Academia Vianense de Letras

Embora até os anos 1970, o Bumba-meu-boi não gozasse de tanto prestígio como na atualidade, uma vianense dedicaria toda sua vida à confecção das indumentárias que davam beleza e colorido cintilante a essa festa popular.

Olívia Garcia Mendonça desde cedo se esmerou no bordado dos lombos dos bois que, anualmente, faziam a alegria do povo mais simples do interior do Estado. Recheadas de canutilhos e miçangas, imagens de São João menino, São Jorge, estrelas, meias-luas, pombinhas brancas, castelos, igrejas ou qualquer outro desejo do dono da promessa tomavam forma sob as mãos ágeis e habilidosas dessa artista vianense. 

A descoberta dos canutilhos 

Quando ainda não existiam os canutilhos e miçangas, os lombos dos bois eram decorados com purpurina, papel de seda e pedacinhos de espelhos. Por se tratar de uma brincadeira tipicamente noturna, que se desenrolava à luz das fogueiras, o brilho nas costas da figura central da festa era sempre um requisito de fundamental importância para a beleza do evento.

Ao descobrir a fabricação dos coloridos e pequeninos cilindros de vidro, através de revistas que chegavam a Viana, Olívia passou a mandar comprá-los no Rio de Janeiro, onde eram importados da então Tchecoslováquia.  Para intermediar a compra da preciosa mercadoria, ela contava com o auxílio de Úrsula, uma doméstica que morava no Rio em companhia da família de seu cunhado, Dr. Sálvio Mendonça. Tempos depois, através de um amigo judeu comerciante na praça carioca, a aquisição dos canutilhos passaria para a responsabilidade do empresário Armando Gaspar. 

A técnica dos bordados

No início, Olívia bordava a mão, consumindo muitas horas nesse trabalho tão delicado quanto demorado. A fim de ganhar tempo e efetuar um serviço de melhor qualidade, de forma que os canutilhos ficassem mais firmes no veludo, ela imaginou prendê-los na máquina de costura. O problema era que o veludo impossibilitava o rascunho dos desenhos na sua face direita. No bordado feito à mão, isso não chegava a atrapalhar, já que ela fazia os desenhos no avesso e enfiava a agulha por baixo para delinear seus contornos no outro lado do tecido. Na máquina de costura, no entanto, o método não funcionava. Pela própria espessura do veludo, os desenhos não se faziam visíveis na outra face, impossibilitando totalmente o trabalho na hora de prender as fileiras de canutilhos. Numa conversa casual com o cunhado, Nilton Aquino, surgiu a ideia para a solução do impasse. O pintor lhe sugeriu que alinhavasse as figuras desenhadas no avesso, a fim de orientar-se pelos pontos, no lado direito do veludo. Dessa maneira, poderia concluir o bordado na máquina de costura com segurança.

O atelier 

O domínio da técnica rápida e eficaz de bordar com a ajuda da máquina de costura fez a fama da exímia bordadeira vianense se espalhar pelos municípios vizinhos. Além dos lombos dos bois, Olívia confeccionava e bordava também as vestes do amo e dos vaqueiros participantes da brincadeira. Chapéus, peitorais, tangas e até os enfeites das botas eram confeccionados às centenas, transformando sua residência num atelier perene do Bumba-meu-boi. Em qualquer época do ano que se chegasse ali, tinha-se a impressão de que as festas juninas estavam próximas. Podia ser Natal, carnaval ou Páscoa. Nada roubava o clima que reinava absoluto naquela casa.

Para atender a grande demanda das encomendas dos pagadores de promessa não só de Viana, mas de outras cidades como Matinha, Monção, Penalva, São Vicente Férrer, Cajapió e todos os povoados e vilarejos da região, Olívia montou o que se chama hoje de uma microempresa. Sob seu comando, várias bordadeiras e aprendizes, que se revezavam em oito máquinas de costura, trabalhavam diariamente para dar conta das encomendas. Ela dava forma aos desenhos e as ajudantes se encarregavam de preenchê-los com os canutilhos e miçangas. Tudo sob sua rigorosa observação.

As encomendas eram feitas com um ano de antecedência. Para compor o estoque de matéria-prima, Olívia adquiria peças inteiras de veludos nas cores preferidas dos brincantes: preto, azul-marinho, vinho e vermelho. Os canutilhos e miçangas, comercializados em caixas de dois quilos, eram também comprados em grandes quantidades e em cores de várias tonalidades.

Olívia Mendonça chegava a confeccionar dezenas de lombos de bois por ano, cada qual com motivos diferentes. Verdadeiras obras de arte que se perderam no tempo e no espaço. O mais curioso é que ela não se preocupava em colocar nenhuma marca que pudesse, no futuro, facilitar a identificação de seus bordados. 

O desaparecimento da bordadeira

Nascida em 21 de fevereiro de 1905 e casada com um primo, Áureo Mendonça, Olívia era mãe de cinco filhos: Francisco de Assis (já falecido), Hildenê, Raimundo Antônio (Catu, também falecido), Ivone e Assunção de Maria.

Para tristeza dos amantes do Bumba-boi da Baixada, a bordadeira vianense faleceu aos 71 anos de idade, vítima de edema pulmonar, no dia 26 de junho de 1976 (em pleno período das festas juninas), quando se encontrava trabalhando em sua máquina de costura.

Por Luiz Alexandre Raposo