Academia Vianense de Letras

A história do magistério vianense é rica em exemplos de homens e mulheres que se entregaram de corpo e alma à árdua e sublime missão de educar as novas gerações. Por falta de registro e preocupação com a preservação da memória local, lamentavelmente muitos desses nomes perderam-se na poeira do tempo. Assim, para que mais um desses exemplos não seja injustamente esquecido, tenta-se resgatar aqui um pouco da história de vida e luta profissional de um professor que muito trabalhou pela educação e cultura desta cidade.

Luís Carlos Pereira nasceu no dia 20 de setembro de 1930, no distrito Retiro, município de Viana, sendo o quinto dos seis filhos do casal Antonio dos Santos Pereira e Brígida de Castro Pereira, proprietários de um engenho de cana-de-açúcar naquela localidade.

Apesar de ter nascido e vivido toda a infância na zona rural, nos idos da década de 30 do século passado, desde muito cedo o menino demonstrou sua forte inclinação para os estudos. Percebendo o alto índice de analfabetismo entre a população de sua pequena comunidade, ainda muito jovem iniciou-se de forma rudimentar no magistério, ministrando aulas aos moradores do Retiro. Na pré-adolescência, para poder prosseguir nos estudos, foi encaminhado pelos pais para a sede de Viana, quando se tornou hóspede do Sr. João Cordeiro, conhecido comerciante local.

Aqui ingressou no Grupo Escolar Estevam Carvalho, mostrando-se um aluno aplicado perante os professores. No entanto, entre os colegas, logo ganharia fama de “briguento”, principalmente nas partidas de futebol, praticado à tardinha nos campos de tesos que circundam a cidade. 

Concluído o antigo primário e sempre em busca do saber, o jovem aceitou o auxílio do padre Manoel Arouche para ingressar no Seminário Santo Antônio, em São Luís. Ali também mostrou seus dotes intelectuais, mas seu temperamento irrequieto o fez desistir dos estudos cinco anos depois. No final de 1951, arrependido, desculpou-se com o padre Manoel e retornou ao seminário, no ano seguinte, para concluir finalmente o curso de Humanidades.

Por esse tempo, já de namoro firme com uma conterrânea, Luís Carlos optou em não ingressar no Seminário Maior da capital da Paraíba, itinerário obrigatório para aqueles que desejavam abraçar o sacerdócio. Assim, em maio de 1953, aos 22 anos, o ex-seminarista casou-se com a vianense Maria de Zazaré Pinto, com a qual teve cinco filhos: Luís Antonio, Luzimar, Ribamar, Luís Carlos Filho e Aparecida.

Depois de abraçar definitivamente o magistério e submeter-se ao curso de aperfeiçoamento pelo CADS, Luís Carlos Pereira foi nomeado como Inspetor da Educação do Estado, cargo exercido por alguns anos na cidade de Morros. Em 1965, conseguiu transferir-se para Viana, onde passou a lecionar no antigo Ginásio Antônio Lopes e logo depois na então recém-fundada Escola Normal N. S. da Conceição. Também criou um curso de preparação ao exame de admissão, o qual funcionava no prédio do Estevam Carvalho, no período noturno.

Amante das letras, Luís Carlos Pereira era apaixonado pela boa literatura e um ferrenho defensor da língua portuguesa, disciplinas com as quais se notabilizaria no magistério de sua cidade natal. Como admirador incondicional de grandes expoentes da literatura brasileira, a exemplo do romancista Machado de Assis e do poeta Olavo Bilac, procurava despertar a sensibilidade dos alunos pela poesia e o entusiasmo pela leitura dos clássicos nacionais.

Além das aulas teóricas, o professor Luís Carlos também incentivava os alunos na prática da redação, fosse em sala de aula ou através da criação de pequenos periódicos estudantis. “A Voz de Viana” foi um desses jornais mimiografados que ele ajudou a fundar e do qual era o principal redator. Na Escola Normal igualmente tornou-se o redator-chefe do “Estrela Radiante”,  veículo de comunicação criado para irradiar a cultura e as ideias dos futuros professores, conforme editorial estampado em sua primeira edição.

Com a chegada do Ginásio Bandeirante à cidade, tornar-se-ia igualmente professor deste novo estabelecimento de ensino. Foi por essa época que ele fundou o Ginásio Comercial de Viana (que funcionava à noite, no mesmo prédio do Bandeirante), a fim de possibilitar a continuação dos estudos àqueles que trabalhavam durante o dia, como João Barros, Terezinha Cutrim, Juarez Mendonça Cutrim (Vavá), Nonato Lopes e a já falecida ex-primeira dama do município, Vanice Barros. Entretanto, por dificuldades para sua regularização junto ao MEC, a escola acabou sendo incorporada pelo Ginásio Bandeirante, aproximadamente dois anos depois. Até hoje alguns de seus ex-alunos ainda lembram o hino da escola, composto por ele, cuja refrão dizia: Bandeirante, Bandeirante/Desfraldai vosso brasão/Estandarte de luz e de esperança/Para a grandeza do Maranhão...

O professor Luís Carlos estudava bastante, tinha veia poética e falava um português correto e elegante. Em conversas informais, de forma delicada, costumava corrigir os deslizes dos seus interlocutores. Demonstrava ainda acentuado interesse pelo folclore vianense, promovendo brincadeiras de bumba-meu-boi com seus alunos, no período junino.

De estatura alta para os padrões da época, Luís Carlos Pereira não gozava, entretanto, de boa saúde. Em 1978, já bastante enfraquecido por um desgaste físico e emocional, acumulado nos últimos anos, o professor foi internado na Clínica La Ravardiere, em São Luís, aonde faleceu de forma trágica, no dia 19 de outubro daquele ano, aos 48 anos de idade.

Atualmente, existe uma pequena escola, no bairro de Fátima, que leva o nome do saudoso professor.

Por José Ribamar d’Oliveira Costa Júnior