Academia Vianense de Letras

Guardo na memória uma cena comovente que teve o padre Cordeiro como protagonista. Eu estava na casa dos seus pais, em Viana, no velório da sua mãe, dona Vitória, quando ele chegou num Jipe, vindo de Penalva. Todos ficaram parados naquele solene momento do encontro do filho com a mãe falecida. Ele entrou apressado, curvou-se sobre o caixão e sentou-se ao lado, com a cabeça baixa, apoiada por uma mão, num profundo silêncio que ninguém ousou interromper.

Foi essa a primeira lembrança que me veio à mente, ao saber da morte de padre Cordeiro, dez dias depois da sua ocorrência. Lembrei-me também de padre Eider e do, então, padre Heitor, que formavam o grupo dos nossos três mosqueteiros da Igreja que muito trabalharam pela Baixada Maranhense, em prol da educação e da evangelização daquele povo.

Padre Wilson Nunes Cordeiro, falecido no dia 14 de junho de 2012, era filho de Álvaro Lopes Cordeiro e Vitória Nunes Cordeiro. Tinha como irmãos Teresa Cordeiro Furtado, Filomena Cordeiro Silva e Josefina Cordeiro Cutrim, todas pessoas conhecidas em Viana, com destaque para a professora Josefina que, com seu dinamismo particular, dirigiu o ginásio Professor Antônio Lopes por muitos anos e de quem mantenho saudosa lembrança como minha professora de Português.

Ao falecer, padre Cordeiro tinha 90 anos de idade, pois havia nascido em 28 de abril de 1922. Mesmo tendo ocorrido seu nascimento em Matinha, era considerado vianense para todos os efeitos, uma vez que, naquela data, o referido município ainda não se havia emancipado de Viana. Trata-se da mesma situação de Astolfo Serra, também padre.

Há muitos anos, fiz uma longa entrevista com padre Cordeiro para ouvir o relato de sua vida sacerdotal. Naquela oportunidade, devidamente gravada, ele me falou sobre as dificuldades da sua família, do trabalho do seu pai e da ajuda e estímulo que recebeu do monsenhor Arouche para tornar-se sacerdote, o que se tornou realidade em 1952, ano da sua ordenação.

A vida sacerdotal de padre Cordeiro centralizou-se na cidade de Penalva, apesar de ter passado por outras paróquias, inclusive em Teresina, antes de ali se fixar. Por algum tempo, teve oportunidade de trabalhar em Viana, como vigário cooperador, ao lado do monsenhor Arouche, a quem muito admirava.

Desde 19 de março de 1960, quando chegou em Penalva para assumir a paróquia, ele residiu naquela cidade. Essa dedicação àquele povo foi comprovada pela escolha que fez de ser sepultado ali, precisamente na igreja que ele construiu e ao lado do seu fiel rebanho, que conduziu como pastor por cinco décadas.

Tive mais contato com padre Cordeiro quando dom Hélio Campos era bispo da Diocese de Viana. Juntamente com Eider, formavam uma tríade que estava sempre junta, entusiasmados pelos projetos de libertação do povo da Baixada.  Acompanhei-os em uma viagem à Fortaleza, tendo oportunidade de conhecer melhor o lado descontraído daquele padre, que até me serviu de orientador naquela capital, até então desconhecida para mim.

Ao contrário da imagem dócil e conselheira revelada pela maioria dos sacerdotes, padre Cordeiro era um destemido homem de batina, impondo respeito e ordem aonde chegava. Sempre disposto, era comum vê-lo dirigindo um Jipe, veículo apropriado para sua personalidade ativa e desembaraçada. 

O compromisso com a verdade e a autenticidade fazia do padre Cordeiro um líder carismático, despertando nas pessoas que conviviam com seu sacerdócio a fé e a ética do cristão comprometido com o próximo.

Como professor, Cordeiro dedicou-se por muito tempo ao ensino no Colégio do Padre, em benefício da educação de uma geração de vianenses.

No rol de amigos do padre Cordeiro, destacava-se dom José de Medeiros Delgado, arcebispo de São Luís, o qual, em suas memórias, relembra o amigo, em passagens como esta, escrita por ocasião dos seus 25 anos de ordenação, a qual vale a pena transcrever:

A você, padre Cordeiro, a quem ordenei sacerdote em 1952, a quem depois de outras tarefas ministeriais em que se conduziu com tanto zelo, também nomeei vigário de Penalva, em 1960, com a minha estima e admiração estou também prestando um preito de justiça, não lhe vim fazer um favor.

Fomos companheiros de visitas pastorais, estivemos em perigo de morrer numa tempestade no Lago de Penalva, no Maranhão do meu tempo você foi não apenas um colaborador, mas um amigo dedicado, digno de uma estima que hei de cultivar até a eternidade. (Memórias da graça divina. São Paulo: Loyola, p. 94).

Ao lado de Eider, padre Cordeiro merece ser lembrado como um pároco que veio, não para pregar o conformismo piedoso, mas para espalhar o sal na terra, aquele sal de que nos fala Jesus pelo Evangelho de São Mateus: Vós sois o sal da terra (Mt. 5, 13).

Por Lourival Serejo