Academia Vianense de Letras


Construída pelos escravos, uma passagem escavada na terra encurtava o caminho dos padres jesuítas até o antigo Engenho São Bonifácio


Naquele início da colonização, quando a geografia maranhense não era de toda conhecida, ao se deslocarem a São Luís para compra de mantimentos, os padres jesuítas enfrentavam grandes dificuldades para retornar ao Engenho São Bonifácio, centro propulsor da Missão do Maracu e pedra fundamental da futura cidade de Viana.

Durante os meses de inundação, após passarem pelo igarapé da Sumaumeira, tinham como porto de desembarque o igarapé do Carnaúba. Desse ponto os padres faziam outra longa viagem de canoa até o final da Baixa Grande, enfrentando depois as fortes correntezas do temível e traiçoeiro igarapé da Mutuca para alcançarem, finalmente, o igarapé do Engenho.

Uma alternativa menos perigosa, mas de árdua jornada, era fazer a pé todo o trajeto do final da Baixa Grande até a fazenda, margeando o igarapé do Engenho e transportando os mantimentos em lombos de animais ou nas costas dos negros. Presume-se que nessas viagens, os padres tenham observado a enseada do Pau Caído e planejado a construção do fojo, o qual interligaria as duas enseadas durante o período das cheias, encurtando sobremaneira o caminho de volta.

A enseada do Pau Caído era uma ponta de terra, coberta por densa vegetação, que avançava em direção à Baixa grande. Muito tempo depois essa mesma enseada passaria a ser conhecida por enseada dos Cubangas, por ali viver uma família negra chefiada pelo velho Mariano Cubanga (mais recentemente receberia a denominação de enseada do Velho Boa, por situar-se ali a propriedade do Sr. Boaventura Mendonça). Depois de sofrer brutal desmatamento, a proeminente ponta de terra desapareceu por completo, descaracterizando-se assim esse acidente geográfico.

Por seu lado, a enseada do Fojo (ex-Arariba-poá), apesar de ter sido também desmatada para a construção de várias casas, ainda se caracteriza como tal nos tempos atuais.

Estima-se que o fojo tenha sido construído nos meses de seca, logo no início da colonização portuguesa. Possuía cerca de três quilômetros de extensão por três a quatro metros de largura. Na parte mais alta do terreno, o canal foi escavado por aproximadamente uns 800 metros. O restante exigiu apenas o trabalho de desmatamento. Nos primórdios de Viana, essa passagem foi de grande utilidade não somente aos padres jesuítas como igualmente a todos os colonos que chegavam para se estabelecerem na região.

Utilidade que atravessou séculos - Mesmo depois que o rio Pindaré passou a ser utilizado normalmente como via de acesso entre São Luís e Viana, o fojo construído pelos jesuítas não perdeu sua serventia, já que de setembro a dezembro, quando o estio chegava ao seu apogeu, o nível das águas do rio baixava de tal modo que submetia o tráfego das lanchas ao ritmo das marés.

Assim, por ocasião das fracas marés de quarto-crescente e quarto-minguante que não alcançavam grandes extensões rio adentro, as embarcações só conseguiam chegar até o porto da Beira da Baixa, onde desembarcavam passageiros e mercadorias. O resto do percurso até Viana era feito em animais de montaria que cortavam caminho pelo histórico fojo.

A partir do final da década de 1940, os caminhões passaram a fazer esse transporte sem alterar, contudo, o secular itinerário que passava pelo fojo.

Até os anos 70, o fojo ainda tinha grande utilidade para os pecuriatas e pequenos agricultores da região. Para os primeiros, facilitava o deslocamento dos rebanhos bovinos que vinham dos municípios de Cajapió, São João Batista ou São Vicente Férrer em busca da pastagem fresca dos campos vianenses e da fartura d´água que o lago oferecia. Já para os lavradores, que precisavam comercializar na cidade a produção de seu trabalho, o fojo igualmente lhes encurtava o caminho do transporte feito em animais de carga ou carros-de-boi.

A destruição do fojo – Na década de 80, com o construção da rodovia MA 014 o fojo foi entupido, restando hoje pouco para se ver daquela que foi a primeira obra da engenharia  vianense e que, durante mais de dois séculos, ajudou a escrever a história de um povo valoroso e desbravador.

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(*) Matéria publicada no Renascer Vianense, edição n° 48

 (**) Extraído do livro “Memorias de América Dias” de autoria de Luiz Alexandre Raposo.

São Luís: Edições AVL, 2012, p. 162-164.

 

 

Foto 1 – Aspecto atual do que restou do fojo: invadido pelo mato e pelas águas do campo

Foto 2 – Trecho da MA 014, no Ibacazinho, que soterrou grande parte do antigo fojo