Academia Vianense de Letras

Como toda cidade interiorana, Viana tinha suas lendas e crendices populares que enriqueceram o imaginário coletivo local ao longo dos últimos dois séculos e meio. Entre tantos relatos, passados de geração a geração, casos envolvendo assombrações noturnas eram os mais frequentes, talvez motivados pelo prolongado período no qual a cidade viveu mergulhada na escuridão das noites ainda sem iluminação elétrica.

Era muito conhecida, por exemplo, a história da procissão dos mortos que saía do cemitério em direção às igrejas, altas horas da noite.  E sempre havia o testemunho de alguém que jurava ter visto passar a tal procissão dos finados, iluminada por centenas de velas. Falavam ainda do caso de uma inadvertida senhora que ingenuamente abrira a janela para ver a procissão, quando então recebera a incumbência de guardar uma vela, a pedido de um dos passantes.

 Na manhã seguinte, a mulher sentiu arrepios ao encontrar um lúgubre pedaço de osso humano sobre o móvel da sala onde havia colocado a vela.

Outras crendices davam conta das figuras horripilantes da Manguda e da Caipora que vagavam pelas ruas e congelavam de medo as pessoas que cruzassem seus caminhos. Ou ainda o barulho assombroso da carruagem da Ana Jansem, que muitos diziam ouvir, passando apressada sobre as pedras das ruas para quebrar o silêncio das noites de sextas-feiras.

O mito do vira porco – De todas, porém, a lenda urbana do homem que virava porco era a  que mais instigava a imaginação vianense até a segunda metade do século XX. Nada de vampiro ou lobisomem, mas sim um porco preto, enorme e assustador, à espreita daqueles que se aventuravam vagar sozinhos pela cidade depois da meia-noite.

Por décadas a fio, geração após geração, os tipos esquisitos ou solitários da cidade eram sempre apontados como “viradores de porcos.” Entre tantos suspeitos, destacaram-se em épocas distintas: Pereira Capão, um senhor que residia na casa cor de rosa; Marcos, carroceiro negro que morava na Rua João de Parma; e Zé de Dadá que morava com as duas irmãs na Coronel Campelo. O mais famoso, entretanto, foi o negro estivador Raimundo João Escobar, que morava sozinho numa choupana de palha lá pelas bandas do antigo Ciroula.

O fenômeno sobrenatural realizava-se, segundo diziam, à meia-noite das sextas-feiras. Após a “transformação”, aproveitando-se da escuridão noturna, o homem-porco enfurecido atacava qualquer transeunte incauto que encontrasse pelo caminho. E não foram poucas as vítimas que escaparam desses ataques para relatar depois a fantástica experiência. O cidadão Benedito Gonçalves (avô do ex- prefeito Rilva Luís) foi um deles. Contava ele que certa noite, ao voltar para casa, depois de um jogo de cartas na residência do comerciante Lino Lopes, sob a tênue claridade da lua vislumbrou um porco preto, parado, no famoso Canto de Seu Gêgê. Desconfiado e sem tirar os olhos do animal,  continuou caminhando, pois precisava dobrar a esquina para chegar em casa. Foi nesse momento que o porco investiu contra ele que não teve outra alternativa senão a de correr até alcançar o portão de sua residência, livrando-se assim do ataque do estranho animal. 

Cultura nacional – Pesquisas realizadas dão conta de que a lenda do homem porco remonta ao período da colonização. Trazida pelos portugueses e recebendo aqui o reforço dos negros escravos (visto que tal superstição também existe no continente africano), a crença inseriu-se fortemente na cultura popular de algumas regiões brasileiras.

No interior do Pará, por exemplo, nas cidades de Breves, Bagre, Melgaço, Curralinho e São Sebastião da Boa Vista é forte a crença nos homens que viram porco. Em São Paulo, algumas cidades como Adrelândia e Taubaté igualmente acalentam o mesmo mito. Até uma fotografia do bicho foi publicada pelo Correio Paulistano de 28/05/1950, na sua página “Correio Folclórico”. Segundo o jornal, a foto foi feita durante uma aparição do horrendo animal no cemitério da cidade paulista de Botucatu, em 1947. O tal “lobisomem” da foto tem cabeça de porco, a parte traseira mais alta que a dianteira e destaca-se entre as cruzes dos túmulos.

Em outras localidades do interior do país acredita-se que, além de lobo ou porco, a mítica metamorfose pode fazer o indivíduo adquirir também as formas de cachorro, bezerro, burro ou bode. O ponto em comum é que todos são de cor escura e normalmente possuidores de grandes garras para atacar e ferir as pessoas.

Voltando a Viana, poderia ser esta a explicação para a enigmática história do cidadão Raimundo Pimenta, falecido em 1925, vítima do ataque de um bode preto, quando retornava ao lar tarde da noite. O caso foi registrado “com as devidas reservas” por Travassos Furtado em seu livro de memórias Minha Vida, Minha Luta, sob o título “O bode do Pimenta”. Detalhe: o fato aconteceu na mesma esquina do Seu Gêgê (cruzamento da Coronel Campelo com a atual D. Hamleto de Angelis), onde anos mais tarde, em situação semelhante, Benedito Gonçalves sofreria o ataque do porco. 

Quem herda a maldição – São vários os fatores determinantes que acarretam a maldição para a pessoa se transformar em porco, cachorro, bode etc.  Entre tantos fatores catalogados pelos institutos folclóricos, destacam-se os seguintes: ser o primeiro ou o último de uma série de sete filhos; o sétimo filho de um casal que só tinha fêmeas; filho de incesto, no qual se incluem as comadres; homem cheio de maldade que nunca fez o bem; permanecer durante dez anos sem confissão ou comunhão ou sem molhar os dedos em água-benta;  ter sido amaldiçoado por pais ou padrinhos; nascer no dia 12/12 às 24 h.; ou ainda por vontade divina como castigo ou penitência.

Para anular a maldição é necessário ser batizado pelo irmão mais velho ou pelo do meio, e receber, na pia batismal, o nome de Bento ou Custódio.      

Rituais da metamorfose – Em primeiro lugar, a pessoa procura uma encruzilhada, galinheiro, chiqueiro  ou se coloca debaixo de uma goiabeira. Ali, depois de despir-se, deve dar sete nós na camisa e urinar em cima, esconjurar pai, mãe, padrinho, madrinha, o nome de Deus e de Nossa Senhora;  ou então colocar a camisa sobre cascas de mariscos do mar e sobre ela rebolar; também pode dar cambalhotas, recitando palavras mágicas. Tudo isso deve ser feito sob os raios da lua.

A ocasião propícia à metamorfose, em algumas regiões, pode ser qualquer dia da semana, exceto sábados e domingos. Outras localidades possuem datas mais específicas como na noite de quinta para sexta-feira santa ou durante toda a Quaresma.  Algumas outras indicam o dia 13 de qualquer mês. A maioria, entretanto, aponta as sextas-feiras, em especial a primeira de cada mês, mas que seja de lua cheia ou quarto-minguante.

Dizem ainda que o bicho se alimenta de fetos, crianças pagãs, cadáveres, carniça e excrementos de outros animais. Para ser ferido de morte, é preciso acertá-lo no dedo mindinho do pé com bala benta ou lambuzada de cera de vela de altar. 

Mito esquecido - Na Viana atual quase não se ouve mais falar em histórias de homens que viram porcos. Perderam-se no tempo as noites escuras e misteriosas que estimulavam a criação de mitos. A luz elétrica e principalmente o movimento noturno de carros e motos, hoje, devem afugentar qualquer animal mal-intencionado das ruas.

Pode ser também que com o alto preço da carne, os porcos e bodes pretos da atualidade vivam escondidos com medo de serem pegos e virarem churrasco no final de semana.

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 31)