotes que possam continuar a obra de Cristo, Dom Xavier idealizou uma casa, em São Luís, que pudesse abrigar os seminaristas da diocese, enquanto estudassem no Seminário Santo Antônio.

Desse modo, com muito esforço e com doações conseguidas das igrejas da Alemanha e Itália, Dom Xavier conseguiu construir e inaugurar, em 2005, o Seminário São Bonifácio da Diocese de Viana, o qual, atualmente, passa por sérias dificuldades financeiras para se manter funcionando.

Portanto, ao lhe prestar tão singela homenagem nesta noite, a Academia Vianense de Letras reconhece e louva publicamente o trabalho incansável deste religioso que dignifica a Igreja e a vocação que um dia abraçou. E como já dissemos em matéria publicada no Renascer Vianense, edição nº 19: parabéns, Dom Xavier! Viana se orgulha de tê-lo como pastor nestes últimos 11 anos e o Maranhão lhe agradece por tamanha abnegação nestas quase cinco décadas de serviços prestados ao povo de Deus!

 Obrigada.

Maria da Conceição Raposo