Academia Vianense de Letras

 

 Seleção campeã (1966) - De pé: Macial (goleiro reserva), o presidente da Liga Vianense Raimundo Nonato Mendonça (Papa-banha), os irmãos Cabeça e Picirica (goleiro titular), os também irmãos Coquinho e Zé Melo, Louro, o técnico Jurandir, o médico Dr. Osmir, Zé Viana, Nilson e um desconhecido. Agachados: o massagista Nego Luís, Pedro de Constantino, Bacabal, Marreco, Darío, Chucho, Lanchão, Walmir, Fefeu, Carmelito e Vavá.


Em janeiro de 1967, os jornais de São Luís exaltavam o feito dos jovens jogadores vianenses no 12º Campeonato Intermunicipal de Futebol. O Imparcial em sua edição do dia 10/01/67 estampava, à página 5, a grande manchete “Viana levantou galhardamente o título de campeão do Intermunicipal”, enquanto o extinto Jornal do Dia proclamava “Seleção Vianense sagrou-se Campeã do XII Intermunicipal”.

O Jornal Pequeno, entretanto, foi o primeiro a dar o resultado do jogo de decisão do título, realizado na tarde do domingo, dia 8/1/67. Logo no dia seguinte (segunda-feira), exibindo uma fotografia do time na primeira página, o “órgão das multidões” dizia: Ontem à tarde, no Estádio Santa Izabel, sob o delírio de uma grande assistência, a seleção de Viana sagrou-se campeã do XII Torneio Intermunicipal de Futebol, ao vencer o scratch de Pinheiro pelo escore de 2x0, resultado que diz fielmente o que foi o desenrolar do cotejo. Os vianenses jogaram melhor e fizeram jus à vitória alcançada.

A conquista do tão almejado título era o resultado da dedicação e do esforço não apenas dos valorosos atletas que compunham aquela seleção, mas de todos aqueles que sempre acreditaram no talento futebolístico dos vianenses. Por trás dessa significativa vitória existia uma longa história que remontava às primeiras décadas do século XX, quando as primeiras delegações da cidade ousaram romper as fronteiras da vizinhança para mostrar seu futebol na capital maranhense. Era esse, portanto, o coroamento de toda uma árdua trajetória, na qual gerações e mais gerações de meninos e adolescentes se sucederiam nas peladas de beira de campo, passando pelos modestos clubes locais, até a honrosa escalação para defender as cores da cidade. 

O vice-campeonato – Em 1965, quando o Brasil ostentava o título de bicampeão das duas últimas Copas do Mundo (Suécia, 1958 e Chile, 1962), o futebol gozava, mais do que nunca, de enorme prestígio em todo o território nacional. Em Viana, a coisa não seria diferente. Assim, movidos pela paixão ao esporte que já se consagrara como o preferido dos brasileiros, os dirigentes do futebol local decidiram que era chegada a hora da cidade deixar sua marca no campeonato organizado pela Federação Maranhense de Desportos (FMD), que reunia as delegações das principais cidades do interior do Estado.

Bem antes, em 1956, Viana já havia participado dessa competição, sendo eliminada pela seleção de Guimarães. Nove anos se passaram e agora os aficionados do futebol tinham plena convicção de que a história seria bem diferente.

Para a disputa do 11° Torneio Intermunicipal de Futebol, sob orientação técnica de Jurandir, a seleção titular vianense contou com os seguintes jogadores: o goleiro Edson (Picirica), os irmãos Coquinho e Zé Melo, Lupercínio, Jaime, Nilson, Bacabal, Marreco, Vavá, Chucho e Lanchão.

Depois de uma bela sequência de vitórias sobre os adversários e de angariar a simpatia da mídia esportiva da capital (na época representada principalmente pelos radialistas e repórteres que cobriam os eventos esportivos para a chamada imprensa escrita), a seleção vianense classificou-se para a disputa final do tão almejado título. Pela outra chave, a seleção de Pinheiro havia conquistado o mesmo direito, o que deixava a decisão do certame sob as chuteiras das seleções de duas cidades da Baixada Maranhense.

A sorte, porém, não sorriu para Viana naquele 6 de janeiro de 1966. Pelo placar de 2x1, o selecionado de Pinheiro ficou com o título de campeão do 11° Torneio Intermunicipal de Futebol. Embora a derrota tenha frustrado as aspirações de todos que acompanhavam com entusiasmo o desempenho dos nossos atletas, o vice-campeonato não deixava de ser uma grande vitória para uma equipe que participava pela segunda vez de um torneio estadual. 

O naufrágio da lancha Marília – Aguardados em Viana para as merecidas homenagens, os jogadores quase se tornaram vítimas de uma tragédia com o naufrágio da embarcação que os conduzia de volta.

Encalhada num banco de areia na entrada do rio Pindaré, próximo ao lugarejo São José, a lancha de apenas um toldo não resistiu à força da enchente da maré e declinou totalmente para o lado esquerdo. Em questão de minutos, a água invadiu a embarcação, obrigando todos os passageiros e tripulantes a abandoná-la às pressas. Aqueles que sabiam nadar rumaram em direção às margens do rio, enquanto outros se agarraram a tonéis, latas de querosene e demais objetos flutuantes até a chegada do socorro prestado pela lancha Vera Cruz que, certamente por providência divina, passava pelas imediações.

Não houve vítimas fatais, felizmente. Apenas um grande susto e a perda das bagagens, fora o prejuízo causado aos comerciantes vianenses pelas diversas mercadorias que a “Marília de Fátima” transportava. O troféu do vice-campeonato da seleção também foi parar no fundo do rio Pindaré. 

Campeões de 1966 – Motivada pelo quase total sucesso de sua participação no Intermunicipal de 1965, durante todo o ano de 1966, principalmente nos últimos meses, a seleção entregou-se com afinco aos treinos com o firme propósito de se tornar a campeã daquele ano.

Basicamente o time era o mesmo, acrescido de alguns poucos reforços. Toda a equipe técnica estava confiante, como também a população vianense que se preparava para acompanhar os jogos pelo rádio, através das transmissões da Difusora e Educadora, as duas emissoras radiofônicas de maior audiência no interior maranhense.

Ainda sob o comando técnico de Jurandir, o time não teve dificuldades para vencer os primeiros obstáculos. Empurrados pela torcida da colônia vianense radicada em São Luís que comparecia fielmente ao Estádio Santa Izabel, onde se realizavam os jogos, a equipe despachou a seleção de Caxias pelo placar de 2x0, com gols marcados por Dario e  Vavá.

Uma pedra no caminho, porém, surgiu na partida da semifinal, quando o selecionado vianense enfrentou a forte equipe de Chapadinha. Com um empate de 3x3 no tempo regulamentar, que persistiu durante a prorrogação, o vencedor foi decido no “cara ou coroa”, critério ainda utilizado oficialmente pelo futebol, à época, em lugar da disputa de pênaltis.

Em Viana, centenas de ouvidos colados aos rádios, ouviram o capitão Vavá fazer a opção por “cara”, antes que o locutor narrasse a cena da moeda jogada ao ar pelo juiz da partida. Foram pouquíssimos segundos de expectativa, mas que fizeram apertar o coração de toda uma cidade, até ouvir-se a voz do radialista anunciar: – Deu “cara”!

Nas rodas formadas em volta do rádio, alegria e alívio misturaram-se nos abraços de comemorações, enquanto foguetes pipocavam em vários pontos da cidade. Desta vez, sem dúvida, a sorte sorria para Viana.

Classificado para a final, o time vianense precisou esperar a decisão entre São José de Ribamar e Pinheiro para conhecer seu último adversário. Como todos a essas alturas já previam, Pinheiro venceu, garantindo assim o direito de disputar o bicampeonato. O confronto do ano anterior iria se repetir: Viana e Pinheiro decidiriam, mais uma vez, o Campeonato Intermunicipal de Futebol do Maranhão.

O troféu é nosso – Na tarde do domingo (8/1/67), Viana inteira parou para ouvir o jogo. Todos acreditavam na revanche e bolos de apostas a dinheiro especulavam sobre o placar, naturalmente a favor da seleção da terra. Os estoques de foguetes também já haviam sido providenciados. Restava, portanto, torcer e pedir a proteção da padroeira, N. S. da Conceição.

O jogo se iniciou nervoso, conforme relatava o locutor. O tempo passava e nada do grito de gol, a favor dos vianenses, tão ansiosamente esperado. Veio o intervalo do jogo sem que nenhuma das duas equipes conseguisse furar o bloqueio adversário.

No o 2º tempo, entretanto, o time entrou em campo mais decidido e com apenas trinta segundos de jogo, uma cabeçada certeira de Chucho meteu a bola no fundo da rede pinheirense, para euforia da torcida vianense. Mesmo assim, faltava ainda muito tempo de jogo e nada estava decidido. O nervosismo continuava e a adrenalina descarregava forte, em cada torcedor, toda vez que o locutor acelerava o ritmo da voz.

Aos 20 minutos um gol de Darío foi anulado pelo juiz, mas três minutos depois veio a definição: também de cabeçada, o jogador Bacabal fez o segundo gol do Viana para felicidade e delírio dos vianenses. Desta feita, o troféu era nosso. Viana tornava-se, finalmente, a campeã do 12º Campeonato Intermunicipal de Futebol.

O Jornal Pequeno, em sua edição de 9/1/67, depois de elogiar a vitória do time vianense, finalizava a matéria dizendo: Após o encerramento, os atletas de Viana, acompanhados dos seus simpatizantes e de grande número de esportistas vianenses que se encontravam em S. Luís realizaram uma passeata pelas ruas da cidade. A charanga de Viana passou em frente a Jornal Pequeno tocando a JARDINEIRA, música do carnaval do passado. Em Viana, por certo, deve ter havido muita festa na noite que passou, em comemoração à conquista do título. 

O bicampeonato – Visando repetir o feito, novamente a delegação de Viana viajou para São Luís, a fim de participar do evento esportivo intermunicipal que decidiria o novo campeão do ano de 1967. A novidade agora ficava por conta do local dos jogos que passaram a ser realizados no recém-inaugurado Estádio Nhozinho Santos.

Em dezembro daquele ano, embora a FMD estivesse em crise por conta da recente e polêmica eleição do novo presidente, Raimundo Silva, a competição conseguiu reunir grande número de seleções. Cidades como Arari, Bequimão, Codó, Coroatá, Cururupu, Lago da Pedra, Matinha, Penalva, Pinheiro, Pedreiras, Rosário, Tutóia, São José de Ribamar, entre outras, inscreveram-se no certame.

Nossas vizinhas e velhas rivais, Matinha e Penalva, foram eliminadas logo no início do torneio. Matinha foi despachada ao perder por 3x1 para Codó. E Penalva simplesmente levou uma surra de Pinheiro, sendo goleada por 6x1.

Um tropeço ocorrido no jogo contra Pedreiras quase elimina o time vianense. Depois de perder pelo placar de 2x1, a liga do Viana entrou com recurso junto à Junta Esportiva Disciplinar pela participação  de um dos zagueiros do time adversário, cuja documentação estaria irregular. O Conselho Técnico da FMD decidiu então anular o jogo, sob protestos dos pedreirenses que se retiraram do campeonato. Em solidariedade à delegação de Pedreiras, Pinheiro também abandonou a competição.

Com a ausência, em campo, dos pedreirense para uma nova partida, Viana foi beneficiada com os pontos daquele jogo. Na semifinal, passou fácil pela seleção de Coroatá ao vencer por 2x1 (os dois gols foram marcados pelo artilheiro Chucho). Contudo, o desempenho dos dois times não agradou a imprensa especializada, segundo registro dos jornais da época.

A disputa final do título de campeão do 13° Campeonato Intermunicipal de Futebol, realizada no domingo (21/1/68), entre Viana e Arari, deixava uma vez mais a decisão entre duas cidades da Baixada. Pelo placar de 2x1 (gols marcados por Lanchão numa cobrança de falta e Gury, de fora da grande área), o selecionado vianense arrebatou o título de bicampeão, encerrando com chave de ouro sua participação no campeonato intermunicipal ao mesmo tempo que deixava escrito um brilhante capítulo nos anais do futebol vianense.

Por Luiz Alexandre Raposo (matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 27)