Academia Vianense de Letras

Conhecido por seus contemporâneos simplesmente como Mundico Campelo, esse homem desenharia uma trajetória de vida que lhe faria merecedor de uma das mais significativas homenagens póstumas prestadas a um vianense: ter seu nome escolhido para denominar uma das três principais ruas de sua cidade natal.

Ao contrário do professor Antônio Lopes que alcançou notoriedade intelectual por sua atuação na capital maranhense, ou do engenheiro Raimundo de Castro Maia que conseguiu prestigio político e cultural na então capital do país (ambos igualmente distinguidos com a mesma homenagem), o futuro Coronel Campelo ganharia destaque pelo trabalho desenvolvido aqui mesmo, em prol de sua comunidade.

Nascido no dia 2 de junho de 1874, Raimundo Marcelino Campelo viveu até os 71 anos de idade. Ao falecer, em 10 de outubro de 1945, deixava rivais e desafetos na política local, mas havia provado, ao longo de sua militância, o interesse primordial pelo desenvolvimento do município e pelo bem-estar da população.

Segundo uma de suas netas, Maria do Socorro Silva Coelho, conhecer a história de Raimundo Marcelino Campelo não é apenas conhecer uma biografia fascinante, mas tentar compreender a atitude de toda uma geração, perante os seus problemas, suas angústias e suas esperanças.

Realmente, é preciso transportar-se para uma Viana do início do século passado, com todas as carências materiais e distâncias geográficas da época para melhor entender-se o civismo que palpitava nos corações dos filhos desta terra. Isolados e privados do contato direto com o mundo exterior, as pessoas alcançavam a plenitude da vida social e comunitária, mantendo-se assim bem distantes do egoísmo e do individualismo tão exacerbados dos dias atuais. E foi nesse contexto que a determinação e o espírito de luta de Mundico Campelo o conduziram ao posto de chefe político local. 

O líder político - Prevaleciam então em Viana dois tradicionais partidos políticos, ambos com direção regional em São Luís: o Conservador e o Liberal. O primeiro, apelidado de partido do “Pau roxo”, tinha justamente no Coronel Campelo o líder e eixo de convergência dos principais talentos políticos da época, como o também Coronel Ulisses Leopoldino Rodrigues, Antonio Serafim da Costa (eleito prefeito da cidade por duas vezes), Leonel Alves de Carvalho, João Balby, João de Parma, Marcelino Piedade, Alteredo Nogueira, Heitor Piedade e vários outros. Embora nunca tenha assumido o cargo de prefeito, era ele que, graças ao enorme prestígio junto ao eleitorado vianense, colocava à frente do poder municipal o afiliado que julgasse merecedor de tal responsabilidade.

A militância política do chefe do partido roxo lhe rendeu inúmeras vitórias que lhe proporcionaram grandes alegrias. Entretanto, como é natural na vida pública, sua atuação provocaria também muitas críticas dos opositores e decepções pessoais. O jornal “A Época”, que circulou em Viana entre 1929 a 1932, registrou alguns de seus desabafos.

Ficariam célebres também suas artimanhas e manobras políticas, a fim de manter-se no poder. Talvez o caso mais marcante tenha ocorrido durante a famigerada Revolução de 30, que conduziu Getúlio Vargas ao comando da nação brasileira. Ao aportarem em Viana os ecos dessa revolta, no final de outubro daquele mesmo ano, o ardiloso cacique imediatamente depôs da prefeitura seu aliado, Mundico Serra (Raimundo Nonato Serra Nunes), dando posse ao próprio genro, Nhô Santos (José Fernandes da Costa Santos), como “prefeito revolucionário”. A troca, conceituada pelos adversários de “revolução de cozinha”, deslancharia uma das mais sérias disputas pelo poder da história política de Viana.

Rivalidades políticas à parte, Raimundo Marcelino Campelo foi um incansável batalhador na busca por melhorias para a cidade. Entre estas, a preocupação pela educação da juventude vianense foi, certamente, sua principal bandeira.  Recebendo o apoio de vários governadores do Maranhão, que o tinham como um dos líderes políticos mais importantes do interior do Estado, não media esforços para amenizar as carências da educação local. A fundação do Grupo Escolar Estevam Carvalho, em 1924, contou com sua importante iniciativa. Do mesmo modo, quando o promotor público de Viana, Dr. Palmério Campos, fundou o Instituto D. Francisco de Paula, em 1929, teve na figura do chefe político o maior entusiasta e incentivador.

 Em discurso pronunciado na Prefeitura Municipal, em 12/06/1929, após conclamar os professores pela causa da instrução da juventude local, Mundico Campelo assim se dirigiu aos jovens ali presentes: “a vós jovens vianenses, vós que sois a esperança da nossa pátria, eu concito-vos a que procureis aprender, para serdes felizes, e felizes fazerdes os vossos paes e a nossa pátria; e a vós paes de família, eu imploro com as mãos postas, como quem a Deus implora, que procureis ensinar os vossos filhinhos porque, quando todos os viannenses forem cultos, esta nossa querida Vianna será grande, immensamente grande, pois todos trabalharão uníssonos pela sua grandeza e pela sua prosperidade...” (A Época, n° 26, de 30/06/1929).

O funcionário público e pai de família – Fora da política, o coronel Campelo desempenhava a função de coletor estadual em Viana. Era também proprietário do engenho de cana-de-açúcar de Santarém, um dos primeiros a aderir à modernidade na região ao substituir a tração animal por energia motorizada.

Dedicado à família, era casado com Olívia Rosa Garcia Campelo, e pai de oito filhos, entre os quais se destacavam as professoras normalistas Faraíldes e Maria Raimunda, e os futuros generais do Exército: Lourival, Raimundo, Juracey e Florimar Campelo. Os dois últimos, José de Ribamar e Josafá Campelo, tornar-se-iam advogado e agrônomo respectivamente.

Em 1977, sob a administração do prefeito Walber Duailibe, esse vianense ilustre foi agraciado com nova homenagem. Com muita propriedade, uma das escolas da rede estadual em Viana recebeu a denominação de “Centro de Ensino Raimundo Marcelino Campelo.”

Por Luiz Alexandre Raposo