Academia Vianense de Letras

Década de 1940: o bloco feminino "Conte comigo" ao lado da "Fuzarca" masculina. De pé (da esquerda p/ a direita): Belinha, Aliete Campelo Silva, Iaiá e Aída Pereira, Gracinha Muniz, Enide Oliveira, Maria do Socorro Aragão, Celeste Carvalho, Zizi Gomes e Neide Muniz; ainda de pé, as meninas: Maria Tereza Campelo Silva, Ana Maria Gomes e Lizete; sentadas na calçada: Rosa Amélia Farias, Francisca Muniz, Maria do Socorro Campelo Silva e Manuelita; ala masculina: José Antonio Pereira, os irmãos José e Daniel Ramos, João Furtado da Silva, Costinha, José Campelo Silva, Joaquim Gomes e outros.


Período de 1934 a 1944 

Naqueles tempos, com alguma antecedência, os principais comerciantes vianenses procuravam uma casa de cômodos amplos, tipo morada inteira, para alugar durante o período do carnaval. Conseguido o imóvel, depois de providenciada sua limpeza e, às vezes, até uma nova pintura, o prédio era decorado com motivos carnavalescos, a fim de que os quatro dias do reinado de Momo pudessem ser vivenciados com toda a alegria que as festas exigiam.

Durante o carnaval, a cidade de Viana ficava bastante movimentada, pois centenas de pessoas se deslocavam de muitos povoados do município, principalmente de Matinha e Barro Vermelho (atual Cajari) ou mesmo de outras cidades vizinhas em busca de melhor diversão.

Vários anos, na falta de uma casa apropriada para alugar, os bailes carnavalescos eram realizados na sede da Prefeitura Municipal. Por ser amplo e muito bem localizado, era este o local preferido pela sociedade vianense da época para os festejos de Momo.

Até o final da década de 30, ainda não haviam surgido os blocos organizados. Cada um se fantasiava a seu modo e de acordo com suas posses para brincar o carnaval. Os mais abastados variavam de fantasia, enquanto os mais pobres se divertiam com a mesma, geralmente fofões, e quase sempre mascarados. O importante mesmo era a alegria que contagiava toda a população.

Os bailes, abrilhantados pelas excelentes orquestras de João Araújo e Temístocles Lima, eram prestigiados pela nata da sociedade local. As pessoas se trajavam decentemente e primavam pela boa educação. Apesar do uso de bebidas alcoólicas pela ala masculina, dificilmente ocorria alguma briga ou confusão que pudesse paralisar as festas.

Convém ressaltar, porém, a forte segregação racial outrora existente no seio da coletividade vianense. Assim, para uma ainda diminuta população, eram realizados bailes distintos e especificamente destinados a brancos, caboclinhos e mulatinhos (negros). Pequenas orquestras para isso não faltavam, já que existiam músicos de sobra na cidade. Havia também o baile das prostitutas, popularmente conhecido como “baile das inocentes”.

Lembro-me que, certa vez, encontravam-se em Viana o dono da lancha “Afife”, Dr. Sauáia e seu colega, Dr. José Oliveira, ambos advogados militantes na capital. Os dois se dirigiram ao prédio da Prefeitura com o intuito de participarem do baile que lá acontecia, mas os promotores da festa só permitiram a entrada do primeiro, barrando o segundo por ser mulato. O Dr. Sauáia, porém, não permitiu que o colega passasse pelo vexame sozinho, retornando os dois para a casa onde estavam hospedados.

O tempo passou e muita coisa mudou não somente em Viana como em toda a sociedade brasileira. Preconceitos sem sentido foram abolidos, felizmente. Pena que também tenham sido abolidas muitas tradições bonitas do carnaval vianense, como os famosos “assaltos”, as batalhas de confetes e serpentinas, os lança-perfumes e até mesmo a bênção das cinzas, na quarta-feira (padre Manoel Arouche exigia o comparecimento, à igreja, de todos os seus paroquianos).

Como testemunha desse período, posso afirmar que aqueles carnavais possuíam um glamour e um colorido especiais que me proporcionaram momentos felizes e inesquecíveis na minha juventude. Dancei e brinquei em festas memoráveis, as quais se transformariam em belas recordações daqueles tempos saudosos.

Nunca esqueci, por exemplo, de uma marcha muito cantada pelos foliões do carnaval de 1938, que se iniciava assim:

Carnaval de 38 / Vai ser um colosso / P’ra desabafar... /  Já estamos prontos, / P’ra brincar e pular / Até o sol raiar, olé, olá...


Período de 1955 a 1965 

O carnaval, em Viana, sempre foi muito animado e possuía características próprias que lhe conferiam destaque, entre os demais realizados pelas cidades do interior maranhense.

Naqueles anos, o mês de dezembro era saudado com muita alegria com a chegada do Natal e, logo após, o período pré-carnavalesco, animado por um formidável elenco de marchinhas e sambas que, tocados exaustivamente pelas rádios, permitiam às pessoas a memorização das letras e melodias daquelas que mais se adequavam ao gosto popular. Colaboravam também para a divulgação de tais músicas as Associações Brasileiras de Compositores e de entidades afins que publicavam as partituras e letras nos chamados “álbuns", os quais eram distribuídos para os sindicatos dos músicos e também colocados à venda nas lojas de discos ou de instrumentos musicais da capital.

Dentre os compositores da época destacavam-se Lamartine Babo, Mário Lago, Carvalhinho, Herivelto Martins, Paulo Gracindo, Klecius Caldas e Armando Cavalcanti. Entre os cantores eram famosos os nomes de Jamelão, Francisco Carlos, Zé Keti, Emilinha Borba, Linda e Dircinha Batista, Dalva de Oliveira, Izaurinha Garcia, Iraci de Almeida, Marlene, Jakson do Pandeiro, Ângela Maria e Carmen Costa.

O carnaval vianense de rua, nesse período, já contava com a participação de blocos organizados, representando os bairros mais populosos da cidade. Cada bloco tinha um modelo único de fantasia (adaptado ao modelo masculino e feminino, naturalmente) e normalmente confeccionada de seda. A bateria ficava a cargo de todos. Às vezes, os blocos levavam nomes de famosas escolas de samba do Rio de Janeiro, como Turma de Mangueira ou Unidos do Salgueiro, por exemplo. O encontro desses blocos acontecia na terça-feira de carnaval e tinha por palco a Praça 8 de Julho. O encontro era literal mesmo: um bloco vinha ao encontro do outro numa daquelas ruas estreitas que margeiam a pequena praça. Ganhava aquele que não perdesse o ritmo de sua bateria. E assim, por eliminação, disputavam o primeiro lugar os dois últimos finalistas.

Já o chamado carnaval de clube primava mais pelo requinte e organização. As casas escolhidas para sediar os bailes eram enfeitadas com máscaras, bandeirolas e outros adornos carnavalescos. O clube mais popular da cidade tinha por sede o atual prédio do Centro de Ensino Antônio Lopes e denominava-se “Gruta de Satã” (quando menino, eu ficava assustado com aquele nome e a figura do diabo, pintada em cores berrantes em fundo de papelão, que guarnecia a entrada do local). Ali, nos quatro dias de carnaval, ao som de marchinhas famosas como “Garota, você é uma gostosura/ Foi proibida pela censura...” aglomerava-se e divertia-se a elite da sociedade vianense. No domingo, só havia vesperal, que começava as 15 e terminava às 22 horas (quando as crianças podiam participar até às 20 horas).

Como nas décadas de 1950/1960, em Viana, o panorama do preconceito racial continuasse acirrado, além da “Gruta de Satã” haviam outros clubes improvisados, onde se realizavam os bailes dos caboclinhos, dos mulatinhos e das prostitutas.

Tradicionalmente, nos três fins de semana que antecediam os quatro dias da folia momesca, algumas casas mais espaçosas da cidade eram invadidas por foliões, comandados por um grupo de pessoas que gozavam de estreita amizade com o proprietário ou chefe daquela família. Geralmente essas casas eram previamente escolhidas para o “assalto,” nome original dado a essa brincadeira característica daqueles carnavais.

Nos tempos atuais, a televisão nos mostra e nos impõe um outro tipo de carnaval diferente daquele do passado. O carnaval moderno, copiado da Bahia e realizado somente nas praças e ruas das cidades, com o seu axé e seus trios elétricos, tomou conta de quase todo o território brasileiro.

Lamento pelas novas gerações que não tiveram o prazer de usufruir um autêntico baile de carnaval. O salão apinhado de alegres foliões, as fantasias de bom gosto, o brilho das lantejoulas e paetês, as batalhas de confetes e serpentinas, o odor forte dos lança-perfumes, e – logicamente – os namoros e paixões despertados naquele clima davam uma magia especial a essas  quatro noites tão ansiosamente aguardados, pela população, durante o ano inteiro.

Por tudo isso, vale a pena relembrar os antigos carnavais.

Por Aristides Simas Coelho de Sousa e Carlos Nina Everton Cutrim (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 15)