Academia Vianense de Letras

Por ironia da vida, ela, que seria considerada uma segunda mãe para centenas de vianenses, não teve filhos biológicos. Tampouco chegou a conhecer a própria mãe, não lhe restando, como consolação, nem mesmo uma fotografia da mulher que a trouxera ao mundo para matar sua curiosidade infantil. Frustração esta que a acompanharia pelo resto da vida, conforme costumava confidenciar à amiga e companheira de profissão, Enedina Raposo. Nessas ocasiões, aproveitava para contar um sonho que tivera, certa vez, depois de adulta.

No sonho, Santinha Neves viu-se surpreendida pela visita do prefeito, Eziquiel Gomes, para lhe entregar a chave da Prefeitura, dizendo-lhe que sua genitora ali se encontrava, trancada, à sua espera. Sem perda de tempo, feliz e eufórica, a enfermeira trocou de roupa e tomou a rua em direção ao prédio da Prefeitura. Pelo caminho, ia recebendo os cumprimentos e apertos de mãos dos amigos Ozimo de Carvalho, Levi Coelho, Benedito Gomes e Maroca Cunha, Raimundo de Xandico, Darli Nogueira e tantos outros. Ao alcançar a pracinha, já arrastava atrás de si uma pequena multidão de conhecidos, ansiosos em presenciar aquele momento de grande significado para ela. Depois de apressar o passo e finalmente alcançar o prédio azulejado, com a mão trêmula introduziu a chave no orifício da porta principal. Ao dar a volta na fechadura, porém, acordou com o coração aos pulos. A emoção havia sido tamanha que lhe fizera despertar, frustrando definitivamente o desejo de conhecer, pelo menos em sonho, o rosto da mulher da qual só conhecia o nome: Emília de Jesus Araújo Mendes.

Com certeza sua história pessoal de vida deve tê-la influenciado na opção pela enfermagem e na dedicação à maternidade para salvar vidas, diminuindo assim o número de prováveis e futuros órfãos na cidade. Nascida em Viana, no dia 24 de abril de 1903, num parto complicado que lhe roubara a mãe, Maria do Espírito Santo Mendes cresceu sob os cuidados do pai adotivo, Nicolau Nunes (provavelmente por isso ficaria mais conhecida como Santinha Nunes, embora este sobrenome nunca tenha constado de seus documentos). Ao atingir a maioridade viajou para São Luís, a fim de matricular-se no então famoso “Instituto de Assistência à Infância Benedito Leite”, que funcionava na Rua Rio Branco, no mesmo casarão onde, décadas depois, seria instalada a antiga Faculdade de Enfermagem “São Francisco de Assis” (posteriormente encampada pela UFMA). Na capital, durante os três anos de duração do curso, a jovem saberia tirar bom proveito das aulas teóricas e principalmente das aulas práticas recebidas na maternidade e no pequeno hospital infantil, mantidos pela escola.

A enfermeira profissional – De volta à terra natal, logo seus préstimos se tornariam imprescindíveis para a sociedade local, principalmente numa época em que Viana, além de sofrer da deficiência de assistência médica, vivia isolada pelas contingências geográficas de então. Dessa maneira, através do trabalho, a nova enfermeira conquistava cada vez mais o respeito e a gratidão da coletividade. Durante mais de 30 anos de dedicação à maternidade foram centenas de partos assistidos com várias gerações de novos vianenses vindos ao mundo sob seus cuidados profissionais.

E não foram poucos os desafios enfrentados ao longo dessa trajetória. Bebês atravessados no ventre materno, fetos em decomposição, abortos espontâneos, hemorragias, complicações durante e no pós-parto, natimortos, e tantos outros problemas ocasionais de uma gestação eram comuns no desempenho da sublime profissão abraçada por Santinha. Nos casos mais complicados, ela solicitava o auxílio de Enedina Raposo e Maria Serejo, outras duas enfermeiras da cidade.

Sua atuação em prol da saúde dos conterrâneos, entretanto, não se restringia somente á maternidade. Na falta do médico, a enfermeira se via também requisitada para atender situações de emergência, como vítimas de queimaduras, de acidentes domésticos ou de trabalho, ou mesmo de pessoas atacadas por todos os tipos de enfermidades.

Como funcionária pública, durante mais de três décadas, Santinha Neves soube igualmente deixar escrita uma folha de bons serviços prestados aos pacientes do Hospital Dr. José Murad, recebendo elogios de vários médicos que dirigiram aquela casa de saúde, como Raimundo Martins, Antenor Abreu, Lourival Costa e Antônio Hadade.

Outra atuação importante da parteira deu-se durante a fundação da 1ª maternidade de Viana, em 1968, sob a iniciativa da Sra. Carminha Sousa. Contando com seu apoio e da colega, Enedina Raposo, a nova instituição prestaria importantes serviços às mães vianenses por vários anos, até ser transformada, em 3 de fevereiro de 1985, na atual “Policlínica Mãe Santinha”, homenagem póstuma que lhe foi prestada por iniciativa de Daniel Gomes Filho junto às sócias da antiga Associação de Proteção e Assistência à Maternidade e Infância de Viana. 

A mulher e mãe de família – De formação originalmente católica, durante a juventude chegou a fazer parte da irmandade das “Filhas de Maria” , quando era uma das principais incentivadoras do culto mariano, promovendo novenas por todo o mês de maio em sua residência. Ao enamorar-se e firmar compromisso de noivado com o jovem José Ribamar Neves, membro da igreja “Assembléia de Deus”, Santinha deixou-se converter pelo futuro marido, mudando desse modo de religião.

Naquele tempo, decidir-se pela mudança de religião não era tão simples e quase natural como normalmente acontece hoje em dia. Vivendo numa pequena cidade sob a liderança carismática de um líder da estirpe do padre Manoel Arouche, quando a população vianense professava e participava ativamente dos ritos e sacramentos da Igreja Católica, não deve ter sido nada fácil para ela tomar tal decisão. Mesmo assim, a enfermeira soube impor-se e manter o mesmo respeito e consideração da coletividade de esmagadora maioria católica.

O casamento com José Neves foi realizado pelo juiz Arthur Almada Lima, no dia 3 de setembro de 1940, quando Santinha já contava 36 anos de idade. Sem filhos, nove anos depois, o casal resolveu adotar um menino, nascido em 6 de julho de 1949, o qual perdera a mãe também de parto e cujo pai era um primo da enfermeira. Embora tenha sido criado pelos pais adotivos desde o nascimento, Elizeu Humberto Mendes somente passou a assinar o sobrenome “Neves” em 1961, quando o termo de adoção foi finalmente oficializado em cartório.

No mesmo mês em que completaria 78 anos, encerrou-se a trajetória terrestre da enfermeira vianense que ajudou a salvar tantas vidas. Vítima de enfarte do miocárdio, Maria do Espírito Santo Neves faleceu no dia 13 de abril de 1981.

Por Luiz Alexandre Raposo