Academia Vianense de Letras

Celina Clara Silva Azevêdo, a quarta filha de uma família de cinco irmãs e um irmão, nasceu em Santaninha (naquele tempo pertencente a Viana), no dia 3 de outubro de 1908. Era filha de Raimundo João Alves de Azevêdo, criador/comerciante e da dona de casa Fátima Elisa Aragão Silva Azevêdo.

Ainda pequena veio com toda a família morar na sede do município, onde seu pai instalou-se como comerciante, facilitando para que todos os filhos ingressassem na vida escolar. Concluído o curso primário, todas as irmãs desejavam continuar os estudos em São Luís, principalmente Celina Clara, que era aluna exemplar e alcançava sempre as melhores notas, para orgulho de seu pai. Entretanto, por ser muito conservador, o Sr. Raimundo João não admitia que as filhas saíssem de casa para residir longe da família, impedindo dessa forma que se concretizasse o sonho das jovens estudantes de se tornarem professoras normalistas.

Mais tarde, decepcionado com a política partidária na qual havia se envolvido, seu genitor resolveu fechar o comércio e mudar-se novamente para a zona rural, a fim de comandar um engenho de açúcar em Santo Antonio, causando grande tristeza não somente para Celina, mas igualmente para suas três irmãs (a mais nova já havia falecido) que todos os finais de tarde choravam com saudades de Viana.

Pouco tempo depois, o Sr. Raimundo João Azevêdo veio a falecer e D. Fátima decidiu retornar com os filhos para a cidade. Mas, antes disso, o sonho de lecionar já se tornara realidade para Celina. Ao aceitar o convite para morar em São Rufo, na companhia de um tio de nome Antonio, iniciara ali sua missão de educadora. No pequeno povoado, a jovem alfabetizou adultos, crianças e adolescentes, partindo depois para Itans, onde ficaria conhecida como “nossa mestra”, por dar continuidade ao processo de alfabetização, através da implantação do sistema de sequência de séries para os alunos.

Educadora completa - Em 1942, mesmo depois de casar-se com Heider Cutrim Bezerra e de se tornar mãe de cinco filhos, continuou com sua nobre missão de ensinar, o que a levou a trabalhar inclusive em Matinha. Durante certo período, quando morava na Enseada Funda, num dia festivo, a mestra Celina apresentou ao padre Manoel Arouche o fruto de seu trabalho na localidade: 50 adolescentes alfabetizados e catequizados, prontos para fazer a 1ª comunhão. Na oportunidade, mereceu palavras de elogios do líder religioso que a classificou de “educadora completa”, ou seja, aquela que alfabetizava o cérebro e a alma.

Em 1949, preocupada com a continuação dos estudos dos próprios filhos, convenceu o marido da necessidade de retornarem a Viana, quando foi nomeada pelo então prefeito, Eziquiel Gomes, para lecionar no atual bairro de Nazaré (antigo Ciloura), distante de sua residência e de difícil acesso no período do inverno. Determinada e sem se deixar vencer pelo desânimo, para chegar à escola, a professora Celina não hesitava em pedir ajuda aos pescadores para atravessar de canoa a Rua Rio Branco, no Moquiço, a qual se transformava num verdadeiro rio quando chovia bastante.

Com a eleição do prefeito Luis de Almeida Couto, Celina Clara conseguiu ser transferida para a Escola Municipal, que funcionou inicialmente no mesmo prédio mais tarde ocupado pelo “Antônio Lopes”, mudando-se depois para a própria sede da Prefeitura.

Aposentada pelo INSS desde 1973, quando se mudou para São Luís, a fim de cuidar da saúde e morar com as filhas, a veterana professora e devota de Nossa Senhora da Conceição continuou a prática de sua fé, engajando-se no grupo das legionárias da Igreja Menino Jesus de Praga, na Cohama, bairro onde residiu até seus últimos dias.

Embora já não tão lúcida, em seus últimos anos de vida, Celina Clara rezava o terço todos os dias e não esquecia o hino de Viana. Nos devaneios próprios da idade avançada, ela rememorava o passado como se estivesse numa sala de aula, orientando e aconselhando os alunos a estudarem.

A professora Celina Clara Azevêdo Bezerra faleceu em São Luís, quase aos 102 anos de idade, no dia 23 de julho de 2010. A AVL, ao lhe prestar tão singela homenagem, almeja que esta dignificante história de vida possa servir de exemplo a todos os educadores vianenses da atualidade.

Por Luiz Alexandre Raposo

Cercada pelo carinho dos familiares e amigos, a ex-professora apagando as velhinhas de seu 100° aniversário