Academia Vianense de Letras

Em reconhecimento à sua importante contribuição ao desenvolvimento socioeconômico de Viana, nos últimos cinquenta anos, o comerciante Manoel de Jesus Travassos (Senhor Penha) foi agraciado com a placa “Honra ao Mérito Vianense”, durante reunião desta Academia na noite de 21 de novembro de 2015. A saudação foi proferida pela acadêmica Fátima Travassos, filha do homenageado.

Veja a seguir o texto de saudação e as fotos do evento

Viana, 21 de Novembro de 2015

Discurso proferido pela acadêmica Maria de Fátima Travassos Cordeiro na sessão solene de homenagem da Academia Vianense de Letras(AVL)

Homenagem ao Sr. Manoel de Jesus Travassos

Senhor presidente da Academia Vianense de Letras, Luiz Alexandre Brenha Raposo

Senhores confrades

Senhoras confreiras

Senhoras e senhores

Ilustres Homenageados desta noite

                     Com que ternura me lembro

                     Daquelas noites serenas,

                     Alegres, doces, amenas,

                     Que iam de Agosto a Dezembro,

                     Tal como enorme cascata,

                     Que deslumbra a vista humana,

                     O luar beijava as águas,

                     Derramando Luz de prata

                     Sobre o Lago de Viana.

                    (trecho do Poema “Às Portas do Tempo” de autoria do vianense Travassos Furtado).

Agradeço aos meus pares, confrades e confreiras, pela honra a mim concedida em representá-los neste momento solene, o que me proporciona duplo orgulho. Primeiro por integrar a Academia Vianense de Letras como membro fundador, e segundo, por poder proferir esta saudação ao meu próprio pai, o homenageado desta noite.

Importante ressaltar no início desta saudação que, ao escolhermos um representante da classe comercial de Viana para ser agraciado com a placa de “Honra ao Mérito Vianense”, estamos estendendo também esta homenagem a todos aqueles que abraçaram tal profissão e com muito trabalho e suor derramado conseguiram impulsionar a economia local.

Todos nós sabemos que o comércio sempre foi uma das principais molas propulsoras da história da humanidade. Foi o comércio que incentivou as primeiras viagens marítimas, unindo culturas, enriquecendo nações, gerando novas fronteiras econômicas e propiciando a descoberta dos países do chamado Novo Mundo.

Nossa pátria, o Brasil, por exemplo, foi descoberto em decorrência do comércio, quando se buscava criar o famoso “caminho marítimo para as Índias”.

Em Viana não seria diferente: não foram poucos os filhos da terra ou mesmo vindos de outras paragens que se entregaram a essa difícil labuta, ao longo da história desta centenária cidade.

Por esse motivo, seria praticamente impossível relacionar nominalmente cada um deles. Mas, a título de exemplo e reconhecimento in memoriam, citaremos a seguir alguns dos comerciantes que mais se destacaram em nossa comunidade, no século passado: Abraão Mohana, Victor Hugo, Heitor Piedade, Zebino do Amaral, Messias Costa, Catarino Sá, Antonio Higino, Hilton Santos, Vicente Rico, os irmãos João e Emídio Cordeiro, João Rodrigues, Ataíde Mendes, Joaquim Gomes, Lino Lopes, Zezico Costa, Betrome Oliveira, João Cabelinho, Raimundo Cutrim, Raimundo Xandico, os irmãos Assis e Costinha, Alfredo Fonseca Lima, Daniel Gomes e Levi Coêlho.

No ramo da panificação, destacaram-se Mundico de Dunga e Joaquim Aragão.

Na área farmacêutica, o casal Nozor/ Isabel Serejo e o célebre Dr. Ozimo de Carvalho.

Todavia, não podemos esquecer aquele que foi certamente o mais empreendedor e o mais vitorioso deles: José Mendes Pinheiro, o primeiro homenageado pela nossa Academia com tal distinção, ainda em vida, no ano de 2003, cuja saudação também tive a honra de fazer.

Mas voltando ao nosso homenageado especial desta noite, como filha, posso afirmar que ele representa muito bem todos os seus colegas comerciantes do passado e do presente.

Homem simples, trabalhador e honesto, sempre soube honrar sua família e sua terra natal. Contribuiu consideravelmente para o desenvolvimento econômico e social deste município, honrando sempre seus compromissos junto ao fisco e aos fornecedores, o que lhe concedeu a marca de credibilidade, seriedade, honestidade e austeridade.  Por isso, nunca admitiu que alguém pusesse em xeque sua honradez e sua dignidade, enquanto pessoa humana.

Esta é, portanto, uma celebração da vitória desse comerciante que cresceu e diversificou suas atividades no município de Viana e na Baixada Maranhense, numa dinâmica e inteligente atividade comercial, abastecendo não apenas a sede, mas também vários povoados do município e ainda algumas cidades adjacentes.

É certo que ele já estava predestinado. Predestinação significa estar antecipadamente com seu destino direcionado para alguma vivência. No entanto, além desta dádiva divina, é a livre vontade de cada um que lhe permite escolher qual o caminho a percorrer. E são as escolhas feitas na vida que determinam nosso futuro.

Este homem escolheu o caminho que conduziria, não só ele, mas outros seres humanos a romperem fronteiras, buscando sempre o bem comum. Hoje vislumbramos os resultados de sua jornada.

Esta homenagem é o reconhecimento em vida de uma personalidade ilustre que se encontra às vésperas de completar seu nonagésimo aniversário no mês de fevereiro vindouro.

Para relembrar melhor a trajetória deste cidadão, faz-se necessário um breve resumo histórico desde o início de sua vida a dois.

Era noite e a lua cheia prateava o lago, a torre sineira da Matriz, as praças e o largo dos enamorados da cidade de Viana.

Em um banco de praça, sentados, dois corações apaixonados!

Falar era algo precioso e necessário para a conquista definitiva. Havia emoção, porém poucas eram as palavras devido à timidez muito comum dos jovens daquela época.

A lua certamente era o motivo para estabelecer um elo de conversa.

Em meio ao silêncio, eis que a voz do rapaz ecoou numa sonora exclamação:

— Já olhastes o céu, tá bonita essa lua, né!!

A moça envergonhada, sem saber onde pôr as mãos, passou então a enrolar o dedo no folho do vestido, e quanto mais ele falava, mais ela enrolava o dedo no folho:

E o rapaz continuou: - Vê, não é mesmo bonita essa lua?

E a moça cabisbaixa retrucava: - Sim, é verdade! Boniiiiita!

Quanto mais elogio, mais o dedo enrolava no folho.

De tanto que se elogiou a lua, o pobre folho, já roxo, não resistiu aos repuxões nervosos da moça e lá se foi o folho por chão abaixo.

O folho todo rasgado deixou a menina vermelha de tanta vergonha do moço. Eis que mais rapidamente, ela se despediu com um beijo, saiu correndo e entrou portão de casa a dentro. Ao moço, ficou o contentamento do beijo luminoso sob a lua prateada.

E a vida seguiu, muitos foram os desafios deste homenageado. Foi preciso trabalhar e lutar. Nasceu em 04 de fevereiro de 1926, filho de Raimundo Nonato Travassos e Joana de Jesus Travassos, e irmão de José de Ribamar Travassos (in memorian) e Maria do Socorro Travassos Sousa (in memorian). Casou-se com Maria José Rodrigues Travassos no ano de 1950, a moça do folho rasgado.

Foi jogador profissional de futebol, defendendo a bandeira vianense com orgulho, no time Babaçú, na posição de meio campo.

Foi ferreiro mecânico, chegando a fabricar e consertar armas de fogo como espingardas e revólveres para a caça, atividade de subsistência da grande maioria das famílias vianenses de antigamente.

Fazia também elaboradas grades de proteção e portões de ferro para as residências e prédios comerciais da cidade e ainda modelos de ferros para a ferragem do gado.

Prestava assistência técnica de garantia para as máquinas de costura, na época, uma profissão muito usual, uma vez que havia modistas, costureiras e alfaiates renomados em nossa cidade.

Em São Luís, estudara técnicas de enfermagem para fortalecer seus conhecimentos na saúde, como enfermeiro, ao lado de Santinha Nunes, Enedina Raposo, Chico Travassos, Salu Serra e Helmar Bacelar. Foi auxiliar dos médicos Dr. Lourival Costa e do vianense Dr. Antonio Haddad, dentre outros, aqui no nosso Hospital do Estado.

Foi criador de gado em terras do Vidéu e da Ponta dos Moitais.

Mas o comércio foi sua marca registrada, pois por meio dessa atividade promoveu grande demanda de produtos para abastecer o mercado vianense. Vendia tanto no atacado quanto no varejo, secos e molhados, comprava e revendia gêneros alimentícios como arroz, milho, feijão, farinha e babaçu. E o babaçú comercializava para empresários e fabricantes de óleos e sabão em São Luís. Foi representante e distribuidor, em Viana, por muitos anos da cerveja Brahma.

Nessa luta, contou com a parceria e o trabalho da moça do vestido de folho rasgado, Maria José Rodrigues Travassos, a Dona Zeca.

Dos filhos, que eram em número considerável, nove ao todo, a primogênita, Helena, foi quem primeiramente o ajudou à frente de uma pequena quitanda, mais tarde transformada num grande comércio.

Além dos nove filhos de sangue, o homenageado também tem uma filha de criação, Maria de Lourdes Marinho, a Lourdinha, que só saiu de casa depois de casada.

A simpatia dos proprietários da quitanda e o bom atendimento ali prestado conquistariam rapidamente grande número de fregueses. Foi esse o início do futuro “Armazém Santa Helena”, cujo nome é uma homenagem à sua filha mais velha.

Os demais irmãos seguiriam o exemplo da primogênita da família. E assim Rosirene, Emanuel, Vitória, Benedito, Fátima, João, Djanira e Luiz Henrique se revezariam numa jornada laboral de cunho educativo e disciplinar, onde trabalho, estudo e lazer se coordenavam para que cada atividade fosse executada de forma produtiva, responsável e proveitosa.

Desse modo, aqueles que estavam na escola pela manhã, à tarde se ocupavam do balcão do comércio. Quem estudava à tarde, ocupava-se no ofício pela manhã, criando um revezamento, de duas em duas horas, justo e equânime.

Seus filhos, a princípio, tiveram sua base educativa aqui mesmo em Viana, completando os estudos, posteriormente, em São Luís ou fora do Estado, quando necessário.

Era a realização de um sonho desse pai que enxergava na educação dos filhos a melhor maneira de garantir o futuro de cada um deles. E muito feliz, toda vez que um desses filhos se formava, exclamava satisfeito: “sou uma fábrica de fazer doutores”.

O homenageado tratava com austeridade a disciplina entre estudo e trabalho dos filhos. E sempre que chegava a hora de um deles seguir para São Luís para prestar o vestibular, ele já avisava do alto de sua autoridade de pai “você vai prestar o vestibular, mas se não passar, vai voltar para o balcão do comercio”. Pois não admitia que os filhos não passassem no vestibular da primeira vez. Era como se fosse uma obrigação a aprovação no vestibular da única Universidade Federal do Maranhão, na época.

Somente dois filhos seguiram a carreira do pai, demonstrando terem herdado o seu tino comercial. Até hoje, Benedito e Luiz Henrique ocupam-se em dar continuidade às atividades empresariais herdadas do pai.

Os dois outros filhos homens ingressaram na área da saúde: Emanoel que abraçou a Medicina como Cirurgião Geral, e João que se tornou Odontólogo.

Quanto às filhas, Helena formou-se em Letras; Rosirene graduou-se em Economia; Vitória em Administração; Djanira estudou Contabilidade e Fátima, a acadêmica que vos fala, graduou-se em Direito.

Atualmente, o nosso patriarca conta com trinta e um netos e dezessete bisnetos, na iminência de completar dezenove bisnetos, incluindo os netos e bisnetos filhos da Lourdinha.

Homem de fibra, sempre primou pela honestidade, pela ética, pelo trabalho e dedicação à família.

De tão zeloso que era, impunha aos filhos todo seu rigor de pai cuidadoso.

Na criação e cuidado, especialmente com as filhas, conduzia-as com certa rigidez, prova disso consistia no fato de não permitir o uso de vestimentas curtas e nem deixá-las irem a festas sem a sua companhia.

Apesar da rigidez com os filhos, sempre foi solidário e sensível em apoiá-los bem como aos amigos e aos menos favorecidos que o procuravam buscando ajuda. Acolhendo inclusive em sua residência filhos de amigos que vinham para estudar, uma vez que moravam em lugares desprovidos de escolas.

Costumava oferecer almoço aos fregueses que vinham de longe realizar suas compras ou vender gêneros alimentícios. A Dona Zeca de praxe fazia o almoço em quantidade maior do que as necessidades da família, já contando com esse acréscimo de convidados.

Mas chegou o ano de 1998, quando sua companheira de luta precisou partir. Maria José Rodrigues Travassos, Dona Zeca, a moça do folho rasgado, deixou o exemplo de boa esposa, mãe dedicada, trabalhadora e amorosa. Mulher forte e decidida, cumpriu sua missão, trabalhou com garra e perseverança, sempre ao lado do homenageado.

Com certeza, entre a comunidade vianense aqui presente, Dona Zeca, como era carinhosamente conhecida, deixou uma inapagável lembrança de sua personalidade, cujo carisma abrangia o bom humor, muita alegria e simpatia, além das virtudes cristãs de afeto ao próximo e o amor incondicional ao homenageado e sua família.

No entanto, não era para ele ficar só, pois surgiria a oportunidade para que continuasse sua caminhada ao lado de outra companheira.

Na mesma condição, viúva que era, uma senhora de largos olhos azuis, cujo nome coincidentemente é Maria José, aceitou sua parceria e até hoje caminha ao seu lado. Curiosamente, sendo ele devoto dos dois santos, Maria e José, escolheu como esposas, tanto a primeira, quanto a segunda, mulheres com o nome de “Maria José”.

Igualmente respeitosa, a segunda Maria José olha com carinho para as fotos da bela jovem do folho rasgado e as conserva à vista de todos que visitam o casal. O que a tornou ainda mais amada pelo homenageado e sua família.

Para finalizar, vale ressaltar que nosso homenageado ficou conhecido por uma peculiaridade também comum aos vianenses, os codinomes. O título de “Senhor Penha” lhe foi dado, devido à sua convivência com a avó Helena, a qual casara em segunda núpcias com o cidadão Raimundo Penha. Como esse senhor tinha grande estima pelo neto por adoção, o menino acabou herdando o sobrenome de Penha.

E ao pesquisar sobre a origem do nome Penha, vejam só a surpresa!

Penha é uma palavra de gênero masculino, originariamente derivada do Hebraico que significa montanha.

Como montanha é uma geo elevação significativamente alta e de base extensa no solo, poderíamos relacionar o terreno extenso da montanha à construção sólida que o Senhor Penha estabelecera na cidade de Viana. A vida dele seria a montanha, a base extensa; e o terreno, a cidade que tanto ama e admira, Viana.

Assim, nesta noite, a Academia Vianense de Letras apresenta suas honras e louvores ao cidadão Manoel de Jesus Travassos, pelo exemplo de amor ao trabalho, de fé em Deus e de dedicação à sua família e, por extensão, a esta sua cidade. Um homem que combateu o bom combate com a coragem de proclamar que muito sonhou e ainda sonha.

Obrigada ilustre cidadão vianense.

Receba, nesta noite de festa, a saudação desta nossa Academia Vianense de Letras – AVL!

O homenageado ao receber a placa da acadêmica Maria da Graça Cutrim

O comerciante entre os membros da AVL

Manoel de Jesus Travasos cercado pelos filhos

Aspecto da plateia que prestigiou a solenidade