Academia Vianense de Letras

os jovens irmãos Francisco de Assis e Raimundo Nonato CostaEles aportaram em Viana no início da década de 1940, para trabalhar na firma “A Piauhyense”, de propriedade de Zebino Pacheco do Amaral, comerciante natural de LuziLândia (PI), e já radicado na cidade há alguns anos. O primeiro a chegar foi o mais velho dos irmãos, Francisco de Assis Costa. Depois chegaria também Raimundo Nonato de Almeida Costa.

Nascidos no interior do vizinho Estado do Piauí e órfãos de pai e mãe ainda crianças, os irmãos haviam sido entregues aos cuidados de parentes e amigos da família, antes de se mudarem para Viana. Em 1924, aos cinco anos de idade, Francisco de Assis e a irmã caçula, Justina (bebê ainda), foram trazidos pela tia Caetana (do lado materno) para residirem na cidade maranhense de Brejo, enquanto Raimundo Nonato, com apenas quatro anos, foi levado para estudar na sede do município de Luzilândia, sob a responsabilidade do Sr. Antonio Guilherme de Melo.

Como novos moradores da “Cidade dos Lagos”, enquanto trabalhavam arduamente na firma do conterrâneo piauiense, os dois rapazes familiarizaram-se rapidamente com os vianenses, conquistando amigos e a simpatia do povo da terra. Em pouco tempo ficariam conhecidos simplesmente como Assis e Costinha. Por essa época, as atividades empresariais do Sr. Zebino Amaral - envolvendo o comércio de algodão, babaçu, arroz etc. - já abrangiam uma serraria, um pilador de arroz e um pilador de sal, além da loja de tecidos e miudezas em geral.

O comércio dos Irmãos Costa – Depois de cinco anos trabalhando na firma “A Piauhyense”, Assis e Costinha decidiram montar seu próprio negócio, partindo para a fundação da firma “Irmãos Costa”, inicialmente localizada na atual Rua Rio Branco, no Moquiço. Determinados e munidos da experiência adquirida, aos poucos os jovens irmãos foram se estabelecendo no comércio local. Certamente a simpatia de que eram portadores e o bom atendimento que sabiam dispensar à diversificada clientela foram ferramentas importantes para o êxito comercial. Assim, em poucos anos, transferiram-se para a Rua Antônio Lopes, n° 296, ocupando o mesmo prédio que antes havia abrigado o comércio do Sr. Miguel Abraão Mohana.

É mais ou menos desse período, estes versos publicados pelo famoso e mordaz pasquim “Ora, Pílulas”, periódico manuscrito que circulou na cidade nos anos 40: Pintamos aqui/ a lápis ou giz/ a dupla feliz/ Costinha e Assis/ que do Piauí/ nos trouxe uma vez/ cumprindo o destino/ do tio Zebino.

A “dupla feliz” e dinâmica dividia-se harmonicamente nos afazeres comerciais. Enquanto o mais velho assumia o balcão, atendendo a freguesia, o mais novo encarregava-se das viagens para os centros mais desenvolvidos como São Luís, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, a fim de melhor abastecer os estoques de mercadorias. Por várias vezes, lanchas foram contratadas especialmente para transportar, de São Luís a Viana, quantidades de até 500 fardos de novas mercadorias para a firma "Irmãos Costa".

Os matrimônios – Alcançada certa estabilidade profissional, os irmãos quiseram construir suas próprias famílias, escolhendo como esposas moças da sociedade local: em 19 de agosto de 1950, Francisco de Assis casou-se com Maria de Lourdes Coelho, filha do conceituado comerciante Levi Coelho, com a qual teria 10 filhos; no ano seguinte, em 27 de outubro de 1951, foi a vez de Raimundo Nonato casar-se com Maria Pereira Gomes, filha do ex-prefeito da cidade, Eziquiel de Oliveira Gomes, união esta que iria gerar oito filhos.

Unidos nos negócios, quando se fizeram inserir de forma marcante na vida pública da cidade, escrevendo um capítulo importante na recente história do comércio vianense, os irmãos Costas, entretanto, possuíam personalidades bem diferentes. É natural, assim, que suas trajetórias particulares de vida desenhassem contornos bastante diferenciados, pontuando cada um, a seu modo, o meio social do qual faziam parte.

Dessa maneira, Assis, de temperamento mais reservado, dividia-se quase que totalmente entre o trabalho e a família, enquanto o irmão mais novo, de espírito empreendedor e vida social mais abrangente, sabia estender seu talento para outras atividades, paralelamente ao comércio da loja de tecidos.

Criador e hortigranjeiro – Proprietário da fazenda Porto Velho, localizada entre Viana e Matinha, Costinha chegou a possuir 173 animais, entre vacas, touros, novilhos, garrotes e mestiços de zebu.  Consciente do crescente declínio econômico do município, ele imaginou poder reverter tal situação através do programa da Cédula Rural Pignoratícia do Banco do Brasil que, em 1969, incentivava a criação de búfalos na Baixada Ocidental Maranhense, tornando-se um dos pioneiros na compra e introdução de bubalinos na região.

É importante ressaltar que, nessa época, não se tinha nenhuma noção do impacto ambiental que a iniciativa poderia acarretar ao ecossistema dos campos da Baixada. Não existia nenhum questionamento a esse respeito e nem sequer se falava em meio ambiente, como é comum na mídia da atualidade. Em resumo: a ideia abraçada pelo fazendeiro era somente dinamizar a economia local por intermédio da bubalinocultura de corte e leite.

Amante da natureza e de seus recursos, ao adquirir o sítio São Manuel, que pertencera a Oscar Argollo, pai de Dilú Mello, o Sr. Costinha fez aumentar ali o número de árvores frutíferas, plantando diversificados tipos de mangas (espada, pêra, rosa, e a hoje quase rara, manga do rio). A produção de mangas era tanta que o excesso era aproveitado para a fabricação de doces e vinagre.

O produtor de tomates – Contudo, fora o comércio de tecidos finos e variados, o que certamente marcou mais a memória dos vianenses que conheceram o Sr. Costinha foi o gosto que ele possuía pelo cultivo de hortaliças e legumes, principalmente o tomate, produto que chegou a ser exportado para São Luís, em pequenas quantidades, nos aviões monomotores que faziam diariamente a ponte aérea de Viana para a capital.

O extenso quintal da residência da família Costa, que dava os fundos para a Rua Coronel Campelo e que era alagadiça no período chuvoso, anualmente, durante os meses de estio, transformava-se numa extensa horta, onde, além do tomate, eram cultivados também quiabo, maxixe, jerimum, vinagreira e joão-gomes Em canteiros diferenciados ainda eram plantados cenoura, pimentão, couve, alface e os tradicionais condimentos da boa peixada: o cheiro verde e a cebolinha.

Segundo Milaid, filha mais velha do S. Costinha e D. Maria, a mão-de-obra no plantio e manutenção da horta ficava por conta dos filhos, sendo ela uma das mais empolgadas com a sadia iniciativa do pai e com os lucros auferidos pelo comércio da produção, principalmente do tomate: “A horta abastecia a casa e o excedente era vendido à população. No auge da produção, chegávamos a colher até 500 kg de tomates por semana. Das sobras, fazíamos geleia da polpa do tomate, massa de tomate e até suco e doces”, recorda a atual engenheira agrônoma.

Sem uso dos chamados agrotóxicos (o único adubo era o estrume animal) e utilizando-se de um terreno que renovava, todos os anos, seu teor de nutrientes com o transbordamento das águas do lago, a família Costa obtinha, dessa maneira, uma verdadeira produção orgânica, tão valorizada nos dias atuais. O tipo de tomate cultivado (e muito apreciado à mesa e na cozinha dos vianenses) era o chamado tomate de massa, espécie com grande percentual de água e de sabor agradável, mas altamente perecível, o que dificultava sobremaneira sua comercialização em maior escala. 

A vida social – Ao lado da esposa e fiel companheira, D. Maria Gomes Costa, o bem-sucedido comerciante participava ativamente da vida social da cidade. Fã e incentivador dos bailes de carnaval, foi um dos sócios fundadores do Grêmio Recreativo Vianense. Tinha como hoby as pescarias no lago e as caçadas pelos campos (era exímio atirador). Na culinária, influenciou os vianenses no hábito de consumir o peixe tubi, grelhado e acompanhado do arroz pilado na hora. Sem negar suas origens, também apregoava entre os amigos os pratos de sua preferência como a paçoca de carne e o bode assado e cozido.

O Sr. Costinha exerceu a presidência da Associação Comercial de Viana por vários anos  e também o cargo de tesoureiro do antigo Ginásio Professor Antônio Lopes.

Em 1972, com a mudança do Sr. Assis e família para São Luís, dissolveu-se a firma “Irmãos Costa”, após mais de duas décadas de existência. O Sr. Costinha, entretanto, continuou no ramo do comércio, criando uma nova firma que recebeu o nome de Almeida Costa, até aposentar-se em meados de 1975. 

O desaparecimento precoce – Aos 55 anos de idade e menos de um ano depois da aposentadoria, numa viagem de negócios ao Estado do Pará, Raimundo Nonato Almeida Costa teve morte trágica, vítima de atropelamento na BR-316. Naquela tarde fatídica de 22 de maio de 1976, um carro em alta velocidade ceifou de maneira brusca uma vida inteira de trabalho e de dedicação à família.

Francisco de Assis Costa, ao contrário, gozou de boa longevidade. Faleceu, em São Luís, no dia 28 de novembro de 2003, aos 84 anos de idade.

Por Luiz Alexandre Raposo 

Os irmãos Francisco de Assis e Raimundo Nonato Costa com suas respectivas esposas:  Maria de Lourdes Coelho Costa e Maria Gomes Costa