Academia Vianense de Letras

Muitas personalidades que marcaram épocas são esquecidas pelo decurso do tempo ou pela morte. Pessoas que realizaram algumas ações positivas em vida, muitas vezes deixam de ser lembradas por falta de um registro ou de uma simples publicação. Foi para suprir essa omissão em relação a  Trajano Rodrigues  que me dispus a traçar o perfil desse homem polêmico que deixou amigos e inimigos, fez admiradores e detratores, mas que reuniu qualidades inegáveis. Esta pesquisa foi iniciada em 1986 e só agora resolvo publicá-la. Naquela ocasião, recebi uma carta de padre Eider Silva sobre meu propósito, da qual destaco o seguinte trecho: “Para mim alguns exemplos deixados por Trajano honram sua terra e sua gente. Considero uma injustiça o fato de não ser lembrado nesta cidade o nome daquele seu filho. Compreende-se, porém. É que ele foi um defensor das causas de pobres, ´pequenos`, oprimidos. Os grandes e poderosos não o toleravam.”

Manoel Trajano Rodrigues destacou-se, em Viana, como um verdadeiro tribuno e defensor dos direitos dos mais fracos. Sua posição destemida como advogado era uma segurança para o povo humilde que o procurava. Há fatos notórios, alguns pitorescos, lembrados por seus contemporâneos que bem refletem sua carreira aguerrida de lutas em prol dos seus constituintes, inclusive no Tribunal do Júri.

A imagem que tenho da pessoa de Trajano é bem vaga: foi a primeira e a única vez que o vi, na varanda da minha casa, no dia em que deixou Viana. Entretanto, a história das  lutas e glórias de sua vida permanecem fortes em mim, pelas constantes referências dos meus conterrâneos e, particularmente, dos meus pais.

Da minha mãe, que morou na casa de Trajano, quando solteira, ouvi respeitosas lembranças do seu hospedeiro e amigo. Dela soube que quando ele estava com uma causa difícil ficava sentado em uma cadeira isolada no canto da casa, taciturno, alheio a tudo, mãos entrelaçadas, apostando no vai e vem dos dedos polegares. Dessa postura, saía para o estudo, depois para a máquina de escrever.

De meu pai, que era juiz suplente, ao tempo em que detinha quase total competência, soube que Trajano, ao requerer uma medida de urgência ou de uma grande importância, deslocava-se para a nossa Farmácia, onde meu pai trabalhava, e ali ficava por muito tempo, tentando convencê-lo, entre um freguês e outro, de que estava certo, por isto e por aquilo, acompanhando-o de um lado para o outro, em sua voz nasalada e gestos veementes.

Algumas das histórias contadas sobre Trajano dão conta de muitos inimigos que acumulou em decorrência de sua verve e de sua atuação como jornalista, político e advogado. Segundo me relatou Dr. Walter Coelho, certo dia, Dr. Lourival Costa, que exerceu a medicina em Viana por muitos anos e de quem herdei o nome, fez este desabafo para o monsenhor Arouche: “Estou saindo de Viana para não me tornar um criminoso, para não descarregar as balas do meu revólver em Trajano”.

Apesar de não ser formado, Trajano tinha tudo de que precisa um bom advogado: conhecimento, dedicação e coragem. Sua coragem chegava ao ponto de torná-lo altivo e destemido, muitas vezes fustigando promotores e juízes.

A linguagem do advogado Trajano era forte e incisiva, não poupando seus adversários com ironias contundentes e, muitas vezes, até o próprio magistrado, em suas razões recursais.

Nos processos, sua arma principal eram os recursos, nos quais lançava, com veemência e ironia, toda sua inconformação. Alguns dos seus recursos chegaram até ao Supremo, onde colheu vitórias, merecendo, inclusive, referências elogiosas do ministro Cândido de Oliveira, em carta que foi publicada por um matutino local, propositadamente, para calar um adversário com quem polemizava.

No Tribunal do Júri também sua presença foi notória, deixando na memória do povo alguns casos folclóricos.

Havia em Viana, um promotor que também era dentista nas horas vagas. Sempre que entrava em conflito com aquele, Trajano o recomendava que deixasse a promotoria para exercer apenas a função de dentista.

De propósito ou não, em um julgamento pelo júri, Trajano fê-lo funcionar como dentista. Para isso, apresentou uma inusitada tese que teria lido recentemente de que as pessoas com dentes cariados deveriam ter sua responsabilidade penal diminuída. Para conseguir esse benefício ao seu constituinte, solicitou que o promotor de Justiça se dignasse em examinar os dentes do acusado, ali presente. Deferido o pedido, aquele promotor deixou a tribuna para examinar os dentes do réu. Trajano sorriu satisfeito, pelo acolhimento de sua tese e por confirmar que o promotor era mesmo dentista.

O advogado Wady Sauáia contou-me, por carta, a seguinte história que merece ser reproduzida:

“Orestes Mourão, bom magistrado, - correto e culto, - era  juiz de Viana. Surge uma ação a respeito de um burro. Na contestação, o juiz interpretou, a seu modo, que Trajano o chamara de burro. Manda intimá-lo a esclarecer. E o advogado explica: que apenas o burro deveria ser, por ocasião da audiência, para perícia, amarrado ao mourão, à porta do Fórum. A ligação de burro e mourão não passava disso. E tanto, na explicação era isso, que, se não fora, teria escrito, por exemplo: O BURRO NA AUDIÊNCIA, E NÃO O BURRO NO MOURÃO...”

Manoel Trajano Rodrigues nasceu em Viana, aos trinta dias de novembro de 1892, sendo filho de Ulisses Rodrigues e Francisca Gonçalves Rodrigues. Casou-se em 13.03.1919, com Vitória Adelaide Mendonça Rodrigues.  Faleceu, aos 73 anos de idade, em 02 de julho de 1967, deixando duas filhas: Ruth dos Remédios Rodrigues Duailibe, casada com José Ribamar Pinheiro Duailibe e Clóris Rodrigues de Oliveira, casada com o Dr. Gilberto Castro de Oliveira.

Do casamento se sua filha Ruth dos Remédios Rodrigues Duailibe com José Ribamar Pinheiro Duailibe nasceram os seguintes filhos: Carlos Jorge Rodrigues Duailibe, Cléia Duailibe Lima, José Ribamar Duailibe Filho, Manoel Trajano Rodrigues Duailibe, José Jorge Rodrigues Duailibe e Jorge Francisco Duailibe Neto.

Do casamento de Clóris Rodrigues de Oliveira com o Dr. Gilberto Castro de Oliveira nasceu Renato Rodrigues de Oliveira.

As pessoas que conviviam com Trajano têm dele a lembrança de uma pessoa prestativa, sensível aos problemas alheios e disposto a ajudar, principalmente os desprotegidos. Entre amigos, era também chamado de Neco Trajano, ou Seu Neco.  Em família, era um pai exemplar.

O jornalista Trajano Rodrigues se destacou pela coragem com que enfrentou os problemas mais delicados, dando-lhe aquela publicidade que assustava os pusilânimes. Era uma linguagem que deixava desarmado seus adversários políticos.

Em Viana, dirigiu o jornal A CRUZADA, com o sub-título “Jornal de Ação Popular”, que serviu, por muitos anos , de veículo para suas ideias e denúncias e, ainda, arma para a defesa dos seus conterrâneos e até dos seus clientes.

Não foi Trajano um simples provisionado, mas um advogado combativo que assim se impôs ao reconhecimento de todos, pelo estudo, pela inteligência e desempenho. Tão competente era que um dos nossos eminentes advogados, o Dr. Wady Sauáia, orgulhava-se em chamá-lo de mestre e alardear que fora seu companheiro de escritório, com quem muito aprendera.

Para as novas gerações, preocupadas com a competição exagerada e pela obsessão em armazenar sucessivos cursos de pós-graduação, deixou Trajano Rodrigues comprovada a profundeza daquela singela lição do advogado Abrahão Lincoln, talvez o inspirador do ora biografado, quando recomendou: “Se você está resolutamente decidido a ser advogado, o seu desejo já é meia realidade [...]. O fato de viver numa grande cidade não tem a menor importância. Os livros e a capacidade para os compreender são a mesma em toda a parte. Tenha sempre presente que a sua própria resolução de vencer é mais importante do que tudo o mais”. (Thomas, P.Benjamim. Lincoln. Lisboa: Aster).

Entre amigos e inimigos, não se pode negar que Trajano sempre portou-se à altura que a tradição histórica do seu nome inspirava, destacando-se como jornalista e advogado aguerrido  que deixou para a posteridade a polêmica das suas ações e a admiração por suas bravuras.

Por Lourival Serejo