Academia Vianense de Letras

Ao decidir lembrar e divulgar o nome e os méritos de Antonio Hadade aos vianenses de hoje, fiquei imaginando a satisfação que meus pais teriam em saber dessa iniciativa, pois eram seus compadres e amigos. Nesta ligeira biografia encerra-se, de certa forma, uma homenagem à sua memória.

Doutor Hadade era frequentemente lembrado, lá em casa, ora contando-se uma passagem do seu período em Viana, como médico, ora lembrando-o como padrinho da minha irmã caçula.

Uma curiosidade levou-me a procurar dona Ruth, sua viúva, que reside em São Luís: saber se realmente ele era vianense. Tanto esclareceu-me ela essa dúvida como me mostrou sua certidão de nascimento. Ali está escrito que Antonio Hadade nasceu em Viana, no dia 21 de dezembro de 1925 e era filho de Felippe Hadade e Affife Brahs Hadade. Esclareceu-me, ainda, dona Ruth, que a verdadeira grafia do sobrenome era Haddad, mas o escrivão da época preferiu aportuguesar o libanês e, por comodidade, acabou ficando mesmo Hadade.

Outra curiosidade que busquei satisfazer foi a versão, com ares de lenda, de que o médico Antonio Hadade, ao chegar em Viana, recém-casado com uma distinta senhora da sociedade  baiana, não encontrou casa para morar. Foi preciso a intervenção do monsenhor Arouche para acomodar o casal no Palácio Episcopal, ainda em fase de acabamento, sem portas e janelas, até que fosse providenciada uma residência para eles. Toda essa história me foi confirmada por dona Ruth.

Abordados esses fatos, passo a enfrentar o homenageado de frente, com a inteireza da sua personalidade e dos seus méritos.

Seus dados pessoais dão conta de que Antonio Hadade era casado com Ruth Simões Hadade, com quem teve os seguintes filhos: Maria Ângela, Maria Teresa, Maria Cristina e Luís Antonio. Graduou-se em Medicina, pela Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia, em 1952. Era um médico permanentemente preocupado com seu aprimoramento, tanto que do seu currículo constata-se a participação em mais de cem cursos de atualização e extensão cultural. Dentre suas atividades exercidas, destacam-se: médico concursado do antigo INPS; Secretário Regional de Medicina Social do antigo INAMPS; Superintendente Regional substituto do INAMPS; membro diretor da Santa Casa de Misericórdia do Maranhão; professor fundador da Escola de Medicina do Maranhão (Faculdade de Ciências Médicas) e, posteriormente, professor de Clínica Cirúrgica do curso de Medicina, da Universidade Federal do Maranhão; professor de Clínica Médica na Faculdade de Enfermagem; professor da cadeira de Fisiologia da Faculdade de Farmácia; presidente do Rotary Clube Praia Grande; presidente do Sampaio Correia Futebol Clube; Secretário de Saúde do Estado do Maranhão; Secretário de Saúde e Assistência Social do município de São Luís; diretor do Hospital Presidente Dutra e membro da Associação Americana de Cirurgiões.

Como profissional voltado ao estudo, Antonio Hadade proferiu várias palestras e conferências sobre assuntos médicos e teve vários trabalhos científicos apresentados no Colégio Brasileiro de Cirurgiões, inclusive em simpósios médicos realizados na cidade de Buenos Aires. Deve-se a ele, também, a implantação da residência médica no Maranhão.

Como se percebe pelo resumido quadro do seu longo currículo, Antonio Hadade não foi só um médico adstrito ao seu consultório, a um centro cirúrgico ou à sua mesa de gabinete. Sua competência dilargou-se em favor da medicina em todo o Estado do Maranhão, contribuindo para sua modernização e aprimoramento.

O idealismo do biografado destacou-se, ainda, pela sua participação no ato de criação da Faculdade de Ciências Médicas do Maranhão, e ao continuar ali prestando serviço como professor, até mesmo depois que a referida faculdade foi absorvida pela Fundação Universidade do Maranhão e, posteriormente, pela Universidade Federal do Maranhão, na década de 60.

Em Viana, Antonio Hadade exerceu a medicina com abnegação, servindo à sua terra com a dedicação que sempre o caracterizou. Recém-formado e recém-casado, veio para Viana com sua família, onde passou, na década de 50, aproximadamente sete anos, servindo à sua terra natal. Estava assim atendendo um apelo de seu pai para prestar serviço em sua terra, depois de formado. Trabalhando no hospital municipal que hoje leva o nome de Dr. José Murad, Antônio Hadade destacou-se pela competência e responsabilidade, contando com o apoio de uma equipe de dedicados enfermeiros, como Santinha Nunes, Enedina Raposo e Helmar Bacelar. 

Outras características do biografado que não podem ser esquecidas, segundo depoimento de várias pessoas que o conheciam, eram sua amabilidade no trato com as pessoas, as amizades que promovia e suas risadas cativantes.

Antonio Hadade faleceu no dia 14 de abril de 1988, com 62 anos de idade.

O jornal da Academia Vianense de Letras presta, mais uma vez, uma contribuição à memória vianense, ao trazer ao conhecimento da atual geração a história de um médico ilustre que dignificou nossa terra. Antonio Hadade, pelos seus méritos e seu idealismo, inscreve-se realmente no rol dos vianenses que merecem nosso respeito e a perpetuação do seu nome.

Por Lourival Serejo

Dr. Antonio Hadade (ao centro) cercado por sua equipe de trabalho em Viana: (à esquerda) Senhor Penha, Santinha Neves e Helmar Bacelar; (à direita) Chico Travassos, Enedina Raposo e Salu Serra.

O médico e a mesma equipe de enfermeiros observam uma paciente recém-operada