Academia Vianense de Letras

Dizem, e isso vem da Grécia antiga, que uma andorinha só não faz verão. Sebastião da Silva Furtado, hoje com 80 anos, pegou esse postulado de Aristóteles e o refez. Agindo solitariamente, confiando apenas na força dos seus princípios, fez história em Viana. Numa época em que a voz que se ouvia era a dos quartéis e a lei que pairava sobre todos era a do chumbo, ele deu as costas para o regime, elegeu-se vereador por dois mandatos, tornou-se presidente da Câmara Municipal e quase chega lá, como prefeito da cidade.

Aos 22 anos conheceu Ceciliana, então menina de 16 anos, e com ela decide trocar alianças. ‘Raptou’ a garota e a levou para a casa de um parente. À noite, o dono da casa tentou colocar o casal em quartos separados. Sebastião reagiu. “Eu não roubei mulher para dormir sozinho”. Pegou a moça e a levou para a casa dos pais dele, que, a contragosto, tiveram que “engolir” a decisão do filho.

Trabalhou duro com o pai na roça e na pequena criação de gado. Um dia o padre Manoel Arouche, vigário de Viana, chamou Antoninho Furtado, pai de Sebastião, e fez-lhe o convite. Queria que ele cuidasse do gado da Santa (sim, nessa época, Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Viana, era uma das maiores fazendeiras da região, com quase duas mil reses).

Antoninho chamou o filho e disse que só aceitaria a proposta, se ele o ajudasse. Sebastião coçou a cabeça, não tinha nada a perder. “Pai, se outros toparam, por que a gente vai desistir? A gente encara e mostra que sabe fazer”. Ganhou visibilidade. Em pouco tempo tornou-se presidente da Associação dos Criadores do Município.

Dom Hélio de Campos chegara a Viana para chefiar a diocese local, substituindo a Dom Hamleto de Angelis. De visão política progressista, líder por vocação, Dom Hélio percebeu o isolamento da cidade do resto do Estado. A única ligação com São Luís era feita por via marítima, em lanchas que transportavam desde manufaturas a animais e gente. As viagens eram longas e perigosas.

Era preciso construir uma estrada de rodagem ligando Viana a Arari. O bispo deu início então a uma luta inglória, que o levaria diversas vezes a São Luís e Brasília, tentando convencer as autoridades a mandar construir a estrada. Mobilizou as entidades de classe e o povo. Foi como atear fogo em canavial.

De pronto recebeu o apoio de Sebastião Furtado, então líder classista rural, e também do padre Eider Furtado, tio de Sebastião e adepto da Teoria da Libertação. “A gente começou a entupir a mesa do ministro dos Transportes, Mário Andreazza, de telegramas, cobrando a licitação da estrada. Ele deve ter ficado zonzo com tanta aporrinhação”.

Dom Hélio foi a Brasília. Na Base Aérea encontrou com José Sarney e pediu-lhe apoio, que o negou de pronto. “Sarney disse que o projeto não era viável, que a Baixada era uma região pobre”. Dom Hélio não desistiu, percorreu a esplanada dos ministérios, solicitou audiências. Em São Luís pediu o apoio do governador da época, que também o negou. A luta prosseguiu até que o Estado, vencido, decidiu abrir licitação e assinar a ordem de serviço.

À frente de uma comissão, Sebastião Furtado veio a São Luís assistir ao desfecho do processo licitatório no DER/MA. O grupo se alojou no Seminário Santo Antônio, onde confeccionou faixas e cartazes. Na volta a Viana, encontraram a cidade em festa. Uma multidão retirou Sebastião do ônibus e o carregou nos braços, agradecida. “Foi uma emoção enorme. Jamais esqueci”, recorda.

Em 1972, Dom Hélio o chamou para comunicar que ele seria o candidato da Igreja e dos trabalhadores rurais à Câmara Municipal. “Mas como? Eu não entendo nada desse negócio de política!”. A decisão estava tomada. A igreja jamais se envolveu abertamente na campanha, mas ele recebeu o apoio em massa do sindicato de trabalhadores rurais e, concorrendo pelo MDB, elegeu-se único vereador de oposição.

Começava a jornada solitária da água contra o rochedo. Combateu a gestão de Walber Duailibe do começo ao fim. Na Câmara, que tinha 9 vereadores, o placar a favor do prefeito era vergonhoso: 8 a 1. Mesmo assim, articulou e conseguiu o cargo de secretário geral da Mesa, que na hierarquia do parlamento é o segundo em importância.

Seu primeiro projeto restabeleceu a dignidade da Câmara, ao transferir a sede do Parlamento, alojada no prédio da prefeitura, para outro imóvel. “Era um absurdo a Câmara funcionar ao lado do gabinete do prefeito, como um biombo”. O prefeito não queria o projeto, mas Sebastião, mesmo sozinho, articulou o pleito de tal modo que sua proposição foi aprovada por unanimidade.

Também apresentou projetos para a construção de escolas em duas localidades. O prefeito, dessa vez, agiu rápido e a Câmara rejeitou as matérias. Sebastião não se deu por vencido. Fez reuniões com as comunidades beneficiadas pelos projetos e, em sistema de mutirão, ergueu as duas escolas em barro e palhas de babaçu. Os salários dos professores eram pagos com recursos próprios, isso numa época em que os vereadores não possuíam remuneração.

Em 1976 concorreu à reeleição e ganhou. Na hora de montar a chapa da Mesa Diretora, aplicou um golpe de mestre. Havia dois grupos com igual número de vereadores disputando a presidência, um ligado ao prefeito eleito e o outro do candidato derrotado. Era o fiel da balança. Para qualquer lado que pendesse, levaria a eleição. Foi assediado pelos dois grupos e para todos repetiu a mesma história: seria candidato de si mesmo. Na última hora o prefeito o procurou e aceitou que figurasse na cabeça da chapa. Tornou-se assim presidente da Câmara, sem pertencer a grupo algum.

Em 1982, lançou-se candidato a prefeito, enfrentando duas forças exponenciais. Teve quase 3.000 votos. O eleito recebeu pouco mais de 4.000. “Perdi porque não tinha apoio político nem material, mas o povo me apoiou”. Deixou a política e foi cuidar da vida. No dia 20 de janeiro último completou 80 anos. Comemorou ao lado da família e dos amigos. Eu quis saber o que passa pela cabeça de quem chega a essa idade, lúcido e admirado. “Dá vontade de ser eterno, de gozar a vida e jamais morrer”. A história tem a capacidade de imortalizar seus personagens.

Por Nonato Reis